Carapaus tem carne escura como a do atum e da sardinha e são deliciosos. Comprei dois pequenos exemplares no Mercado da Lapa na sexta-feira, limpei bem e congelei. Foram eles o nosso almoço no domingo de trabalho.
Quando temos um domingo ocupado não me vem à cabeça sair para comer e muito menos pedir comida por telefone. Acho mais fácil meter alguma coisa na água, no forno, na brasa ou no vapor. Claro, o pré-preparo tem que ser rápido, mas o tempo que vai demorar para ficar pronto não importa pois este tempo uso para trabalhar nas minhas obrigações. É só ficar com o timer do lado do computador para não esquecer da vida e deixar queimar a comida.
Então o que fiz no domingo foi descongelar os peixes e logo temperar. Como ainda não estavam totalmente descongelados quando resolvi temperar, fiz uns cortes na pele para apressar o processo e ao mesmo tempo segurar o tempero que fiz assim: soquei no pilão 2 dentes de alho, 1 pimenta dedo-de-moça picada, sem semente, 1 colher (chá) de sal, umas 4 folhas de alfavaca e umas 4 colheres (sopa) de folhas de coentro. Soquei bem até virar uma pasta uniforme. Juntei gotinhas de limão, misturei e temperei os peixes. Deixei pegar gosto por cerca de 2 horas. Pouco antes de servir e de começar preparar os acompanhamentos, coloquei um braseiro pequeno de barro no quintal, enchi de carvão, joguei álcool por cima, risquei um fósforo e voltei para a cozinha. Coloquei numa panela água, sal, duas bananas da terra cortadas em pedaços, rodelas de cará e batata doce e levei ao fogo para cozinhar por cerca de 20 minutos. Refoguei com alho, cebola, pimentões e pimenta um pouco de milho novinho e feijão de corda verde já pré-cozido que também tinha congelado. Enquanto estes pratos cozinhavam, reguei os peixinhos com um pouco de urucum líquido e azeite, enrolei os dois em folha da bananeira, amarrei com barbante e coloquei sobre o carvão que já ia vermelho. Depois de uns 10 minutos as folhas já estavam queimando e eu virei o pacote, deixando assar por mais cinco minutos. Juntei ao feijão um pouco de dendê que trouxe do Senegal, temperei com salsinha, corrigi o sal e, pronto, o almoço está servido. Tudo combinou, achei. Coloquei a sobremesa também na grelha enquanto almoçávamos, nhac. Deixamos a louça suja e comemos satisfeitos as maçãs já no quintal. Delas falo depois e volto ao trabalho.
segunda-feira, 20 de junho de 2011
sexta-feira, 17 de junho de 2011
Cozido
Cozido é daqueles pratos que a gente vai sempre fazendo meio de olho e que cada vez sai de um jeito. O gancho para fazer um bem no meio da semana quando viriam jantar aqui uns amigos foi a banana da terra meio verdolenga que cozinhei e acabei esquecendo na geladeira. Eliana disse que aquela banana estava boa para cozido. Não exatamente aquela que já estava pra lá de injuriada, mas poderia ser outra. Ótima lembrança, já que não tinha a menor ideia do que faria no jantar. Fui ao Mercado da Lapa, gastei menos de quarenta reais e trouxe tudo o que precisava para um cozido para mais de 10 - que, na ausência de dez boas de uma só vez, por aqui foi suficiente para as visitas e durou mais três refeições e duas marmitas para o Marcos.
