sexta-feira, 7 de maio de 2010

Sabores de Paraibuna. Parte 6: Fogado


Fogado da família Stabile, que trouxemos pra casa. E, na foto de baixo, a que comemos no Restaurante do Luiz, no Mercado Municipal
Assim como o pastel de milho, o fogado é prato tradicional em Paraibuna e em várias outras cidades do Vale do Paraíba. No Mercado Municipal de São Luiz do Paraitinga, por exemplo, ele é servido durante a Festa do Divino, que acontece agora em maio (mesmo depois da enchente, a festa não vai deixar de acontecer nos próximos dias e o fogado estará lá).
E assim como o pastel de milho é vendido numa portinha da casa rosa, o fogado tradicional é vendido numa portinha da casa azul, quase ao lado (R. Padre Antônio Pires do Prado, Antiga Rua da Bica). Ambos feitos pela mesma família Stabile (um pouco mais sobre esta família, a cidade e sua história pode ser visto no depoimento da Terezinha, no Museu da Pessoa).
Pena que agora o fogado dos Stabile é só pra viagem. Não dá pra comer no local. Por isto, no domingo almoçamos fogado no Mercado Municipal, no restaurante do Luiz. Tem duas opções, prato raso e prato fundo, o que quer dizer, porção menor e porção maior. Vem com bastante arroz, mesmo a porção menor, além de farinha e uma salada de tomate com alface para acompanhar. A pimenta cumari está sempre à mesa. Pedimos ainda uma Tubaina (que virou nome genérico para vários refrigerantes regionais com o mesmo aroma da tradicional). Estava bom, mas ainda assim passamos na Casa do Fogado para comprar uma porção para viagem. Muito bom!
Sobre o Fogado
Segundo informações do Guia Nascentes do Paraíba do Sul, escrito pelo João Rural, o prato tem pouco mais de um século. Começou como forma de aproveitamento das pernas e pés das vacas já velhas. Em meados do século 19, quando o ciclo cafeeiro entra em declínio na região, as fazendas remascentes passaram a se dedicar à pecuária. Quando as vacas já não produziam leite, eram abatidas e o único jeito de tornar comestível a carne já endurecida era preparar como carne-seca, já que a técnica de salga além de conservar também amacia as fibras. Como partes com muito colágeno não se prestam à secagem, então o fogado foi a forma encontrada pelos empregados para aproveitar estas peças. Por isto, o fogado clássico é mais suculento e gelatinoso que gorduroso, pois é feito com mocotó e músculo, com algum tutano.
Pela dureza das peças, elas eram mergulhadas ou afogadas, daí o nome, em muita água e sal para que ficassem cozinhando lentamente durante toda a noite em fogo de lenha, para amolecer e as partes comestíveis se soltarem dos ossos. No dia seguinte, os ossos eram descartados e a mistura de carnes temperada com urucum, alfavaca, alho, cheiro-verde e, especialmente, a hortelã-pimenta, que o diferencia de outros cozidos de carne (não é da família da menta ou hortelã que conhecemos - veja lá embaixo). O caldo bem quente do fogado era colocado no prato sobre farinha de mandioca, para formar um pirão, como o barreado do Paraná. Além do arroz, apenas rodelas de tomate.
Com o tempo, o fogado sofreu modificações e hoje há quem faça com outro tipo de carne, esqueçam do mocotó, ignorem a hortelã-pimenta. Mas mantém esta característica de ser um prato farto e suculento, com carnes bem cozidas, se desmanchando, e caldo avermelhado pelo urucum.
Em São Paulo, você pode prová-lo no Lá da Venda (já falei dele aqui).
Acompanhamento no Restaurante do Luiz, no Mercado Municipal de Paraibuna: Tubaína Maçãzinha Campeão e salada de tomates com alface

Este veio da Casa do Fogado para ser esquentado no almoço de segunda. Um bom fogado é assim, quando frio vira gelatina, graças à fartura de colágeno

