terça-feira, 24 de maio de 2011

Fartura, nunca mais


Dizem que aos 49 anos a vida da gente muda de um jeito importante. Nunca acreditei muito nisto, mas nestes últimos meses muitas coisas diferentes aconteceram, principalmente em relação a trabalho. Fui pro Senegal, conheci Paris, saí na Vogue, no Globo Reporter,  fui funcionária da TV Globo como consultora durante três meses com carteira assinada, entrei num projeto na Nutrição da USP e em breve devo ir para Acrelândia fazer uma oficina, estou em outro trabalho sobre o programa de aquisição de alimentos da agricultura familiar para a merenda escolar, no fim da semana vou pro Marajó com o James, editor da Saveur, e em breve assumo um trabalho muito legal que eu ainda não posso contar. Tudo aos 49!

Mas as mudanças mais importantes ainda estavam por acontecer. Há alguns dias o sítio de Fartura foi vendido e neste fim de semana já trouxe toda a mudança de nossa casa para cá, na certeza de ter em breve outro sítio. Quem sabe um sítio em Paraibuna?  Nós tínhamos uma chácara grudada ao sítio do meu pai, mas minha casa ficava na propriedade dele. Então, tudo foi vendido junto. A despedida não foi fácil. Meus pais já haviam comprado uma casa em São José dos Pinhais, no Paraná e amanhã estarão se mudando para lá. Bem pertinho da minha irmã, o que me deixa muito feliz. Aliás, estão todos muito felizes. Meus pais, porque vão descansar um pouco e ficar junto de uma filha querida. Minha irmã, porque queria tanto os pais por perto. E nós todos porque se eles estão bem e felizes nós também estamos.  A tristeza que senti na despedida não tem a ver com a casa - tem também, claro, afinal foi desenhada por mim e a construção acompanhada de perto pelo meu pai que bancou o empreiteiro, mas principalmente pelo fim da situação fartura que incluia tudo, da jaqueira centenária à casa de madeira que foi trazida do Paraná há mais de cinquenta anos. Do jambo que mostrou neste ano as primeiras flores aos patos e galinhas. Do cheiro de fogão de lenha à algazarra que ouvia da minha casa no alto do morro todas as vezes que a família se reunia na cozinha aberta para falar de tudo com tempero de muitas risadas. Da minha avózinha que se ajeitava de cócoras junto ao fogão para se aquecer enquanto pitava seu cigarro de palha quando era viva ao cheiro do café secando no terreiro.  Das cantorias com violão dos meus cunhados Tonho Penhasco e Darly enquanto tomávamos caipirinha de limão rosa e esperávamos o almoço àquela cantoria das galinhas se preparando para dormir.  A tristeza não é pelo sítio mas pela gente no sítio com tudo o que ele oferecia.   Vou sentir saudade da mesa de café da minha mãe em que tudo em cima dela vinha dali, da manteiga feita pelo meu pai à geleia, pão e queijo feitos por ela. Eles estão cansados e só querem agora colocar uma cadeira na calçada no fim da tarde e ver o movimento da cidade. Sentiam-se tristes sozinhos no sítio no domingo à noite, com aquele quero-quero barulhando distante. Era longe pra irmos a toda hora e a maior parte do tempo eles estavam solitários. Não nasci em Fartura, não nasci no campo, mas meus pais ali eram como se uma parte de mim, tão rural, pudesse assumir este lado caipira, de fazer o que não posso, para o que não tenho o talento deles. Fartura foi inspiração para este blog desde o começo, a ponto de me  julgarem farturense. Mas os ciclos tem começo, meio e fim e agora com esta ausência vou ter que me reinventar. Para completar, Ananda também está saindo de casa para morar sozinha perto do HC, onde faz residência.

E também, pela primeira vez lancei no Come-se uma charada na sexta-feira que ninguém soube a resposta. Nem eu! A esperança era que algum leitor soubesse. Ganhei a fruta de um amigo que nada sabia dela - apenas que vem de Campinas e passarinho não come - experimentei, é docinha, tem dois caroços, mas pouca poupa, como um ingá.

Depois posto as últimas fotos de Fartura e bola pra frente.  Ah, a testeira nova é presente da amiga artista Adrianne Gallinari.

33 comentários:

Daniel disse...