Adoro salada crua, mas no frio o conforto vem com pratos quentinhos, cozidos, macios. E, para falar a verdade, cozido pra mim é bom no inverno e no verão. E não preciso do pirão nem do arroz. Os legumes bastam. Se bem que na requentada de ontem, servi com cuscuz marroquino. Usei as dicas da Eliana e de minha amiga Silvia Lopes, duas baianas que cresceram fazendo e comendo suculentos cozidos. Não é o meu caso. O mais próximo de um cozido que comia na infância era um ensopado feito com carne e mandioca, mais para uma sopa, que continua sendo um dos pratos mais deliciosos que minha mãe faz sem nunca errar o tempero e o ponto de cozimento da carne e da raiz. O difícil do cozido é isto: o ponto certo dos legumes, cada qual com seu tempo. Quem tem prática já sabe quem vai antes para a panela e depois de quantos minutos entra o próximo para que, no final, todos fiquem no ponto ideal. Acho difícílima esta conta, já que nem todas as cenouras e mandiocas e abóboras cumprem o acordo de ficarem boas no tempo impresso nas tabelas dos manuais de cozinha. Carnes e legumes têm lá suas idiossincrasias e é preciso estar atento. Então, acho mais seguro, embora mais trabalhoso, ir cozinhando os legumes aos poucos e tirando da panela à medida que ficam cozidos e ainda firmes. No final, volta tudo para a panela para que sejam servidos todos bem quentes. Demora, mas vale a pena. É claro que fiz novamente a olho, mas desta vez anotei tudo, inclusive o sal, que ficou na medida mas que você pode reduzir se quiser. Quem não suporta cominho ou grãos de coentro mal vão percebê-los, mas saiba que é bom mantê-los, pois o sabor da carne saltará algumas notas acima sem precisar usar caldos industrializados. E agora chega de enrolação e vamos à receita:
Cozido
1 kg de acém e 1 kg costela
1/2 colher (sopa) de sementes de cominho
1 colher (sopa) de colorau ou urucum líquido
3 colheres (sopa) de azeite
3 folhas de louro
2 litros de água quente ou mais, se precisar
4 batatas doces pequenas (300 g)
2 cenouras (400 g)
2 pedaços de mandioca (300 g)
1/4 de abóbora cabochá (250 g)
4 batatas pequenas (360 g)
1 chuchu (430 g)
2 espigas de milho (570 g)
1/4 de repolho (400 g)
2 mandioquinhas (210 g)
10 vagens (100 g)
10 quiabos (130 g)
5 cebolas pequenas (500 g)
Modo de fazer
Se quer servir no jantar, comece a preparar o cozido lá pelas 4 da tarde. Limpe bem as carnes, tirando gorduras aparentes e os ossos da costela. Corte as carnes em cubos grandes e reserve. Deve render cerca de um quilo e meio. Os ossos da costela você pode guardar para fazer caldo ou sopa.
Numa frigideira coloque o cominho, a pimenta e o coentro e leve ao fogo. Quando o cominho começar a estalar, tire do fogo e triture no moinho de especiarias ou soque num pilão. No pilão soque bem o sal com o alho e a pimenta dedo-de-moça. Quando virar uma pasta, junte as especiarias e mais o colorau e soque bem até virar uma pasta. Se precisar, junte um pouco de azeite para ficar mais fácil de homogeneizar. Misture a carne neste tempero e espere pegar gosto enquanto prepara os legumes. A batata-doce e as bananas ficam inteiras e com a casca. A abóbora também fica com casca e as vagens e quiabos, inteiros, sem as pontinhas. Os outros legumes podem ser lavados, descascados e cortados em pedaços. Deixe tudo imerso em água.
Coloque o azeite numa panela grande e leve ao fogo para aquecer. Coloque a carne temperada e refogue até ficar sequinha. Junte as folhas de louro e 1 litro de água quente. Tampe a panela, abaixe o fogo e deixe cozinhar até a carne amolecer.
Depois de cerca de 2h40m as carnes deverão estar macias. Mas, depois de uma hora e meia, confira sempre. Junte, então, metade do cheiro verde e mais água quente até ter caldo suficiente para cozinhar os legumes. Comece juntando mais l litro e depois mais, se precisar. Se estiver sem muito tempo, use panela de pressão nesta primeira fase de cozinhar as carnes.