A casa do Fogado. É uma casa comum, mas é só ir entrando. Vai dar numa sala com sofá e televisão. Se não tiver ninguém, é só chamar. Só vende fogado para viagem, nos finais de semana
Hortelã-pimenta
A estrela entre os temperos do fogado não é uma hortelã comum, basta ver as folhas (aqui na foto, ao lado de um pezinho pequeno de hortelã verdadeira), que crescem em roseta. Este pezinho eu já tive no quintal, mas não vingou. Desta vez procurei em Paraibuna para comprar, mas ninguém tinha, nem na feira, nem na horta do Lar Vicentino, nem nas panelas da Casa do Fogado (usaram hortelã comum, que tem o mesmo perfume, porque a original estava em falta no mercado). Espero que não se acabe.
O único defeito desta erva foi responder pelo nome de hortelã-pimenta, apelido que recebeu pela semelhança de sabor e aroma com as mentas. Isto me faz gastar horas tentando descobrir seu nome de batismo em latim, para saber mais sobre ela. Qualquer busca, claro, resulta em trabalhos com as espécies do gênero Mentha. E ela não pertence a este grupo. Então, já desisti. A menos que algum leitor saiba e possa esclarecer (como ninguém tem paciência de ler tudo o que escrevo até o fim, perdi as esperanças). Já falei dela em outro post.
A receita: reproduzo aqui a receita divulgada no Guia das Nascentes. Há duas fórmulas no livro, uma do Fogado Antigo e uma do Fogado de Festas, mais adaptado aos tempos modernos, feito com peito, ponta de filé, acém ou alcatra. Escolhi o primeiro, mais autêntico, mais gelatinoso.
Fogado Antigo (receita do Guia das Nascentes, pág. 159)
3 kg de carne de músculo cortada em pedaços
1 kg de mocotó em pedaços
5 colheres (sopa) de óleo
1 colher (sopa) de sal socado com alho
1/2 xícara de hortelã-pimenta picadinha
1/2 xícara de alfavaca picadinha
1 colher (sopa) de colorau
2 xícaras de cebolinha picada
1 xícara de salsinha picada
Lave a carne muito bem em água corrente, até sair todo o sangue. Numa panela grande e grossa, de ferro de preferência, coloque os mocotós cortados arrumadinhos no fundo. Ponha os pedaços de carne por cima, adicione água até quatro dedos acima da carne e uma colher (sopa) de sal. Mexa o sal somente por cima, para que o mocotó não saia do fundo. Tampe e, quando ferver, deixe em fogo baixo até amolecer. Vá adicionando água quente se precisar. Deve levar pelo menos cinco horas de cozimento. Quando amolecer, retire todos os ossos, deixando na panela o mocotó e o tutano que ainda estiverem grudados nele. À parte, frite o sal com alho, adicione todos os temperos e o urucum e deixe fritar um pouco. Coloque tudo na panela de carne e mexa bem. Acerte o sal e deixe ferver bem. Para servir, a panela tem que ficar no fogo. Coloque a farinha de mandioca no prato e despeje um pouco de caldo, fazendo um pirão. Depois coloque pedaços de carne e arroz com urucum.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Sabores de Paraibuna. Parte 5: Pastel de milho do Manezinho

Se não tivesse passado em frente ao letreiro na porta de uma casa rosa, talvez não fosse atrás dos famosos pasteis do Manezinho, de Paraibuna. Não por desprezo, nem nada, mas porque tinha muita coisa pra ver e fazer em pouco tempo. Só que aconteceu de passarmos em frente à placa onde se lia "o legítimo pastel do Manezinho", que me chamou a atenção. Então, depois do Mercado, fomos lá conferir.
O lugar é modesto, com apenas duas mesinhas de ferro nada convidativas e estava vazio quando chegamos. Fizemos algum barulho e logo apareceu uma das irmãs Stábile. Os pasteis foram fritos na hora e, ainda que a fritura mostrasse sinais de um óleo muito reutilizado, estavam deliciosos. Até repetimos. Uma pena que o café que pedimos para acompanhar não estava à altura dos pasteis. Fosse um café fresquinho, passado na hora, bem quente, talvez com alguns pedacinhos de rapadura à parte para quem quisesse adoçar e até, meio que sonhando, servido em xicrinhas de ágata, aí sim formariam um par imbatível. Fica a sugestão para as queridas Stábile.
Mas fomos conquistados pela simpatia da irmã vendedora que nos disse que tudo acontecia mesmo era por trás daquele simples balcão. Licença e fomos entrando. A sala da casa se transforma nos fins de semana numa linha de montagem de pasteis com todas as irmãs na labuta. No sábado são mais de 600 pasteis vendidos. E no domingo, mais ainda, depois da saída da missa, que é tradição. Todo mundo trabalha de avental, touca, tudo na maior higiene.
No fundo da casa ainda há uma varandona com mais lugares, onde comemos a segunda rodada de pasteis. Até o cunhado entra na dança abrindo no rolo manual a massa amarelinha feita com farinha de milho e polvilho. Acho que também leva um pouco de banha.
A tradição vem de longe. Foi o avô italiano, Nicolau Stábile, que tinha banca no Mercado Municipal e vendia quitandas com a mulher, quem começou o negócio. Mas foi um dos filhos, o Manezinho, quem continuou e trouxe a fama aos pasteis. Tanto que é conhecido hoje como Pastel do Manezinho. E, se quiser completar, "aquele que vira sozinho". E nisto, claro, não há mágica. Se a massa está fininha, assim que frita de um lado ela perde umidade, fica mais leve e o outro lado, mais pesado, tende a ir pra baixo, como um joão-bobo, como acontece com o bolinho de chuva.
Depois que Manezinho morreu, suas filhas Terezinha, Maria de Lourdes, Bernardete e Maria Aparecida assumiram o empreendimento. Contaram que há pouco tempo a parte da frente foi modernizada e que antes tudo ali era original, de madeira (as duas irmãs, as Rigo, se entreolharam com olhar de que pena!).