Imagino que perder esse pedacinho de terra com seu super pacote ecológico-afetivo-alimentar seja um pucadinho triste, mas a vida é essa, e a fartura que seu blog, trabalho e generosidade nos oferece vai muito além das idas e vindas da vida.. nos mostra que é possível ser diferente e fazer diferença, seja na cozinha, na praça, no jornal, no fórum social, a atidude é a mesma e vem do coração...

Obrigado Neide!

Anônimo disse...

Lindo texto, Neide! O engraçado é que leio como se tivesse me despedindo de Fartura com vocês. Seja pelo seu blog, ou pelas conversas com a Biba quando trabalhávamos no mesmo projeto, eu adorava escutar as histórias de lá. Acho que entendo mais ou menos como você se sente, como foi quando arrendaram a fazenda do meu falecido avô, em que passei boa parte da infância. Eu quis ir até lá, para olhar mais uma vez, para recuperar alguns móveis, mas me disseram para evitar, que os arrendatários haviam descaracterizado o local e seria muito triste. Pouco tempo depois a fazenda foi vendida, e nem tive a oportunidade de me despedir. Pra mim não era tristeza, mas uma certa consciência que as memórias não morrem, mas vão parar de crescer.
Sei lá, falei demais e mudei de assunto né? Mania...
Bjs, Leticia

DrºHaroldo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lina disse...

Olá, Neide achei lindo o seu texto, deu-me muita nostalgia...já vivi muitas situações de mudanças também. Mas um lugar é apenas um lugar, por mais lindo que seja...Agora o lugar+pessoas+sentimentos, é que resulta nas lembranças e nos momentos que ficarão guardados para sempre nos vossos corações, como bem descreveste. Tenho a certeza que esta viragem irá trazer também imensas alegrias para vocês, as reviravoltas fazem bem à vida!
Beijinhos, de uma Paulista que vive em Portugal

Bombom disse...

Como dizes, a vida tem ciclos com princípio, meio e fim. A despedida é sempre nostálgica, seja de uma pessoa, de uma árvore, de uma casa ou de uma fazenda. Agora o que importa é o bom que foi enquanto durou, é durou muito. É a recordação desses belos momentos vividos em comunhão com a Família e com a Natureza que reforçará "os laços". E outros momentos felizes virão para reocupar o lugar dos que se foram e deixaram saudades, felizmente. Bjs. Bombom

Paulinha disse...

Acompanho seu blog já tem um tempão pelo reader, não sei se já comentei aqui alguma vez. Admiro muito seu estilo de vida e seu conhecimento também, mas tem muitas coisas aqui que não afzem parte da minha realidade, mas mesmo assim sigo firme e forte adquirindo conhecimento =)
Sou "novinha" tenho 24 anos, fui mãe as 16, quase nunca cuidei da minha alimentação e nem a do meu filho mas de uns anos pra cá eu comecei a mudar e comprar as coisas que minha mãe não comprava em casa, como pão integral, arroz integral e diversas frutas. Já consegui mudar um pouquinho que seja por mim e com ajuda do seu blog e de outros de alimentação sudavel que acompanho. Ontem meu filho me disse que preciso fazer salada para ele todos os dias, adoro qdo ele mesmo pica a banana e come com aveia e mel, é sinal de que estou conseguindo aos poucos mudar e melhorar.
Fico feliz quando vejo alguma revista ou site que menciona seu blog, e comprei a vida simples de junho e tem a indicação do seu blog, fiquei muito feliz por você.
E concordo muito com o que seu marido disse uma vez viu? Para você postar as vezes coisas mais acessiveis. Mas eu sei qual é seu foco, fica tranquila, leio todos os posts te acompanho sempre.
Beijos e muito sucesso para você!

Dricka disse...

Ai Neide, lindeza de texto!
Entendo perfeitamente sua tristeza por tudo o que o sitio de
Fartura representou em sua vida, é dolorido dizer adeus ao que amamos, mas a alegria de um renovo compensa as agruras da despedida.
Bjs e ainda mais sucesso na sua vida e na de Ananda, que tambem inicia um novo ciclo.

Anônimo disse...