Junte as linguiças inteiras e comece a cozinhar os legumes. Comece pelo milho, batatas, mandiocas, chuchus. Fique perto da panela. Assim que perceber que o legume cozinhou, tire com uma escumadeira. Coloque cerca de 3 tipos de cada vez, assim pode retira-los da panela por grupos, à medida que ficam cozidos. As linguiças devem cozinhar por cerca de 1 hora.
Cozinhe separadamente as bananas cortadas em pedaços e as batatas doces inteiras com casca. Depois de uns 20 minutos ou quando estiverem macias, escorra, descasque e corte as batatas em rodelas. Cuidado para não cozinhar demais, pois depois ainda vão para a panela do cozido para uma fervura final.
Vá retirando os legumes e passando para uma tigela. No final, junte as cebolas, as vagens e os quiabos. Junte mais água se quiser um cozido com bastante caldo e especialmente se quiser usar parte dele para um pirão. Assim que todos os legumes estejam cozidos, volte todos para a panela e cozinhe até voltar a ferver. Espalhe por cima o cheiro-verde restante e sirva com arroz ou pirão (o caldo separado e engrossado no fogo com um pouco de farinha de mandioca). As linguiças, que foram tiradas da panela depois de uma hora, deve ser cortadas em rodelas.
Fotografei todas as etapas e esqueci do resultado final. Esta foto merreca já foi no segundo dia no jantar, prato requentado e remexido. Mas sei que você pode imaginar.
Ah, esqueci de comprar, mas senti falta do maxixe e do jiló. Se você gostar, coloque.
Adoro salada crua, mas no frio o conforto vem com pratos quentinhos, cozidos, macios. E, para falar a verdade, cozido pra mim é bom no inverno e no verão. E não preciso do pirão nem do arroz. Os legumes bastam. Se bem que na requentada de ontem, servi com cuscuz marroquino. Usei as dicas da Eliana e de minha amiga Silvia Lopes, duas baianas que cresceram fazendo e comendo suculentos cozidos. Não é o meu caso. O mais próximo de um cozido que comia na infância era um ensopado feito com carne e mandioca, mais para uma sopa, que continua sendo um dos pratos mais deliciosos que minha mãe faz sem nunca errar o tempero e o ponto de cozimento da carne e da raiz. O difícil do cozido é isto: o ponto certo dos legumes, cada qual com seu tempo. Quem tem prática já sabe quem vai antes para a panela e depois de quantos minutos entra o próximo para que, no final, todos fiquem no ponto ideal. Acho difícílima esta conta, já que nem todas as cenouras e mandiocas e abóboras cumprem o acordo de ficarem boas no tempo impresso nas tabelas dos manuais de cozinha. Carnes e legumes têm lá suas idiossincrasias e é preciso estar atento. Então, acho mais seguro, embora mais trabalhoso, ir cozinhando os legumes aos poucos e tirando da panela à medida que ficam cozidos e ainda firmes. No final, volta tudo para a panela para que sejam servidos todos bem quentes. Demora, mas vale a pena. É claro que fiz novamente a olho, mas desta vez anotei tudo, inclusive o sal, que ficou na medida mas que você pode reduzir se quiser. Quem não suporta cominho ou grãos de coentro mal vão percebê-los, mas saiba que é bom mantê-los, pois o sabor da carne saltará algumas notas acima sem precisar usar caldos industrializados. E agora chega de enrolação e vamos à receita:
Cozido
1 kg de acém e 1 kg costela
1/2 colher (sopa) de sementes de cominho
1 colher (chá) de grãos de pimenta-do-reino
1 colher (chá) de grãos de coentro
1 colher (sopa) de sal
4 dentes de alho