A entrada é acanhada, mas lá atrás tem mais
Pastel do Manezinho
Rua Padre Antônio Pires do Prado, nº 3 - Antiga Rua da Bica
Paraibuna
Tel. 12 - 3974-0370 ou 3974-0166
Já dei uma outra receita de pastel de farinha de milho com carne, de Vargem Grande Paulista, aqui.

O torresmo e a continuação da viagem a Paraibuna

Torresmos de Paraíbuna, de um boteco no final da rua Coronel Camargo, perto da ponte
Ainda tenho outras coisas para contar sobre os sabores de Paraibuna. No próximo post, quem sabe ainda hoje, vou falar do fogado, do pastel de milho do Manezinho e da bananinha. Mas, aproveitando o gancho das coisas do açougue dado hoje pelo caderno Paladar, que traz o torresmo como matéria de capa, e o fato de ter comprado ontem mesmo no mercado da Lapa uns pedaços de barriga de porco, passo as pururucas na frente que, de todo modo, continua sendo assunto sobre os sabores daquela cidade.
Aproveite pra ver no blog do Paladar, matéria da Lucinéia Nunes com a dona Dega, mãe da Mara Salles, do Tordesilhas, contando como lidava com a pele do porco no interior.

No box 20 do Mercado da Lapa a carne está sempre fresquinha
Comprei as tiras de barriga justamente com a intenção de reproduzir o torresmo que comemos em Paraíbuna. Sempre que saíamos do hotel sentíamos um cheiro irresistível de torresmo. Olhávamos em volta e nada. No sábado à noite até entramos numa lanchonete em frente ao hotel na esperança de encontrar o dono daquele perfume. E nada. No domingo, antes do almoço, a mesma coisa. Só que nesta hora não resistimos, nos sentimos provocados demais para deixar passar.
Fomos farejando portões, quem sabe alguma porta aberta convidativa. E nada. Então a ala feminina, minha irmã e eu, resolveu fazer aquilo que os homens evitam a todo custo: perguntar. - Ah, simples, é naquele boteco ali! É só seguir a rua do hotel. Era um boteco meio sem graça de teto sujo, que também vendia comida a quilo. Ainda era cedo pra comer torresmo que pede cerveja. Então, deixamos meio encomendados e fomos passear até o outro lado do rio, andar bastante, gastar energia para já deixar o pecado pago. Na volta, cansados de andar, a cerveja gelada caiu bem com os torresmos de barriga cheirosos, crocantes, com carne entranhada.