Engraçado ne , achei seu blog por causa de Fartura desde entao te acompanho , ficava toda prosa em falar que a famosa e inteligente Neide Rigo tinha um sitio em Fartura. Na verdade muita gente ate hoje quando falo que nasci em Fartura dao risada e falam , farta tudo ... digo nao tudo e uma Fartura tinha esperança de ir pra la e te encontrar mas, tudo nessa vida muda e suas mudanças serao boas com certeza por favor querida , continue falando de Fartura assim as pessoas saberao que existe e e linda .....Beijos Denise

O Impenetrável disse...

muito lindo o seu texto, distraidamente me deparei com o seu blog e achei tudo muito lindo, bem escrito e inspirador. quando puder estarei sempre por aqui. grande abraço.

Paulo_weidebach disse...

Neide querida! Ainda irei a Fartura em sua homenagem. Estamos com muitas saudades dos piqueniques. Quando vamos fazer um programa de tv seu?? bjs

Sil disse...

Que delícia de texto, Neide! Imagino com se sente, porque já passei por isso, duas vezes. Mas o melhor é que vocês ainda terão muitos novos lugares para construir novas histórias...E esse som de risadas, misturada com conversa, e muitos sabores não passa nunca. Um beijo cheio de carinho, Silvia

Anônimo disse...

Olá Neide! Confesso que não estava acreditando muito que o sítio realmente seria vendido e o que mais me pesava no coração era pensar que aquilo parece ter sido a vida de seus pais e para pessoas de idade, muitas vezes, uma mudança destas quer dizer muito mais que é hora de parar, e não de recomeçar. Assim, me sinto aliviada por constatar que eles estão, sim, recomeçando. Com apoio e carinho da família. Viva o recomeço que eles conquistaram. Tomara todos nós pudéssemos ter esta serenidade. Um abraço
Gilda

Gabriele disse...

Lendo a sua despedida desse lugar que vi ser muito importante, consegui sentir o cheirinho e o sabor de tudo o que vc descreveu...eu imagino que os cheiros e sabores ainda vão ficar na memória para vc sentir toda vez que pensar em Fartura...

Beijos

Gabi disse...

Por aqui, os olhos marejam de saudade de um lugar que nunca fui, nunca vi e provavelmente, nunca verei.

Que bom que estão todos bem e satisfeitos com as mudanças.

Entendo a tristeza dos seus pais, no domingo a noite... Provavelmente eu tb ficaria assim, se vivesse lá, sempre na expectativa de ter a família visitando e partilho a tristeza deles, ao ver todos indo embora...

Que os novos donos do sítio em Fartura tenham cuidado com tudo o que tem lá, que eles tenham lindos dias e memórias do que irão viver.

Boa sorte para todos e muita, muita alegria em todas as novas mudanças!

Luce disse...

bem legal a nova testeira.

Gina disse...

Era uma química grande entre Fartura e você!
Com esse pé no chão, mãos de quem aprecia tudo que a terra oferece, que descobre espaço para cultivo até em meio metro... ,logo terá seu novo sítio, adotado, produzindo alimento e encantamento.
O que há de melhor, você está levando na alma!
Ah, e a família veio pra pertinho de mim. Quando vier visitá-los, dê uma esticadinha até Curitiba, viu?
Bjs.

JOSÉ ROBERTO BALESTRA disse...

Saudade é assim mesmo, um sentimento que nasce antes de ser. Gostei muito do seu blog. abs

pastifício dell'amore disse...

Como diria Dylan, os tempos estão mudando...Mas como seu próprio texto revela, você continuará sempre cercada de muita fartura.

Margot disse...

Emocionei! A minha relacao com o sitio era como o "Nunca te vi, mas sempre te amei"! Neide querida, que Fartura continue dando bons frutos e que os seus pais continuem semeando o conhecimento e o carinho que teem com a terra em sua nova morada! E que voce, continue dividindo toda essa preciosidade com a gente! Obrigada! Vida longa aos Rigos! Bjs

Inês Corrêa disse...

Neide, ainda bem que coisas difíceis são acompanhados por coisas boas. Uma compensa a outro. Não sei se isso acontece com todo mundo ou somente para quem consegue ver, viver de verdade. Vou ficar com saudades de Fartura também. Muita saudade. Da manteiga caseira do seu pai. Doas pães da sua mãe. Do cheiro de mato e de vaca. Das galinhas correndo pra cima e pra baixo, livres. Esta lembranças ninguém tira da gente. Força total pra vc. Beijão.

umconceicao@gmail.com disse...