2 pimentas dedo-de-moça, uma verde e outra vermelha, cortadas em rodelas1 colher (sopa) de colorau ou urucum líquido
3 colheres (sopa) de azeite
3 folhas de louro
2 litros de água quente ou mais, se precisar
1 xícara de cheiro-verde (salsa e cebolinha) picado
1 gomo de linguiça portuguesa (200 g)
1 gomo de linguiça paio (200 g)
2 bananas da terra maduras, mas firmes (350 g)4 batatas doces pequenas (300 g)
2 cenouras (400 g)
2 pedaços de mandioca (300 g)
1/4 de abóbora cabochá (250 g)
4 batatas pequenas (360 g)
1 chuchu (430 g)
2 espigas de milho (570 g)
1/4 de repolho (400 g)
2 mandioquinhas (210 g)
10 vagens (100 g)
10 quiabos (130 g)
5 cebolas pequenas (500 g)
Modo de fazer
Numa frigideira coloque o cominho, a pimenta e o coentro e leve ao fogo. Quando o cominho começar a estalar, tire do fogo e triture no moinho de especiarias ou soque num pilão. No pilão soque bem o sal com o alho e a pimenta dedo-de-moça. Quando virar uma pasta, junte as especiarias e mais o colorau e soque bem até virar uma pasta. Se precisar, junte um pouco de azeite para ficar mais fácil de homogeneizar. Misture a carne neste tempero e espere pegar gosto enquanto prepara os legumes. A batata-doce e as bananas ficam inteiras e com a casca. A abóbora também fica com casca e as vagens e quiabos, inteiros, sem as pontinhas. Os outros legumes podem ser lavados, descascados e cortados em pedaços. Deixe tudo imerso em água.
Coloque o azeite numa panela grande e leve ao fogo para aquecer. Coloque a carne temperada e refogue até ficar sequinha. Junte as folhas de louro e 1 litro de água quente. Tampe a panela, abaixe o fogo e deixe cozinhar até a carne amolecer.
Depois de cerca de 2h40m as carnes deverão estar macias. Mas, depois de uma hora e meia, confira sempre. Junte, então, metade do cheiro verde e mais água quente até ter caldo suficiente para cozinhar os legumes. Comece juntando mais l litro e depois mais, se precisar. Se estiver sem muito tempo, use panela de pressão nesta primeira fase de cozinhar as carnes.
Junte as linguiças inteiras e comece a cozinhar os legumes. Comece pelo milho, batatas, mandiocas, chuchus. Fique perto da panela. Assim que perceber que o legume cozinhou, tire com uma escumadeira. Coloque cerca de 3 tipos de cada vez, assim pode retira-los da panela por grupos, à medida que ficam cozidos. As linguiças devem cozinhar por cerca de 1 hora.
Cozinhe separadamente as bananas cortadas em pedaços e as batatas doces inteiras com casca. Depois de uns 20 minutos ou quando estiverem macias, escorra, descasque e corte as batatas em rodelas. Cuidado para não cozinhar demais, pois depois ainda vão para a panela do cozido para uma fervura final.
Vá retirando os legumes e passando para uma tigela. No final, junte as cebolas, as vagens e os quiabos. Junte mais água se quiser um cozido com bastante caldo e especialmente se quiser usar parte dele para um pirão. Assim que todos os legumes estejam cozidos, volte todos para a panela e cozinhe até voltar a ferver. Espalhe por cima o cheiro-verde restante e sirva com arroz ou pirão (o caldo separado e engrossado no fogo com um pouco de farinha de mandioca). As linguiças, que foram tiradas da panela depois de uma hora, deve ser cortadas em rodelas.
Fotografei todas as etapas e esqueci do resultado final. Esta foto merreca já foi no segundo dia no jantar, prato requentado e remexido. Mas sei que você pode imaginar.
Ah, esqueci de comprar, mas senti falta do maxixe e do jiló. Se você gostar, coloque.