Torresmo do Mocotó: o que já era muito bom, ficou excelente. O de baixo, comido há duas semanas, com corte perfeito
A matéria do Paladar conta o segredo do torresmo do Mocotó. Na última vez que estive lá, há duas semanas, fiquei impressionada de ver como o torresmo que já era bom tinha ficado muito melhor. Ia perguntar pro Rodrigo antes de preparar os meus, mas agora o segredo está lá. Fui comparar as técnicas com a que ele havia me passado há algum tempo (veja aqui, inclusive com a quantidade bicarbonato usada, que não aparece no jornal) e vi que realmente ele aperfeiçoou o modo de preparo. Quando comi, ainda comentei com as amigas Elisa e a Roberta que o torresmo incrivelmente crocante parecia ter sido colado à carne que contrastava macia, só com a superfície mais firme. De fato, tem ali um corte mas sem separar as partes, diz Rodrigo. Agora, é só juntar a receita dada com a técnica atual para, quem sabe, conseguir em casa algo parecido. Embora, claro, a graça seja comer lá.
A matéria do Paladar fala de outros torresminhos, como o de pato, de galinha e até de pele de siri mole, experiência da Mara Salles, do Tordesilhas, que também serve um torresmo incrível. Por aqui também já fiz algumas experiências. Algumas bem desastradas por sinal. A ver:
Como os torresminhos são irresistíveis, agora prefiro fazer caldo e gordura com a pele e temperos como grãos de coentro, folhas de alfavaca, cúrcuma ralada, feno grego e sementes de urucum
Pele de galinha: pode até ser que já contei isto aqui, não me lembro. Uma vez comprei uma galinha bem pelancuda e achei que o ensopado ficaria mais leve se tirasse toda a pele. As galinhas caipiras tem a pele bem grudada e nunca vejo necessidade de tirar a pele, mas não era o caso. Então despi toda a galinha e deixei a carne bem limpa, light até. Tudo sob olhar atento do Bob, nosso cachorro na época. Aí olhei pra pele, olhei pro cachorro e achei que ele iria gostar de comer pururucas de galinha. Cortei tudo em tirinhas e fritei até que ficassem enroladas e quebradiças. Antes de dar a ele, polvilhei sal e experimentei. Irresistível. Só uma uma. Dei uma pra ele e comi outra tirinha. Não dei mais nenhum a ele e comi todos os outros torresminhos deliciosos. Conclusão: a pele que seria dividida entre toda família eu comi sozinha. Bem light ficou o frango.
Agora, costumo usar a pele e todas as partes sem carne do frango para fazer um caldo bem rico em colágeno e ainda separar a gordura que agrega todo o tempero. Uso para fazer arroz e sopas. E o caldo gelatinoso, para todos os fins.
A gordura de galinha tem ácidos graxos insaturados em grande quantidade e por isto não fica dura à temperatura ambiente. Além disso, agrega pigmentos e sabores do preparo. É só deixar o caldo em repouso e tirar com uma colher a gordura sobrenadante. Com um separador de gordura como este da foto, em que o bico sai da parte de baixo, você consegue tirar todo o caldo e deixar nele só a gordura.
Pele de peixe: assim como fiz com a gordura da galinha, uma vez resolvi também tirar a pele de um peixe grande. Como era pele dura, achei melhor aferventar antes para amolecer o colágeno. Pretendia desidratar um pouco antes de fritar. Coloquei a pele e a água numa panela e vim ao escritório que fica a uns 20 metros da cozinha fazer alguma coisa. Esqueci de trazer o timer e simplesmente desliguei. Depois de uma, duas horas, não sei, comecei a sentir cheirinho de churrasco e pensava "nossa, festa da firma a esta hora" - há alguns escritórios em casas na avenida aqui perto e em jogos e final de ano costuma ter churrasco, mas nunca pela manhã. Nem assim me lembrei do fogo acesso. Até que tive que ir à cozinha por outro motivo. Quando cheguei ao quintal, já vi a fumaça preta que vinha da cozinha e se entranhou por todas as frestas de armário, deixando madeira, panos de pratos e louças com cheiro de churrasco queimado por um bom tempo. Não sobrou nada, além da panela de inox que até hoje traz os resquícios da queimadura. E, claro, toda a cozinha preta para limpar, como se tivesse sido iluminada com mil lamparinas de querosene. E não havia ajudante nesta época. Aí traumatizei com pele de peixe, mas acho que pode dar bons torresmos.
Pele de bacalhau: outra experiência frustrada. Vi no Mercado da Lapa que separavam a pele ali mesmo para vender as postas de bacalhau limpinhas (eu gosto de cozinhar com a pele). Pedi então um pouco de pele para fazer experiência. Deixei de molho, cortei e fritei. Ficaram lindos e crocantes os torresminhos. Porém, esqueci do detalhe das escamas que algumas espécies de bacalhau trazem. Mas vale a pena investir nesta experiência, pois além de tudo, ficam lindos e muito pururucas, até com as escamas. O Paladar também cita estes torresmos.
Pururucas de pele de bacalhau

