quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Farinha de crueira, seu mingau e biscoito. Quinta sem trigo 37



Na semana passada, mostrei a casa de farinha que visitamos em Salvaterra, no Marajó. Quando dona Jerônima viu a crueira na peneira, foi logo pedindo. "Brito gosta tanto de mingau de crueira, diz que comia na infância, que a mãe fazia e eu nunca fiz"! Ganhou um pacote. Veja que, mesmo para uma marajoara autêntica, crueira já não é mais um ingrediente comum que se acha em qualquer esquina. Fiquei animadíssima. "Vamos levar, quero ver como se faz".  Levamos pra casa um saco de crueira que ficou na urupema - a mandioca descascada é deixada pubar (amolecer) em água, é triturada, prensada no tipiti e peneirada na urupema. O que passa pelo crivo vai pro tacho virar farinha (veja o vídeo) e o que ficam são fibras, pedaços mais duros e pavios. Esta é a crueira. Pode ser desidratada na beirada do fogão a lenha, aos poucos, ou pode ser seca ao sol. Ou ainda no tacho se alguém se dispõe a mexer para não queimar - parece que ninguém quer gastar muita energia para secar crueira. Se tem sol, por que ser de outra forma?

Chegamos em casa e Nonato foi logo espalhando os pedaços sobre uma assadeira de alumínio. Palpitei que se colocasse numa urupema para termos ventilação por todos os lados, assim secaria mais rápido.  Coloquei sobre o telhado e revirei uma ou duas vezes durante o dia. À noite, tiramos do telhado e deixamos sobre a mesa. Por pouco não perdemos tudo pois a arara (que vive lá a pedido do Ibama depois de ser maltratada em algum canto) fez questão de espiar o que havia por baixo dos panos e derrubar a urupema  - conseguimos salvar um pouco, mas o que estava no chão foi para as galinhas.

Aos poucos, a crueira de amarela foi ficando branca. Quando secou totalmente estava alvinha. Seu Brito lembra-se de um mingau com carocinhos, mas nunca viu a mãe fazendo. Talvez fizesse pisada no pilão, que era a forma de se transformar aquelas partes duras em farinha.  Mas nós fizemos no liquidificador. Fomos batendo aos poucos até restar uma farinha fininha. Ainda passamos por peneira. Dona Jerônima usou para o mingau a parte mais granulosa que ficou na peneira. A parte fininha, trouxe para mim. O mingau, com pouquíssimo açúcar e uma pitada de sal, como é costume entre os marajoaras - nada de mingau muito açucarado -,  fica delicioso, um pouco visguento, como mingau de aveia. Aliás, você acha que está comendo mingau de aveia.

A farinha tem um sabor ligeiramente ácido e é rica em fibras e amido, além dos minerais presentes na casca e nos pavios. Não paro de me perguntar, por que será que não tem no mercado farinha de crueira? Tão útil não só para quem não pode consumir trigo, centeio, aveia e cevada, mas também para quem quer diversificar e ter outras opções além do trigo. Dá pra fazer não só mingaus, mas broinhas, bolos e biscoitos. E, imagino que uma outra infinidade de pratos. Pena que trouxe tão pouco. Quando tiver mais, testo outras coisas.

A receita do mingau é da Dona Jerônima e a da biscoito é uma adaptação de uma tradicional (broa de crueira). Como estraguei parte do que tinha com uma receita de bolinhos que não deram certo, pouca coisa sobrou para os biscoitos, mas, como num golpe de sorte, ficaram muito bons. Se tivesse mais farinha, apenas faria novos testes aumentando o espaço nas formas. Mas em nada o sabor ou a textura ficaram comprometidos. Bons para levar em longas viagens, comportam-se bem em latas por vários dias, ficam firmes, mas macios, quase como pães de mel. Acho que combinam com  água bem gelada ou tão fresca quanto a de um pote de barro ou de um igarapé. Tomada na cuia ou numa caneca de alumínio bem areada. Mal comparando, quase como um cantucci com vino santo.

A crueira


A crueira úmida,  seca e triturada 
A receita do mingau é da Dona Jerônima - ela fez com o olho da experiência vasta em outros mingaus, mas eu corri atrás e medi tudo o que foi usado.  A receita está aí embaixo. A de biscoito é uma adaptação de uma tradicional (broa de crueira). Como estraguei parte do que tinha com uma receita de bolinhos que não deram certo, pouca coisa sobrou para os biscoitos, mas, num golpe de sorte, ficaram surpreendentemente gostosos. Se tivesse mais farinha, apenas faria novos testes aumentando o espaço nas formas. Mas em nada mudaria os ingredientes.  Bons para levar em longas viagens, comportam-se bem em latas por vários dias, ficam firmes, mas macios, quase como pães de mel. Acho que combinam com  água bem gelada ou tão fresca quanto a de um pote de barro ou um igarapé. Tomada na cuia ou numa caneca de alumínio bem areada. Mal comparando, quase como um cantucci com vino santo.  