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Pão de queijo com polvilho azedo. Quinta sem trigo 25
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| Estes, levei quentinhos ao último piquenique |
Assim como aquela receita dos amigos gaúchos, que agora moram em Terrassa, na Espanha, esta também é fruto de tentativas e erros até chegar ao resultado que considerei bastante bom. Lembrava-me mais ou menos de uma receita que fiz muitos anos atrás e que levava água, leite e óleo, além do queijo, ovo e polvilho azedo. Achei algumas receitas parecidas, mas eu sempre discordava de alguma coisa - ou era pouco queijo, ou levava manteiga em vez de óleo, ou pedia polvilho doce no lugar do azedo ou, pela quantidade de líquido, já previa uma casca muito dura. E assim fui testando de cabeça algumas receitas até que, mexo que mexo, depois de inúmeras adaptações e só duas tentativas, cheguei a uma receita que vou adotar pra sempre. Na primeira misturei polvilho doce e azedo e usei apenas queijo minas padrão. Ficou bom, mas um pouco sem graça. Nas segunda, preferi trabalhar apenas com o polvilho azedo que ajuda a compor o sabor, e substituí parte do minas pelo provolone que fez destacar o fator queijo, deixando-o mais marcante. E o bom que a casca fica macia mesmo no outro dia.
Só para comparar com o pão de queijo anterior, calculei calorias deste também - um feito com 50 g de massa tem aproximadamente 132 Calorias, praticamente o mesmo que um pão francês, com a vantagem de ter mais proteínas (porém, também com mais gorduras, portanto, consuma com moderação). À receita, pois:
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| Estes foram feitos com o polvilho doce, que também funciona bem |
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| Mas com polvilho azedo os pãezinhos ficam mais gostosos |
Pão de queijo com polvilho azedo e provolone
500 g de polvilho azedo
1 xícara de leite
1 xícara de água
1/2 xícara de óleo
1 colher (chá) de sal ou a gosto
3 ovos ligeiramente batidos
300 g de queijo minas padrão ralado
100 g de queijo provolone ralado
Peneire o polvilho sobre uma tigela e reserve. Numa panela coloque o leite, a água, o óleo e o sal. Leve ao fogo e deixe ferver. Despeje quente sobre o polvilho, misturando bem com uma colher de pau. Mexa até amornar e só então junte os ovos, aos poucos, misturando bem. Se quiser, pode usar batedeira de bolo com pá para massa ou amasse com as mãos que ficarão super melecadas. Junte os queijos e misture rapidamente. Quando a massa estiver homogênea, cubra a tigela e guarde a massa na geladeira para que fique firme e possa ser manuseada mais facilmente. Se for de um dia para outro melhor. Retire bolinhas de 40 a 50 g e modele os pãezinhos com as mãos umedecidas com água. Coloque-os em assadeira sem untar. Pré-aqueça o forno a 230 ºC (forno alto) por cerca de 10 minutos. Leve a assadeira ao forno e deixe assar por cerca de meia hora ou até que estejam bem dourados e crescidos.
Rende de 33 a 40 pãezinhos
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| No piquenique, com cogumelos que a amiga Veronika trouxe de Barcelona |
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Folhas de abacate no pão
Não são de qualquer abacate. As folhas do abacate mexicano Persea drymifolia diferem daquelas do Persea americana, o que encontramos por aqui em muitas variedades, pela presença de óleo essencial com perfume de anis. Fazem parte, junto com os inúmeros chiles, papaloquelites e epazotes, do incrível mundo dos temperos mexicanos desconhecidos pela maioria de nós.