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Sabores de Paraibuna. Parte 4: Feira de produtores rurais


O mangarito é cultivado pelo Gilberto. Não sabe se vai continuar porque dá muito trabalho (são 9 meses para colher, precisa de irrigação etc). Aconselhei-o a vender também as folhas para ajudar, afinal são gostosas como a taioba.
No domingo cedinho fomos à feira de produtores rurais, que acontece ao redor do Mercado Municipal de Paraibuna. Marcos, Suzana e Darly aproveitam os primeiros raios de sol que chegam à porta do mercado para me esperar na escadaria, pois dizem que pareço toco em enchente que vai se enroscando aqui e ali.
Mas é impossível não parar em cada banquinha discreta, que num primeiro momento se mostra tão sem beleza ou novidade. Pois a que chama mais atenção da feira pelo colorido e arrumação das frutas não é a que me motiva a exploração. Frutas de clima temperado como nectarinas, uvas, maçãs, ameixas e peras são realmente lindas mas saem todas aqui do Ceagesp e são iguais às que vemos a todo momento.
O difícil por aqui é encontrar um saquinho de mangarito perdido entre folhas fresquíssimas. Ou um peixeiro que traga piabinhas e mandis pescados por ele de véspera na represa, já limpos e congelados. Ou um produtor que mostre uns chuchus alvíssimos no meio de outros verdes de variedade espinhuda. Ou que nos diga que aquela laranja com casca feia e inferrujada, que esconde uma suculência e doçura sem igual além das inúmeras sementes, vem sendo cultivada pela família há décadas. Ou que nos traga do sítio os queijos frescos ainda em seus moldes, e frango caipira limpinho que ontem ciscava no terreiro, e pamonhas bem quentes enroladas em folhas de caetê, e amendoim cavalo de casca rosada, e limão-rosa de todo tamanho ou bananas de todo tipo, são domingos, figo, nanina, maçã, prata, verde e madura.
Mas como tudo isto fica logo ali, de vez em quando compensa sair num domingo cedinho de São Paulo, pegar a Carvalho Pinto vazia, fazer a feira, comer o pastel de milho do Manezinho, almoçar um fogado e voltar no fim da tarde.
O que gostei de ver por lá:

As pamonhas da Tina - em folhas de caetês (já mostrei pamonhas feitas assim entre os Guarani e em Redenção da Serra, também no vale do Paraíba) e em palha de milho. Trouxe para comer em casa com café, são deliciosas.

Queijos frescos e requeijões
Limão-rosa
Legumes variados
Vem o que tem: fruta do conde, bananas e abobrinhas do sítio do Dito

Do sítio do Dito também vem chuchu branco e verde do tipo espinhudo (não se vê dele por aí)

Talo de couve cortado com capricho como ervilhas partidas. As irmãs Maria e Benedita fatiam a couve, mas não descartam os talos (que aqui viraram sopa com canjiquinha)

Fubá integral do sítio do Gilberto, o mesmo dos mangaritos
Couve couve e couve de brócolis, a mais escura, que normalmente é descartada na lavoura, porém é mais rica ainda em betacarotenos
Wilma inclui no seu cheiro-verde outros aromas do sítio, como alfavaca, tomilho e manjerona
Bananas para escolher

Padrão pra quê? - abobrinhas-brasileiras de todo jeito e tamanho

Amendoim cavalo

Crianças da terra e laranjas-do-céu: a Andreia leva os cinco filhos de olhos verdes para ajudar (e se divertir) a vender sua pequena produção de laranjas. Parecida com a seleta, recebe por lá o nome de laranja-do-céu, que é de um doce marcante, diferente daquela de mesmo nome dos gaúchos (que é a nossa laranja-lima).

Laranja-do-céu: frutos assim, cujo maior inconveniente é o excesso de sementes, infelizmente tendem a ser substituídos por laranjas com pouca ou nenhuma semente. Mas a família da Andrea e de seu marido seguem plantando e colhendo a variedade há décadas. Boas para chupar, são suculentas, perfumadas e muito doces. Para escapar das sementes que se localizam no meio do fruto, é só cortar uma tampinha em vez de fazer duas metades. E se ainda vierem à boca sementes, cuspa no seu jardim ou faça mudas e dê a quem tem terras.

