Minha coluna de hoje está no Estadão impresso, no blog do caderno e também aqui:
Kombucha
Emendando
com o assunto da última coluna, que era sobre chás e infusões, aproveito que
ainda é tempo de tomar bebidas geladas para apresentar o chá fermentado a quem
não conhece.
O
kombucha tem origem chinesa e é conhecido há séculos por suas propriedades
terapêuticas. Trata-se de uma bebida gasosa, ácida e adocicada feita a partir
da fermentação do chá por uma cultura simbiótica de bactérias e leveduras e
pode conter até 40 microorganismos probióticos diferentes. Dependendo do
meio, da temperatura, do tipo de chá usado,
a proporção destas espécies pode variar, porém, o Saccharomyces cerevisiae será uma levedura sempre presente assim
como as bactérias do gênero Acetobacter,
especialmente a Gluconacetobacter xylinus,
responsável por fazer uma camada gelatinosa na superfície do líquido. Por seu aspecto, esta camada foi associada à
alga kombu e por isto kombucha é um nome conhecido mundialmente apesar de não
ter nada que ver com uma alga ou cogumelo, com o qual também costuma ser
associado.
Para
o preparo pode ser usado qualquer tipo de chá (Camelia sinensis), seja ele chá branco, preto, chá verde, Oolong
etc. Mas outras infusões também funcionam, como é o caso do mate. Há quem faça
ainda com café ou misturado com infusão de hibisco.
A
bebida está em efervescência nos Estados Unidos, acompanhando a onda de
alimentos e bebidas funcionais. Já as
razões que me levaram a ele foram de ordem organoléptica em primeiro lugar, sem
desprezar o fato de ser uma bebida probiótica – que ajuda a compor e repor
nossa flora intestinal, nossa maior aliada na saúde e prevenção de doenças.
Todo
o espaço deste caderno não seria suficiente para falar sobre os alegados
benefícios do kombucha contra hipercolesterolemia, diabetes, artrite, insônia, depressão
etc, portanto sobre este tópico serei breve.
Há estudos que referendam muitos dos depoimentos sobre experiências
pessoais. De fato, o chá fermentado tem poderes antibacterianos – confrontos in
vitro já foram armados entre espécies de bactérias patogênicas de origem alimentar
e o kombucha sempre se saiu vencedor. Em
experimentos com ratos, comprovou-se uma melhora na imunidade, além de ser
hepatoprotetor e diminuir o colesterol
quando eles foram submetidos a uma dieta gordurosa. Há também relatos pontuais de malefícios, mas
não foi comprovada a associação e pode ser devido à falta de higiene no
manuseio ou por contaminação química do material do recipiente usado.
Agora,
o mais fascinante é que você pode produzir seu chá fermentado, com pouco ou
muito gás, em casa, sem precisar de caros ingredientes e complicados
equipamentos. É como fazer cerveja ou
pão artesanalmente, só que sem mistérios,
mínimo custo, muita margem para a criatividade e alegria ao ver o resultado em
pouco tempo.
Minha
primeira impressão sobre a bebida não foi de amor à primeira vista. Tem uns 10
anos que alguém me ofereceu uma colônia em troca de alguns grãos de kefir
– geralmente quem tem kombucha, kefir,
levain ou minhocas para o minhocário não se importa de ceder uma muda para o
vizinho, amigo, parente. Fiquei mal
impressionada com aquela bolacha gelatinosa e recusei. Só recentemente a amiga Marisa Ono me presenteou uma mãe de
kombucha junto com um pouco da bebida.
Desta vez, não só simpatizei com aquela colônia como também fui fisgada pelo aroma frutado da
bebida. Na boca, adocicada, gasosa,
ácida e aromática, com um pouco de tanino do chá, um quase nada de álcool, uma mistura de
sidra, champanhe e guaraná. Pronto,
estava feito o estrago e logo fiquei obcecada por testar variações.
O
perigo de começar a fazer kombucha em casa não é você virar um devoto das
virtudes medicinais, mas, antes disso, de virar um aficionado pelas
possibilidades de experiências que ele oferece.
Diferente
da mãe do vinagre que pode se formar sozinha a partir de um suco fermentado não
pasteurizado e é formada basicamente por bactérias acéticas, a mãe do
kombucha, apelidada de scoby (sigla para symbiotic colony
of bacteria and yeast), é um verdadeiro coração de mãe, pois acolhe
em sua trama de celulose - zoogleia é o nome certo - não só bactérias mas também leveduras e você
só consegue fazer a bebida se tiver a colônia ou ao menos um pouco de kombucha
pronto.
Felizmente
é fácil conseguir em grupos de doação no facebook, em fórum de blogs ou mesmo
comprando. Na Amazon ou no Mercado Livre, procure comprar a mãe que venha com
um pouco da bebida pronta para facilitar o preparo. Não é fundamental, mas
ajuda no começo. O processo de produção
é muito simples. Você faz um chá como aquele que beberia, só que doce, espera
esfriar, despeja num vidro com a mãe de kombucha e um pouco da bebida já
fermentada. Depois, basta cobrir com
pano e esquecer dele por uma semana. Na
superfície vai se formar uma nova mãe com cara de lula crua e há até quem a
prepare como ceviche quando há sobras –
já eu, não sei se teria coragem de fatiar algo que responde por mãe. Bem, a bebida é retirada do vidro, envasada e
colocada na geladeira.