Já tive duas levas destas folhas por aqui. Uma vez a Cris Couto me trouxe do México e, recentemente, ganhei da Lourdes Hernandez. Quando não se conhece a fundo a cultura é difícil usar seus temperos com propriedade. É quase como se apropriar de uma língua diferente. O que faço quando não domino um tempero é deixar perto do computador durante dias, às vezes meses, para ir assimilando o perfume dia-a-dia. Até chegar a hora de botar na panela, quase sempre intuitivamente - mesmo tenho estudado seus usos. Ontem foi o caso de usar a erva esmigalhada em um pão, que comecei a fazer sem saber como terminaria, afinal era simplesmente o pão da semana que costumo inventar com o que tem sobrando na geladeira ou armário. Reformei o fermento natural (levain) no dia anterior e comecei a massa usando um pouco do fubá grosso de moinho de pedra que comprei do Seu Josias, em Silveiras - daquele moinho que conhecemos à noite, sob luz de lamparina. Como fubá parece chamar erva-doce, seja em prato doce ou salgado, achei que as folhas de abacate combinariam. E deu certo. A folha seca esmigalhada espalhou por toda a massa do pão salgado um perfume discreto e intrigante de anis sem aparecer demasiado. Gostei.
Pão de fubá de milho com folhas de abacate mexicano
300 g de levain reformado um dia antes (dobrei sua quantidade juntando mais água e farinha até ficar uma massa densa e deixei fora da geladeira até borbulhar)
2 xícaras de água morna (480 ml)
3 colheres (sopa) rasas de açúcar
1 colher (sopa) rasa de sal
2 xícaras de fubá
Farinha de trigo branca até dar o ponto de amassar sem grudar nas mãos
1/2 xícara de azeite (120 ml)
1 ovo
2 folhas de abacate mexicano esmigalhadas passadas em peneira (ou substitua por 2 colheres (chá) de erva-doce)
Numa bacia coloque o levain e a água morna e misture bem. Junte o açúcar, o sal e o fubá. Misture bem com uma colher de pau. Junte a farinha de trigo aos poucos. Quando começar a ficar difícil de mexer, junte óleo, o ovo e as folhas e mexa bem. Vá juntando farinha e sovando com as mãos até a massa ficar consistente, elástica e modelável. Trabalhe a massa espichando e voltando como um rocambole por cerca de 10 minutos. Cubra com plástico e deixe num lugar abafado até dobrar de tamanho. Divida a massa em 4 partes, modele os pães, coloque-os em assadeira untada e polvilhada, cubra com pano e plástico e deixe crescer novamente. Pré-aqueça o forno a 250 ºC, polvilhe os pães com fubá e faça cortes. Leve ao forno bem quente e deixe assar por 10 minutos. Diminua a temperatura para 180ºC e deixe assar por mais 50 minutos.
Rende: 4 pães
Nota: Se não quiser usar levain, aumente a quantidade de água para 3 xícaras e use 10 g de fermento biológico seco, diluindo-o antes num pouco da água. O resto é igual.
terça-feira, 14 de junho de 2011
Tipiti de plástico. E outros lixos.
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| Tipitis de plástico à venda numa feira popular em Belém |
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| Nonato tirando tucupi no tipiti de palha |
Esta foi a quarta vez que estive no Marajó, sendo que a última vez foi em 2008. O que entristece é ver que as coisas estão mudando num ritmo muito acelerado. Daqui a poucos anos não veremos mais tipitis de tala de miriti, nem croatás como fruteiras, cestos de cipó timbó açu ou de tala de jupati, redes de fibras de buriti, nem a tala de guarumã em paneiros e peneiras.
O tacacá ainda resiste em tigelas das cuieiras (Crescentia cujete), mas o açaí e o chibé, até há pouco tempo tomados em cuias, já são servidos em pratos de plástico e tigelas de alumínio. Nas casas da Ilha do Marajó quase não se vêem mais tábuas de madeira. Todo mundo alega que este utensílio milenar e confortável para os olhos e para as facas é anti-higiênico e, antes que se educasse a população sobre técnicas de higienização, disseminou-se através de cursos para manipuladores de alimentos, que as tábuas de madeira devem ser banidas para sempre e substituídas por plástico. Então, o que se encontram nas casas são tábuas de plástico vagabundo cheias de sulcos encardidos, difíceis de limpar - ótimos reservatórios para bactérias de todo tipo. Nada sobre higienização, nada sobre contaminação cruzada, basta trocar madeira por plástico. Parece ser esta a única mensagem que fica, sem distinção entre o ambiente doméstico e estabelecimentos de alimentação coletiva. Por isto, pulando a etapa de educação em higiene, daqui a pouco tudo será de plástico com mil alegações sanitárias. Uma perda cultural irreparável.
