segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Nhambutitana, jabutitana ou marupazinho


Pois é, só a Alessandra acertou a

última charada. Não é ruibarbo, não é tiririca, nem chalotas das roxas e muito menos rabanetes. Mas mesmo assim obrigada aos leitores que arriscaram.

Trata-se da espécie Eleutherine bulbosa, que uma amiga, a Sueli, me trouxe da terra dela, Jacupiranga-SP, no Vale do Ribeira, onde é conhecida como nhambutitana ou jabutitana e é usada para diversos males, mas também para comer de brincadeira. Segundo Sueli, quando era criança, aproveitava para assar no forno junto com batatas-doces, para aproveitar o calor. Ou apenas cozinhava com sal. Mas me contou também que não conhece uma receita culinária em que o bulbo aparece. Não era comida, era diversão. É como ingá ou destas frutinhas que se come pra alegrar a boca.
Mas antes de comer, fui atrás de saber mais. Com o nome científico, se tiver curiosidade, vai encontrar no Google Acadêmico inúmeros trabalhos na área de fitoterapia, falando dos princípios ativos - naftoquinonas, eleutherinona, eleuterina, isoeleuterina e eleuterol -, e suas propriedades como antifúngicos, antileishmaniose, antibacteriano, antitumoral etc.
No livro "Plantas Medicinais no Brasil - Nativas e exóticas", do Harri Lorenzi e F.J. Abreu Matos, a espécie, conhecida também como marupari, marupazinho, marupá-piranga, palmeirinha, lírio-folha-de-palmeira ou wá-ro, é descrita como herbácea bulbosa e rizomatosa, nativa da América tropical, incluindo os campos secos da Amazônia brasileira. Os autores falam da facilidade de se multiplicar através dos bulbos tornando-se erva-daninha, fala que durante o inverno, nas regiões sul e sudeste, ela perde a parte aérea (quando seca, é hora de colher, segundo a Sueli, e não precisa mais plantar, que sempre sobrarão batatinhas no solo). Dizem que o hábito de usar a planta como medicina caseira vem dos índios - para diarreia, problemas gástricos e vermes, entre outros usos -, e que não tem comprovação científica. Mas não cita o uso do bulbo como alimento, o que me fez buscar outras literaturas.

De fato, você vai encontrar muita bibliografia a respeito desta planta com bulbo escamado como uma pequena cebola roxa (mas as folhas não são como as da cebola, em caninho, e sim retas e plissadas longitudinalmente como as de uma palmeira), mas sempre falando das propriedades medicinais ou do pigmento avermelhado - diferente da antocianina da cebola roxa, que descolore com o calor da cocção, neste caso o pigmento persiste tingindo o caldo em que é cozido num tom lindo rosado. O pigmento já é explorado comercialmente e a planta é cultivada em vários países fora da América.

Se não encontrei referências a ela como alimento, também não encontrei trabalhos dizendo que a planta poderia ser tóxica se consumida. Já estava quase desistindo da pesquisa, quando me deparei como a seguinte informação neste site : Eleutherine bulbosa, Sisyrinchium bulbosum, Galatea bulbosa - Family: Iridaceae - Lagrimas De La Virgen, Yahuar Piripiri - Origin: Central to South America - A low-growing plant (1 ft tall) with plaited leaves and scented white flowers that open in late afternoon. Can be grown in pot or outside in full sun. In Sabah they use it in cooking and pickling. The bulb is like a miniature red onion and spicy.

Tudo bem que era uma site comercial, mas com esta informação, ficou um pouco mais fácil. E saber que em algum lugar do mundo, além do Vale do Ribeira, se come esta planta foi um consolo. Descobri que na Ilha de Borneu (Malásia e Indonésia) o bulbo pode ser usado na cozinha como uma cebola selvagem. O único nome que descobri para ela foi "bawang tiwai", que quer dizer "cebola tiwai". Mas novamente tudo o que achei com este nome tratava do assunto fitoterapia. Imagino que haja outros nomes asiáticos com que possamos encontrar mais referências do ingrediente na cozinha. Uma receitinha que seja.

Enquanto não descubro (e, claro, qualquer informação de leitor será bem vinda), resolvi fazer a primeira coisa que costumo fazer quando alguém me diz que a coisa é de comer - cozinhar em água e sal. A água ficou com uma coloração linda e o bulbo com consistência macia, mas densa sem ser crocante como uma cebola crua nem mole como uma cebola cozida. O sabor é especial, lembra muito de longe uma cebolinha verde, mas sem a picância. Apenas um quê de amargo. Eu gostei muito. Um tanto, plantei no quintal. Outro, usei para o arroz e o confitado no azeite. Agora é esperar a produção e mais pesquisas. Uma sugestão para alunos de nutrição, biologica, química, bioquímica, engenharia de alimentos. Lembrando que muitas dos nossos alimentos são também medicamentos ou alimentos funcionais.

Nhabutitana e chalotas roxas
Nhabutitana no alho e azeite: cozinhei no vapor e passei no alho refogado. Sal e salsinha pra finalizar.
Nhabutitana com arroz: refoguei os bulbos junto com alho, juntei o arroz e cozinhei normalmente com água e sal.

15 comentários:

Claudiaroma disse...

Nossa, nunca tinha ouvido falar...valeu! bjs

Dona Kaetana disse...

Fala sériu!!!
Eu jurandoque era ruibarbo!

remall disse...

Que cara boa ficaram as comidinhas.
Vou procurar pelos lados aqui de Minas, fiquei com agua na boca só de imaginar no azeite.
Valeu a dica !
Seu blog esta cada dia melhor.

angela disse...