Neide, voce merece tudo que está acontecendo de bom com você, as perdas fazem parte do jogo da vida!
Afro Abraço
Maria Conceição

Anônimo disse...

Despedida.ppt

Anônimo disse...

Oi, Neide! fiquei tão ansiosa para ler o texto que só depois reparei na testeira nova. Já vivi essa situação com meus pais e sempre quis descrever o que sentia em relação a isso, mas me faltavam palavras. O seu texto é exatamente o que senti na mesma ocasião. Obrigada por traduzir em palavras um sentimento tão intenso. Ah! eu apenas não digo nunca mais para nada... a gente nunca sabe, talvez...
Saúde e felicidade para todos os seus. Izabel

Anônimo disse...

Gostava mais da outra.

Anônimo disse...

Neide você me deixou com os olhos marejados. Eu nasci no campo e fiquei por lá até os dez anos de idade, então conheço bem esse clima de interior, de galinhas no terreiro, quintal grande cheio de árvores frutíferas...
Desejo sorte pra você e sua familia nesse novo ciclo que se inicia.
Hildeny Medeiros

angela disse...

Fiquei que nem a Hildeny, com o olho cheio d ´água. Quem sabe se você não vem por aqui e decide encontrar aqui, nas terras altas, sua nova fartura? Claroq ue o importante é que seus pais estejam bem nessa nova fase de vida, que coragem!
Já estou com saudades de fartura.

Valentina disse...

Querida, muito sucesso. Que bacana! sua fa de longe.

Marina disse...

Esse é seu diferencial, Neide, come, cozinha e escreve com a alma. Boa sorte com o novo misterioso projeto, e continue sempre assim!

Anônimo disse...

Neide querida, eu via Fartura pelos seus olhos e pelas suas palavras. Chorei de emoção imaginando você saindo da sua casa e deixando as árvores e a terra que você tanto gosta. Mas também acho que todas as coisas são cíclicas e um dia terminam e temos sempre a emoção do que é novo, do que ainda vai vir e vamos descobrir. Tantas coisas novas se abrindo na sua frente. Desejo a você muita alegria nesses novos caminhos que agora começa a andar levando Fartura na sua bagagem e no seu coração. Um beijão. Chus.

clau disse...

Ah...sei bem como é isto e, até, me consigo me colocar na sua pele, Neide.
Terminar uma fase, seja longa seja curta, é sempre duro e desconfortavel, até qdo a fase não era assim uma maravilha: então imagine uma que era boa!...
Mas começar outra nova pode ser sempre uma boa surpresa: e nós temos que confiar nisso!! rss
Boa sorte à vc e toda a sua família neste vento de mudanças!
Bjs!

Flora Maria disse...

Oi, Neide:

Nem preciso dizer que fiquei emocionada com sua história...

Lembrei muito do meu filho que, do alto dos seus 36 anos, é um saudosista de mão cheia e terrivelmente apegado às pessoas e às casas que a família já teve. E ele sofre com essas mudanças que a vida nos traz. Eu digo-lhe que a vida é assim, e em cada novo lugar, temos a chance de recomeçar tudo de novo, fazer uma nova página, experimentar coisas novas.

De qualquer forma, as despedidas são muito tristes...

Mas certamente logo você encontrará seu novo paraíso !

Beijo

Cláudio Gonzalez disse...

Meu sonho é um dia ter um sítio, mas só a hortinha minúscula que tenho em casa já dá um trabalhão cuidar, então consigo imaginar que seus pais realmente deviam estar cansados. Cuidar de chácara/sítio exige uma dose enorme de boa vontade e trabalho pesado. Não é para qualquer um. Espero que o novo proprietário saiba valorizar tudo de bacana que ficou por lá. E se um dia um de nós leitores do Come-se ganhar na loteria, podemos comprar o sítio de volta e transformá-lo na Escola Livre de Gostosuras Naturais Neide Rigo. O que acha? :-) Brincadeirinha, é para espantar a tristeza que bateu aqui quando li o post "Fartura, nunca mais".

Rosane Mendonça disse...

Oi Neide,acabo de ler seu texto e fiquei muito triste também,é como se eu fizesse parte de tudo....Amo tudo que você faz e o melhor é que você passa esses conhecimentos pra nós,muito obrigada.Mas espero que você consiga um outro sítio igual ou melhor que Fartura.Parabéns por tudo que você é e pelo que você faz.