sexta-feira, 3 de março de 2017

Água de Matalí. Ou refresco de tradenscantia

Com Tradescantia zebrina e limão 
Post editado em 31 de março de 2017 
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Estas tradescantias são vistas aos montes por aí, principalmente em praças e jardins com os quais não se quer ter muito trabalho. Para falar a verdade, nunca dei muita importância a elas - a não ser para a traboeraba
Débora não foi a primeira a me perguntar se a Tradescantia pallida purpurea (conhecida como coração-roxo) era comestível. No livro Plantas Alimentícias não Convencionais (PANC) no Brasil, os autores dizem que “outras trapoerabas também são comestíveis” sem especificar quais.  Débora me disse que a mãe tomou uma bebida fermentada feita com a erva no México. Fui atrás e descobri que nos estados de Tabasco, Yucatán e Chiapas pode ser encontrada uma bebida fresca feita em casa  a partir da infusão, não da coração-roxo, mas da planta Tradescantia zebrina (T.pallida purpurea parece ser usada para o mesmo fim e ambas recebem o nome de “matali”). A bebida fermentada,  ainda não encontrei. Como refrigerante, tem esta aqui
Pelo que vi, a planta ornamental (T. zebrina) de origem tropical e hábito rasteiro são bastante usadas como fitoterápicas - para eliminar pedras renais, curar hemorragias, dores de estômago e diarreias. E também como repelente de insetos e larvicida – combinadas com outras ervas. Um uso importante para a T.pallida purpurea é como planta para biomonitoramento de poluição do ar, já que absorve metais pesado com facilidade.    
A bebida refrescante chamada de “agua de matali” tem uma cor roxa tentadora. Com adição de rodelas e gotas de limão torna-se vermelha – é o que acontece com o pigmento antocianina que é sensível à variação de pH. Como a bebida leva açúcar ou mel e suco de limão, tem sabor de limonada e cor de groselha. A erva em si não tem muito sabor. Já comi da trapoeraba de flor azul e folhas verdes, Commelina erecta, da mesma família Commelinacea, e esta sim tem ao menos textura macia, mucilaginosa e sabor agradável.  Já a zebrina, trapoeraba-zebra ou judeu-errante, esta que usei para fazer o refresco, é insípida e a textura é firme – provei o que sobrou da cocção para o refresco. Imagino que  as folhas possam ser aproveitadas em pratos se picadas ou bem cozidas. Na salada não achei agradável e referência não encontrei nenhuma. Então, por enquanto, fico só com a infusão. 
A T.pallida purpurea também fez uma bebida de cor linda e parece ter os mesmos usos medicinais da T.zebrina.  Não encontrei nenhuma referência de pratos feitos com elas  - provei as folhas cozidas e não gostei - tem textura muito firme e sabor algo adstringente. Aqui vemos as duas sendo citadas como ingredientes para o refresco.  Mas lembrando que esta espécie é usada como um biomarcador de metais pesados e que é rica em oxalatos de cálcio, talvez não seja uma boa ideia consumi-la especialmente se está em áreas poluídas. Melhor ficar só mesmo com a T. zebrina
A coloração do matali é um ótimo incentivo e tem o  doce do açúcar ou do mel e o ácido do limão... Ou seja, é uma limonada colorida e apetitosa. Podemos adicionar suco de laranja e folhas de hortelã e ficará ainda melhor. 
No México,  recebe outros nomes como hojas de cucaracha (difícil de acabar com a planta que se espalha como baratas) ou moradilla – por causa da cor.
Então, para variar os corantes vermelhos e dar um descanso para o hibisco, que tal usar zebrina? Para evitar confusão e ao mesmo tempo homenagear o México que tanto tem a nos ensinar (e aos norte-americanos, mais ainda), vou usar para o refresco o mesmo nome que a bebida recebe por lá: “água de matali”.
Água de Matali
Ferva 1 litro de água com 1 xícara ou mais de folhas de matali (zebrina, trapoeraba-zebra) e espere esfriar ainda com as folhas. Coe, adoce a gosto e junte suco de um limão. Sirva com rodelas de limão e bastante gelo. Com folhas de hortelã ou menta, se quiser. 