Seu Brito matou a vontade. Disse que este é o mesmo mingau da infância


Mingau de crueira para o Seu Brito - receita da Dona Jerônima Barbosa Brito

Coloque numa panela 1 litro de leite,  10 colheres (sopa) de crueira granulada, 1 colher (sopa) de açúcar e 1 colher (chá) de sal.  Leve ao fogo e cozinhe, mexendo sempre, até ficar com consistência de mingau (cerca de 10 minutos).

Você pode deixar mais espaços na assadeira para não acontecer isto

Mas se acontecer, é só quebrá-los em pedacinhos e dizer que é "efeito". 
Biscoitos de crueira 

2 ovos
150 g de açúcar mascavo (cerca de 3/4 de xícara)
1 colher (café) de bicarbonato de sódio
1 colher (sopa) de manteiga (sempre rasas as colheres do Come-se)
1 colher (chá) de especiarias trituradas - cravo, canela, erva-doce
175 g de crueira bem fina, peneirada (cerca de 1 e 3/4 de xícara)

Na batedeira, bata bem os ovos com o açúcar - até espumar. Junte a manteiga em ponto de pomada e continue batendo. Junte os outro ingredientes e misture bem com uma colher. Deixe hidratar um pouco (cerca de 10 minutos), retire porções de 30 gramas com uma colher de sopa e, com as mãos untadas de óleo, molde em formato de bola (se preferir, faça bolinhas menores).  Coloque em assadeira untada e enfarinhada com crueira, deixando espaço de 4 centímetros entre elas.
Leve ao forno médio pré-aquecido e deixe assar até que fiquem douradas e sequinhas (cerca de meia hora).

Rende: 15 biscoitos

Nota: pena que não tinha mais farinha, porque só pude polvilhar um biscoito com um restinho de crueira. Mas posso assegurar que fica bonito, com a superfície toda craquelada depois de assado (dá pra ver um deles assim na foto dos biscoitos). 

10 comentários:

Bia Jubiart disse...

Ohhhhhhhhhh saudadessss!

Neide, há muito tempo que não ouvia ou via o nome crueira, sei fazê-la. Já fiz também muita farinha puba farinha seca, caia nos poços para descascar mandioca pubada, ficava com cheiro impregnado na mão por semanas... Vc também já ouviu falar em mingau de manicuera, o doce dele é natural, uma delícia!

Beijos e uma ótima tarde!

aguiar disse...

Neide,
tudo isso fez parte da minha infância, na fazenda do meu pai tinha uma "casa de farinha"(qta farinha, beijus, crueira e afins)
pra tudo tinha que ter farinha, no café da manhã comíamos escaldado de farinha com leite e café(delícia), pirão(branco pra comer com carne salgada assada na brasa, pirão colorido pra comer com carne ensopada, pirão de ovo, pirão pra comer com peixe salgado(piau, traíra e outros peixes pescados nos riachos de perto de casa), pirão pra comer com galinha caipira (de mulher parida)...Fico pensando por que não aproveitar melhor esse alimento em maior escala? Para produzir pães por exemplo.
Na minha adolescência ajudava minha mãe a preparar pamonha de mandioca puba (trabalhoso) mas uma delícia.Gostaria de fazer algo para perpetuar esses costumes.
Bjs

angela disse...

BRASILLLLL!! Ah! que registro! E eu não entendi nada!!!!!!:-)))

alessandra disse...

Há quanto tempo não via crueira! Eu vivi no Pará até a adolescência. Tomei muito mingau (com e sem açúcar, com e sem leite) e comi bolinhos fritos de crueira. Em vez de assar, tente fazer umas rosquinhas e fritar. Não sei a receita, mas vou perguntar para a minha avó.

Neide Rigo disse...

Angela, poxa, achei que tinha sido tão clara! Mas depois eu lhe explico tudo pessoalmente.

Alessandra, obrigada pela dica. Veja se consegue e receita com sua avó e tento conseguir mais farinha de crueira.

Um abraço,
N

alessandra disse...

Neide, só hoje voltei aqui. Espero que ainda possa ler. Minha avó disse que ela só acrescenta água quente na farinha de crueira, de modo a "escaldá-la", coloca uma pitada de sal e um ovo. Amassa bem com as mãos até dar liga. Fica uma massa como a de pão. Depois você faz os bolinhos em forma de rosquinha e frita até começarem a dourar. O sabor é muito simples, mas é original, do mundo dos ribeirinhos paraenses. abraços.

Maria lucia disse...

Neide, boa noite. Adoro passear pelo seu blog e ja fiz algumas receitas. Gostaria de saber se é possivel fazer panquecas com farinha de aveia. Ou outra farinha que não seja a de trigo.Eu tentei mas não consegui. Obrigada por me ajudar. Meu endereço de e mail é maucha50@gmail.com

Neide Rigo disse...

Maria Lúcia,
estas ficam boas: http://come-se.blogspot.com.br/2011/05/quinta-sem-trigo-18-panquecas-coloridas.html

Um abraço, N

Unknown disse...

Bolinho de crueira fez parte da minha infância e tráz muitas lembranças da minha vó.
Delíciaaaa

Dany Reis disse...

Bolinho de crueira fez parte da minha infância e tráz muitas lembranças da minha vó.
Delíciaaaa