Caramba, o nome da coisa lembra as pegadinhas que o Prof. Raimundo fazia com a pobre Zezé Macedo, Dona Bela, e ela caía no chão!
Coragem, seu nome é Neide!
Comeu sem saber se era comestível! Se continuar inteira daqui a dois dias, também quero plantar! :-))

http://cafezinhocombiscoito.blogspot.com

smello disse...

SEN-SA-CIO-NAL!!!! Vou mandar o link agora mesmo pra minha mãe, ela vai adorar ler tudo o que voce descobriu... Por sinal, ela viu a foto e não sabia o que era.
Se é uma planta usada na Malasia e Indonesia, então pergunta aqui nesse blog (eu acompanho):
http://rasamalaysia.com/
Eu morei na Asia e tenho imensa curiosidade sobre culinária asiática. Infelizmente não devo ter visitado bons restaurantes quando estive em Bornéu, pois não gostei muito da comida. E olha que eu gosto de comida étnica...
Bom, mas adorei sua pesquisa. Agora te pergunto: você conhece uma planta chamada "Polygonum"? Fui a um workshop de culinária vietnamita e a salada que a menina fez levava folhas dessa planta, que ela chamou de "Laksa" (mas não é o prato indiano, não). Parece que também chamam "Coentro Vietnamita".

Neide Rigo disse...

Dona, no rui barbo comemos os talos que são vermelhos.

Obrigada, Remal!

Angela, pode comer sem medo. Só não vale fazer "dieta da nhabutitana"

Smello, obrigada pelo link. Vou ver. Quanto à erva, conheço o coentro vietnamita (há quem o chame de menta, mas não é) só de literatura, mas nunca vi por aqui. O curso foi aqui?

Um abraço,
N

Margot disse...

Vivendo e aprendendo, Neide! Jurava que era uma echalote ou Chalota. dei uma olhada rapida do lado de cah, soh achei esse link da Tailandia (http://translate.google.co.th/translate?hl=th&sl=th&tl=en&u=http://www.foodietaste.com/cookingtips_details.asp%3Fid%3D256), que fala dos ingredientes para o curry tailandes. Entre eles, esta Eleutherine bulbosa que eles dizem que muitas pessoas confundem com a cebola roxa (pra mim, esses bulbos sao as caras de uns fucinhos de outros). Aqui, pra eu fazer uma das pastas do curry tailandes, eu compro no supermercado asiatico, o que eu achava, ateh ontem, que era uma echalote. Bjs!!!

Neide Rigo disse...

Margot, elas são mesmo muito parecidas, como você pode ver na foto comparativa. Obrigada pelo link. Agora, sério que elas são vendidas no mercado asiático? Pode tirar uma foto e me mandar? beijos, N

Margot disse...

Neide, o que eu quis dizer, eh que, no link que eu te mandei, os tailandeses dizem que as pessoas confundem a Eleutherine bulbosa, por cebola roxa (ou chalota roxa). Ateh entao, eu sempre achei que era chalota tambem. Enfim, pra tirar essa historia a limpo, na proxima vez que voltar lah no mercado, eu pergunto aos Tailandeses se eles conhecem aquele bulbo por Eleutherine bulbosa ou se o que compro eh a chalota mesmo. Ufa! Quem sabe, vc nao confere pessoalmente :-)

Flora Maria disse...

Já estou passeando pelo seu blog há algum tempo e descobrindo surpresas incríveis ! Olha só a postagem que eu fiz em novembro:

http://floradaserra.blogspot.com/2010/11/procura-se.html

É incrível como você vai descobrindo tantos alimentos diferentes !
Confesso que tenho um pouco de receio de usar esses ingredientes tão inusitados, mas fico fascinada com a riqueza de alimentos que existem à nossa disposição !

Beijo

João Vicente disse...

Ola ...Neide! Meu nome é João Vicente, descobri seu blog por acaso, porque estudo, pesquiso e cultivo esta espécie a mais de cinco anos. Tive informação de que é comestivo, mas não tinha confirmação de alguem, agora, esta receita fara parte dos meus trabalhos e pesquisas. Só gostaria de fazer uma alerta, para que não consumam o bulbo inteiro, pois estão impedindo a proliferção da espécie e esta atitude é ecologicamente incorreta, alem do consumo exagerado de plantas sem orientção de especialista, pode provocar reações indesejáveis.Tenho vários trabalhos: agronômico, técnico, fisico-quimico,científico.Atualmente estou produzindo fitoterápicos.Esta planta tem várias utilidades. Quem interessar pelos nossos produtos, pode acessar os E.mail(s)jo.vin33@hotmail.com ou jo.vi3333@hotmail.com
Abraços...

Anônimo disse...

na minha terra conhece se por Cebola Berrante,,,Camila da Bahia

Decio Miyajima disse...

Estou precisando de mudas de eleutherine plicata
quem pode fornecer

Anônimo disse...

Grato. Me chamo Julio, estou passando dificuldades com o marupazinho em meu sitio. Até então desconhecido para mim. Como falado nas mensagens é uma planta medicinal. Mas para mim não estou vendo utilidades e precisando pelo menos diminuir um pouco dela que esta se alastrando como daninha. Gostaria de saber se tem uma forma de controle, pois assim poderei agora te-la como medicinal e ao mesmo tempo fazer um controle de sua expansão. Sou de Ipatinga-MG.

Anônimo disse...

Grato. Me chamo Julio, estou passando dificuldades com o marupazinho em meu sitio. Até então desconhecido para mim. Como falado nas mensagens é uma planta medicinal. Mas para mim não estou vendo utilidades e precisando pelo menos diminuir um pouco dela que esta se alastrando como daninha. Gostaria de saber se tem uma forma de controle, pois assim poderei agora te-la como medicinal e ao mesmo tempo fazer um controle de sua expansão. Sou de Ipatinga-MG. Contato
31988602629.