Ou,
se quiser uma segunda fermentação, é só deixar fora da geladeira em garrafa
fechada por até 10 dias, dependendo da temperatura ambiente – quanto mais quente,
mais rápida a fermentação. Se preferir
a bebida com sabor, é só acrescentar frutas com cor, ervas aromáticas ou a
combinação das duas coisas e mais especiarias. Neste caso, deixe em infusão por
24 horas em vidro de boca larga fechado (com umbu maduro, virou “kumbucha”, delicioso). Depois, coe em filtro de nylon, engarrafe
e guarde na geladeira. Antes de partir
para garrafas de vidro, faça isto em garrafas pets, pois a depender da força da
fermentação, as garrafas podem explodir.
Por isto, nunca, jamais, esqueça um kombucha fechado em temperatura
ambiente fora do seu alcance. Fique sempre de olho nele. Antes de abrir,
desrosqueie a tampa com cuidado para sair o excesso de gás. E, claro, não ouse
abrir uma garrafa apontando para alguém que você ame.
Assim
que você decidiu o destino do líquido drenado, é hora de pensar na mãe. Deixe
uma por vidro, a que estava por cima. Logo outra se formará na superfície. As sobras de mães podem ficar guardadas num
vidro-hotel sem se preocupar em trocar o chá toda semana. Costumo ter várias
mães neste líquido que vai ficando ácido como um vinagre e assim posso ir
presenteando os amigos. Aliás, se
esquecer o kombucha no vidro junto com a
mãe, em cerca de um mês terá um complexo vinagre de chá.
Como
a bebida pronta pode ser mais doce ou mais ácida, você vai descobrir o tempo
certo para retirá-la de acordo com o seu gosto. No meu caso, fixei a troca em
uma semana para criar uma rotina. Pura e
gelada é refrescante e agradável, mas experimente usá-la como refrigerante no
preparo de drinques. Logo ganhará um vício e diminuirá o álcool. Quando tomo
ponche feito com ele sempre fico pensando que tenho ali um pouco de antídoto
junto ao veneno, já que tem a fama de proteger o fígado (para um litro de
kombucha, meia xícara de licor de laranja, gelo, casca de laranja, cubos de
maçã, de laranja e abacaxi). Se quiser
repetir seu drinque preferido sem se embebedar, é só fazer a metade e completar
a dose com kombucha. Já testei com vários tipos e todos ficaram deliciosos.
Há
diferentes fórmulas e diferentes orientações quanto ao melhor tipo de chá, de
açúcar ou recipiente usado. De um modo geral, está é uma fórmula fácil de
guardar. Para cada litro de água, 50 g
de açúcar, 5 g de folhas de chá e 5 minutos para a infusão. Use sempre vidro em vez de cerâmica, plástico
ou metal para deixar a bebida. E para
ferver o chá, de preferência aço inoxidável.
Toda higiene é pouca. Afervente todos utensílios que puder ou ao menos
passe por água fervente. Lavar tudo com água e sabão também funciona, mas
ferver tudo é uma garantia a mais. Não deixe nunca seu kombucha exposto pois
moscas de frutas são atraídas pelo cheiro e se botarem ovos ali, danou-se
tudo. A mãe tem que ter um bom aspecto.
Se mofar, já era, jogue fora, esterilize tudo e comece de novo. E, claro, use a
melhor água que tiver, o melhor açúcar, o melhor chá. Para quantidade maior, lembre-se sempre de
usar uma parte do kombucha pronto na proporção de mais ou menos 10%.
Para até 4 litros eu uso apenas uma mãe, mas tudo isto você vai
descobrindo com a experiência.
Kombucha
1
litro de água de preferência mineral
5
g de folhas de chá ou mate
50
g de açúcar cristal
1
mãe de kombucha
100
ml de kombucha pronto
Leve
a água ao fogo. Quando ferver, adicione o chá, tampe e espere 5 minutos. Coe,
junte o açúcar enquanto ainda está quente, misture bem para dissolver e coe em
filtro de café (usado só para isto), tampe e espere esfriar. Num vidro de boca larga coloque o chá frio, a
mãe e o kombucha pronto. Cubra com
guardanapo de papel ou pano de algodão. Prenda com elástico e deixe em
temperatura ambiente. Depois de uma semana confira se a mãe formada está com
bom aspecto, clara, gelatinosa (a nuvem que se forma abaixo dela são as
leveduras e isto é normal). O sabor deve
estar ácido mas ainda adocicado. Conserve a colônia mais recente para a próxima
partida e guarde outras em um pouco de chá (para doação ou experiências com
outros tipos de chá).
Guarde
a bebida coada na geladeira em vidro tampado e consuma em uma semana, que é o
tempo para ter outro lote.
KOMBUCHA DE CHÁ MATE
SABOR FLOR DE SABUGUEIRO
1
litro de kombucha feito de mate orgânico
1
cacho de flor de sabugueiro higienizada com hipoclorito e enxaguada
Meio
limão siciliano cortado em rodelas
1
fava de baunilha do Cerrado
Coloque
o kombucha pronto num vidro que feche hermeticamente, junte a flor de sabugueiro, as rodelas de
limão e a fava de baunilha. Feche o vidro e deixe em infusão por 24 horas.
Passe por filtro de nylon, engarrafe, leve à geladeira e consuma em até uma
semana. Antes de abrir, solte a tampa
aos poucos para verificar se não houve excesso na formação de gás.
Rende:
1 litro


