Parte da feira, no páteo interno do Mercado

terça-feira, 4 de maio de 2010

Sabores de Paraibuna. Parte 3: Marvada Neide, a cachaça

A cachaça Marvada Neide é uma das mais populares de Paraibuna, presente nos bares e no Mercado Municipal. Aqui em casa não falta, primeiro pela gozação com meu nome. Depois porque sempre coincide de acabar a garrafa na época do Revelando São Paulo e não resisto quando paro no rancho caipira de Paraibuna, lá no Parque da Água Branca (já mostrei esta e outra Neide aqui). E outra porque a cachaça é gostosa mesmo. Tem também a canelinha que dá pra tomar como licor. Mas só no ano passado ouvi da Maria Neide de Souza, a dona da cachaça, sobre a origem do nome. Aí está (a feira vai ter que ficar mesmo para amanhã, na parte 4 dos sabores de Paraibuna).
Para ver e ouvir Inezita Barroso cantando toda a música, clique aqui.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Sabores de Paraibuna. Parte 2: Mercado Municipal



Continuando a viagem de ontem a Paraibuna, mostro agora o Mercado Municipal.
São de meados do século 17 os primeiros registros oficiais da cidade que tem localização privilegiada entre o planalto e o mar (fica a 48 km de Caraguatatuba) e começou ao redor da igrejinha construída no dia de Santo Antônio numa clareira por homens que chegaram ali pelo rio Paraitinga e pararam no encontro com o Rio Paraibuna. O povoado que se formou ali com o nome de Santo Antônio da Barra do Paraibuna ficava exatamente a 2 km do encontro dos rios. Passou a ser local de pouso dos tropeiros que vinham do litoral norte e seguiam pelas trilhas indígenas da região para São Paulo e Minas Gerais. Por isto se diz que a culinária mineira nasceu ali no Vale do Paraíba.
Com o tempo a cidade cresceu, viveu períodos de euforia durante o ciclo do café, tentou se reerguer com o declínio da cultura cafeeira que deu lugar ao algodão, viu lindas sedes de fazendas dos coronéis do café abandonadas e sobreviveu à construção da represa dos rios Paraibuna e Paraitinga que formam ali o rio Paraiba do Sul.
A construção da represa, na década de 1960, significou uma mudança no perfil geográfico e de ocupação da cidade já que alagou fazendas e sítios produtivos, deslocou para a cidade trabalhadores rurais, fez diminuir a produção leiteira etc. Por fim, a cidade encontrou o equilíbrio explorando sua vocação para o turismo rural.
Um dos pontos turísticos importantes da cidade, pelo menos para mim, é o Mercado Municipal. Foi construído em 1887 na forma de um barracão que conservou o piso de terra batida até há 30 anos. A restauração, em 1980, incluiu a colocação de piso de pedra, mas manteve os paredões com uma faixa de tijolo vasado em toda a sua volta. Janelas, portas e telhado conservam as características originais.
No início, os produtores rurais vendiam diretamente seus produtos ali. Havia venda de porcos, expostos inteiros em balcões de madeira - vale lembrar que Paraibuna foi um grande exportador de suínos. Outros produtos incluiam farinhas de milho e mandioca, café, arroz, frutas e hortaliças. No começo do século 20 predominavam as vendas de carnes, enquanto as hortaliças eram vendidas mais do lado de fora, em feira livre.
Hoje a feira de produtores rurais continua acontecendo no Largo do Mercado e no páteo interno, às quartas-feiras, sábados e domingos - que é a melhor, dizem. Mas no mercado se encontram também frutas e legumes, além de derivados de milho, cachaças, cestarias, além dos boxes de restaurantes populares e lanchonetes, para comer o famoso afogado ou fogado, pasteis e bolinhos de milho.
A banca mais legal do mercado é a do Ailton Moraes (Tel. 12-3974-3033). Aliás, ele tem várias que foi comprando dos que iam se desinteressando. Assim, ele tem a mercearia e, logo em frente, uma lanchonete onde vende pasteis, bolinhos e cachaça com cambuci. Logo adiante uma outra banca dele vende cachaças da região e outros itens. E tem ainda outra - acho que são quatro no total. Ele atende no Armazem do Mercado que fica logo na entrada. É bom de papo e pode te contar tudo do mercado, mostrar as cachaças, te apresentar os produtos um a um, sem pressa. Um prazer conversar com ele.
Amanhã ou, quem sabe, hoje no fim da tarde se sobrar tempo, parte 3 da viagem, com produtos da feira. Aqui, foto de algumas curiosidades, especialmente nas bancas do Ailton.
Ailton Moraes no seu Armazem
Favas frescas (ou feijões-de-lima), na banca do Ailton
Biscoitos ou torradas, como se dizem por lá destes pãezinhos duros para comer esmigalhado no café.
Rapaduras e talhadas - estas mais claras, à moda das rapaduras, porém com bastante gengibre e farinha de mandioca.
Canjiquinha em diferentes granulações. Presente em todo o Vale
Entre morangas e repolhos, Ailton tritura a pimenta na hora
Macarrão furado da minha infância. No sítio do meu avó a macarronada era feito com ele. Pra comer com frango caipira. Advinhe se não trouxe os dois itens de lá? Também na banca do Ailton
Uma das melhores cachaças da região: Marvada Neide (conheci a tal Neide, dona da marca, no Revelando São Paulo e é um doce de bondade)
Cachaças da região. Em outra banca do Ailton
Restaurante do Luis, para se comer fogado