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| Paneiros de açaí - de plástico e com talas de arumã |
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| Paneiros com mangaba e cará roxo ainda persistem |
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| Em grande parte o paneiro foi substituído por estas redes |
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Pão do coco ou maçã do coco
Nunca tinha comido, mas de ouvi dizer já conhecia. Pedro Martinelli falou há pouco tempo deste alimento, chamado em seu blog de maçã do coco. Outros nomes deve haver. No livro "Amazônia - Paraíso e Inferno", de Renato Ignácio da Silva, editado pela Biblioteca do Exército, que é um pequeno manual de sobrevivência na selva amazônica, o autor o apresenta como pão do coco e sobre ele diz: "Os cocos caídos no chão germinam no mesmo ponto onde caíram. Nestes, tanto o leite quanto a carne (polpa) são consumidos, mas a cavidade é enchida por uma massa esponjosa, chamada "o pão". Coma esse pão no estado cru ou tostado dentro de uma cuia de coco, sobre as chamas. O seu gosto é agradável e é muito nutritivo. Os brotos de coco podem ser comidos como se fossem aipo."
Na Ilha do Marajó há pilhas de coco por todo canto. Às vezes só as cascas, outras vezes cocos caídos inteiros que ali ficam até brotar. Quando germinam, o líquido nutritivo que costumamos chamar de água de coco, é usado para o que foi programado - alimentar o embrião. E então toda a cavidade do coco é preenchida por uma massa branca e leve como um isopor crocante, cheia de sabor. À primeira mordida sente-se o óleo de coco marcante e, à medida que se acostuma com o gosto, ele vai ficando mais adocicado e viciante. Foi no restaurante Paraíso Verde, em Soure, que provei. O Antônio, proprietário, abriu um para eu ver e provar. Já fiquei imaginando alguns pratos com o ingrediente, mas não consegui guardar para testar. Provei um pedacinho, outro pedaço para acostumar, mais um porque gostei e, nhac, comi tudo.
Na Ilha do Marajó há pilhas de coco por todo canto. Às vezes só as cascas, outras vezes cocos caídos inteiros que ali ficam até brotar. Quando germinam, o líquido nutritivo que costumamos chamar de água de coco, é usado para o que foi programado - alimentar o embrião. E então toda a cavidade do coco é preenchida por uma massa branca e leve como um isopor crocante, cheia de sabor. À primeira mordida sente-se o óleo de coco marcante e, à medida que se acostuma com o gosto, ele vai ficando mais adocicado e viciante. Foi no restaurante Paraíso Verde, em Soure, que provei. O Antônio, proprietário, abriu um para eu ver e provar. Já fiquei imaginando alguns pratos com o ingrediente, mas não consegui guardar para testar. Provei um pedacinho, outro pedaço para acostumar, mais um porque gostei e, nhac, comi tudo.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
Castanha-do-pará
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| Cada barraca tem um instrumento personalizado, geralmente algo de madeira para não deixar a castanha escorregar e suportar a facada |
Para os americanos é brazil nut, para nós, castanha-do-pará. Já teve leitor raivoso que reivindicou aqui o nome castanha-do-brasil, porque não é só no Pará que tem. Outros enfurecidos dizem que é castanha-da-amazônia, pois é produzida na floresta amazônica, não só no Brasil. Depois disso tudo e enquanto o nome perdurar nos dicionários, resolvi voltar ao termo que todo brasileiro conhece, castanha-do-pará, com o significante já destituído do significado.