8 comentários:

Debora Barg disse...

Obrigada, Neide, pela dedicação e riquíssimas pesquisas e informações. Agora vamos fermentar?
Beijos

Ana Carolina disse...

Achei que a trapoeraba roxa não era comestível, por causa do oxalato... parece que entendi errado... bom saber! =)

Eduarda Couto disse...


Cada vez mais encantada com seus posts.

Daniel e Åsa Heuser disse...

Quando as crianças eram pequenas eu fazia "magica ' com folha de repolho roxo , pelo que li com essa planta acontece o mesmo ,é sensível ao pH . Como veterinário sempre tenho muito cuidado com plantas de jardim , tem algumas muito venenosas mas essa talvez eu vá experimentar...

Brito disse...

Aqui em casa tenho a verde de flor azul, a roxo intenso com flor rosa e uma listrada que parece com a de flor azul, mas que exposta ao sol fica roxa (principalmente o verso s
das folhas.
Creio q são 3 tipos diferentes.

Lumi disse...

Oi Neide, tudo bem? Seu artigo aqui no blog apareceu em muitos grupos de facebook e gerou debates. É válido discutir e trazer para o público sobre as PANCs. Entretanto não encontramos fontes bibliográficas que endossassem o consumo das tradescantias, nada que confirmassem a palatabilidade, valor nutricional entre outras informações pertinentes. Outra questão é sobre a identificação de plantas (não é o caso das tradescantias), mas nem sempre são óbvias.

abaixo o link da busca pelas palavras-chave tradescantia pallida nutritional value
https://scholar.google.com.br/scholar?hl=pt-BR&as_sdt=0,5&q=tradescantia+pallida+nutritional+value

Por favor, se você possui fontes, apresente-nos para que tenhamos mais segurança sobre o incentivo ao consumo de tradescantias.

Obrigada

Suzana disse...

Estava na dúvida se essas duas variedades de trapoeraba eram comestíveis, que bom descobrir isso. Farei essa Água de Matali com certeza. Esse processo me fez lembrar o suco de shiso vermelho, uma folha tradicional japonesa. Quando se faz o chá, a cor avermelhada fica um pouco opaca e feia, mas quando se acrescenta o limão, ela volta mais intensa do que nunca, e vira o suco mais lindo do mundo, parece refresco de criança ou Cini de framboesa... com a diferença de ser natural! A trapoeraba zebrina dominou parte do meu jardim e estava pensando mesmo no que fazer com ela, além de sá-la como borda dos meus canteiros... Que bom!

Neide Rigo disse...

Oi, Lumi!
Não sei se viu que reeditei o texto, pra ficar mais claro o tipo de tradescantia que normalmente é usada no México. De fato não há muita pesquisa, mas o que descobri é que em algumas regiões do México esta planta é usada como bebida. No post eu digo que embora tenha provado ambas as plantas, não achei palatável e não encontrei referências sobre este uso. Ambas são usadas ainda como planta medicinal - estas referências são mais fartas. Eu coloco também no texto o link para o refrigerante feito com as folhas da T. zebrina - e é esta que recomendo usar como refresco, de fácil identificação (até tirei na reedição o que fiz com coração-roxo, que não é tão comum - embora também traga no texto um link onde ele aparece para fazer água de matali). Ou seja, temos mais referências de uso etnomedicinais. Quanto ao valor nutricional, não me importei muito, já que mostro mais uma opção de corante alimentar - e, no próprio link que me mandou, há referências sobre este uso, que também já tinha visto. A intenção do post era só mostrar que temos aqui a planta que mexicanos usam lá. Procurei textos sobre toxicidade e felizmente não encontrei. Mas, se você descobrir outras informações, estou aceitando ;). Obrigada, um abraço,n