Sabores de Paraibuna. Parte 1: lançamento do livro do João Rural


Rio Paraíba do Sul, que passa pela cidade

João Rural autografando seu livro

O livro: Retrato de um Povo de um Lugar - JAC Gráfica e Editora (12-3928-1555) Para se deleitar acompanhado de uma das boas cachaças de Paraibuna, Fazenda Sossego ou Marvada Neide (juro que não tenho nada a ver com isso!)

Café com farinha ou com biscoito/ torrada
Uma ótima desculpa e mais uma escapulida para a beira do Rio Paraíba do Sul. Desta vez foi em Paraibuna, onde aconteceu o lançamento do livro do João Rural, nascido João Evangelista de Faria. Já falei do João e dos seus livros aqui (veja também o site da TV Chão Caipira, que ele está ainda construindo).
Se há alguém que se empenha para resgatar e valorizar a cultura caipira do Vale do Paraíba, esta pessoa é ele. E pelo jeito tem conseguido. Já tinha ido à cidade, mas para ficar na zona rural, de modo que não conhecia sequer o mercado municipal. Desta vez, ficamos (minha irmã, meu cunhado, marcos e eu) hospedados no centro da cidade para poder ir ao lançamento no largo do mercado no sábado à noite e voltar em seguida ao mesmo lugar, no domingo cedinho, para fazer compras direto com os produtores.
O lugar, que foi pouso de tropeiros no passado e prosperou com o ciclo do café, de 1830 a 1860, conserva tantas tradições daqueles tempos que mal dá pra acreditar que fica a apenas 140 quilômetros de São Paulo.
Biscoito ou torrada: uma das tradições que se mantém é servir "biscoito" ou "torrada" com café durante as festas nos sítios. Ou qualquer festa. Segundo o Ailton, que tem box no mercado, as pessoas mais simples o chamam de biscoito, mas as "granfinas" chamam de torrada. Ninguém mais faz em casa, porque há por lá uma fábrica de torradas e todo mundo compra dessas, à venda em todo canto. Não se parece com o biscoito nem com a torrada que conhecemos. São pãezinhos desidratados ou pãezinhos de leite duros, que se comem com café bem doce. Você morde um e ele se esmigalha todo. Além disso, não dá pra engolir a seco. Então, o melhor a fazer é deixar cair tudo na caneca de café e comer/ tomar assim. Com café também se comem punhados de farinha de milho - tudo junto, na caneca, pra comer de colher.
E era isto que tinha no lançamento do livro do João, na melhor tradição caipira paraibunense. O café com biscoito e farinha foi servido na cozinha caipira, anexo ao Mercado Municipal, construída graças aos esforços do próprio João, empreendedor, contador de causos, pesquisador, fotógrafo, jornalista, cinegrafista e, se procurar, tem mais. O livro é um recorte de 40 anos de trabalho fotográfico do autor, com lindas fotos em preto e branco.
Amanhã tem mais Paraibuna. Já fiz pão com a farinha e o amendoim de lá. Comi fogado e trouxe para comer aqui. Fiz sopa de canjiquinha com talinho de couve da feira. Comprei laranja-do-ceu, mangarito, frango caipira, mandis etc. Vou contando aos poucos. Mas já adianto todas as fotos.