O fato é que ela está presente em profusão no Pará. No mercado Ver-o-Peso, em Belém, há uma parte grande dedicada a ela. Tem da fresca, tirada na hora, leitosa, crocante, que vicia. E tem da seca - cozida inteira, descascada e seca no forno, num processo mais industrial. Estas são crocantes, gostosas, mas pode-se encontrar algumas mais rançosas. São estas que chegam a São Paulo e outras cidades do país, pois são menos perecíveis. Mas ainda assim tem que ser consumidas novas pois perdem o frescor rapidamente. Já as frescas não resistem fora da geladeira e devem ser consumidas em um ou dois dias. São ótimas para se extrair o leite, mas são também mais caras. Se não me engano, custam entre 15 e 20 reais o litro (a medida oficial no Ver-o-Peso). Achou caro? Você não sabe o trabalho que dá descascar na faca uma a uma. Eu sei. Tentei fazer o trabalho e, pelo meu ritmo, não conseguiria encher uma xícara depois de um dia de trabalho árduo e perigoso.
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| Bem que tentei! Foto: Filipe Miguez |
quinta-feira, 9 de junho de 2011
Mingau de tapioca para meu amigo Filipe Miguez. Ou quinta sem trigo 24.
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| Na tigelinha que ganhei do Filipe - usada em Belém para o açaí |
Na Ilha do Marajó, mas também em Belém e em outras cidades do Norte, o mingau está presente nos mercados, nos carrinhos de rua e nas casas, para confortar, aquecer, enganar a fome, abrir o apetite, comer em vez do pão e, enfim, para nutrir grandes e pequenos. Aquele feito pela Dona Marita e sua funcionária Ângela são os mais disputados do Mercado. Dona Jerônima Brito, da Fazenda São Jerônimo, também faz um bem parecido, só que junta ao leite de coco, na hora de ferver, uma folha de canela. Antes de dar a receita ao Filipe, resolvi testar o que tinha anotado. Como só tinha aqui o coco fresco congelado, usei as medidas da Dona Jerônima, que orientou a bater meio quilo de coco com meio litro de água fervente. Já Dona Marita disse que usa um coco e água suficiente para fazer um litro de leite fino. Disse que adoça com 3 colheres (sopa) cheias de açúcar, por isto usei 4 colheres (sopa) rasas, o mesmo que 1/4 de xícara. Devia ter começado com menos, como orientou dona Jerônima que usa apenas 1 colher cheia, pois ficou mais doce que aquele perfeito que comemos. Então, ignore a foto dos ingredientes que mostra 1/4 de xícara e comece o seu com menos açúcar e até mais sal se quiser. Ao mingau, pois:
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| A farinha usada |
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| Pode usar coco fresco congelado |
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| 500 g de coco e 500 ml de água fazem quase 1 litro |
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| Para comer quentinho olhando cair fria a chuva lá fora |
Mingau de tapioca do Marajó. Receita baseada nos ensinamentos de dona Marita Alves Coimbra e Dona Jeronima Brito
500 g de coco fresco ralado ou picado
500 ml de água fervente
1 colher (sopa) de açúcar
1/4 de colher (chá) de sal
1 folha de limão (opcional)
1 pauzinho de canela (opcional)
1 xícara de farinha de tapioca (aquela que se parece com floquinhos de isopor, comum no Pará)
Canela para polvilhar, se quiser
Bata o coco no liquidificador com a água quente até ficar uma massa lisa. Coe em pano ou peneira fina, espremendo bem. Deve render perto de um litro de leite. Coloque numa panela com o açúcar, o sal e a folha de limão e a canela, se for usar. Junte a farinha de tapioca e leve ao fogo. Cozinhe, mexendo sempre, até os floquinhos de tapioca ficarem translúcidos, o que acontece rapidamente, assim que o leite ferve. Não ferva muito para não correr o risco de o leite de coco talhar. Sirva com canela em pó.
Rende: 6 porções
Nota: se quiser, pode fazer o mingau só com sal. Ou ajuste o açúcar ao seu gosto.
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| James e Filipe: companheiros de viagem que todo mundo quer |
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