terça-feira, 15 de maio de 2012

Dias lindos ou O Doze

 


Nada que ver com aqueles dias lindos anunciados por Drummond, que começa lá para o meio de abril quando o céu ganha azul correto e a temperatura fica mais amena. Nem com os dias felizes de Cecília Meirelles, quando até os urubus são belos. Mas talvez com os dias impiedosos da seca de 1915 retratados pela Raquel de Queiroz em seu "O quinze", que escreveu quando tinha apenas dezenove anos e que a perseguiu até sua morte.  


A percepção estética depende do repertório mas também é circunstancial. Estes dias cinzas que acometem São Paulo nos últimos dias me põe num estado de melancolia, pois adoro o sol,  suporto bem o calor e acho lindo um céu azul com nuvens brancas de algodão.  Já Eliane,  chegou alegre bradando, com ar que poderia ser de ironia, "que dias lindos"! Achei graça do contraste, mas, a gente sabe, a seca não tem graça nem fé que resolva (dinheiro bem aplicado, isto sim).  É deste jeito, me explicou,  que exclamavam lá na caatinga, crianças e adultos, quando abriam a porta pela manhã, ainda se espreguiçando, e  notavam uma nuvem cinza no céu anunciando chuva. Viesse acompanhada de relâmpagos e trovoadas, então, tanto melhor.  Aos primeiros pingos grossos, as crianças saiam pro terreiro rodopiando de felizes. Corriam plantar milho e feijão para garantir a provisão do ano.  Ela diz que estranhou muito quando chegou aqui e ouvia as pessoas elogiando "que dia lindo!" para um dia seco, azulento, com nuvens brancas de brinquedo, sem uma nuvenzinha cinza de seriedade enfeitando a crueza do céu. Lamentou a seca de sua terra, que este ano está brava. Seria "O Doze"? 


Contou que na vizinhança de onde ainda teima em viver o pai, na caatinga da Bahia, ninguém acha belo o urubu e por isto todo mundo estranhou aquela movimentação, aquele vai e vem e sobe e desce de urubus na fazenda do compadre. Já tinha dias ninguém o via no povoado. Os filhos vieram pra São Paulo fugindo da seca e a mulher veio recentemente dar amparo à filha que acabou de ter bebê. Compadre ficou, pois alguém tinha que dar palma e pindoba aos gados e aos bodes, já que,  caldeirão, barreiro, cisterna, tanque, riachos e potes, estava tudo seco e os bichos, fracos. Não adianta querer vender, que ninguém compra. Muita gente abre as cercas pra que os bichos morram longe dos olhos. Compadre jamais faria isto. Os vizinhos queriam muito bem ao homem e por isto foram lá saber notícias e descobrir o porque da urubuzada.  Chegando à casa vazia, de portas abertas, encontraram no redor, além de palmas velhas secas,  os bichinhos todos mortos, com pescoços esticados e carcomidos. Destino diferente não teve o compadre, que sempre dizia que não aguentava mais ver o sofrimento dos seus bichos morrendo de fome e sede.  Cadê o compadre, cadê o compadre? Campearam pela terra seca salpicada de espinhos de chique-chique até que avistaram a corda e a carcaça pendendo do juazeiro.  Já tinha quinze dias o ocorrido. 


Este ano não tem milho no São João, que não foi plantado no São José. Nem nada foi plantado, nada será colhido. O que vão ter as gentes para comer? e os bichos que alimentam gentes? Que venham  nuvens pretas, relâmpagos e trovoadas para o semiárido, que por aqui vamos desejando e aprendendo a apreciar estes dias lindos. 


7 comentários:

Dricka disse...

Ah Neide que post poético! Eu gosto de dias cinzas, porque acho melancolia um sentimento diferente da tristeza, uma instropecção da , mas tambem gosto dos dias ensolarados, dias de rosa como diz minha mãe, então cheguei a conclusão que gosto mesmo é da vida e acho que o mundo é perfeito, só falta as pessoas se adequarem a essa perfeição.
E fico muito triste em saber que a realidade que a querida Rachel retratou em O Quinze continua tão atual, tanta riqueza em 2 ou 3 estados e o resto desse rico pais padecendo desleixo.
Bjs

marta.hoffmann disse...

Oi Neide,
pois ontem aqui,como hoje,estava chuvoso,cinza ,pesado e melancolico,mas qual não foi minha surpresa ao receber a visita de um pica-pau!Acho que ele percebeu que estava sentada aqui em frente ao computador, olhando a chuva passar.,o pica-pau veio na minha veranda na mesa aonde tenho algumas ervas de cozinha,mais precisamente no meu arbusto de louro!!!meu dia terminou feliz!!!consegui pegar a maquina fotografica ligeiro e tirar uma foto atraves do vidro da porta.Coloquei a foto no meu blog,vc.pode dar uma olhada.,apesar do sol não aparecer,apareceu o pica-pau!!!

Matoso disse...

É isto mesmo Neide nos agricultores estranhamos muito quando no noticiario da tv anuncia: tempo bom¨,e vem aquela imagem do sol brilhando,(tempo bom pra quem ?,pra quem quer ir à praia? ) É o urbano confrontando com o rural.Abraços e Parabéns.

maria lucia disse...

Lindo, Neide, obrigada

Juliana disse...

ai...! ...
uau..!
obrigada.

Maria das Graças disse...

Neide, eu sei do que voce está falando como nordestina que sou, criada lá na caatinga, e tendo vivido todo esse sofrimento. E até hoje, morando no Rio há mais de 40 anos, ainda lembro da alegria do meu pai quando via o tempo fechado, parecendo que ia chover, e dizia: oia que tempo bunito!
Sinceramente, não consigo entender como essa penúria ainda continua, em pleno século 21. É desolador!

Anônimo disse...

Concordo com você. O que adianta mais esse pacote de mesada do governo? porque não aplicar bem esse dinheiro para que todas as famílias possam sair da miséria sem depender de mesada? Infelizmente, é mais uma jogada eleitoreira. Abç
Izabel