segunda-feira, 21 de julho de 2008

Florença - as carnes do Mercado

De manhã os vendedores estão alegres e falantes.

Durante o tempo em que estive na Toscana comi pouca carne vermelha, a não ser nos produtos curados e embutidos. Fora a insalata di trippa (salada de bucho/ dobradinha) e o coniglio ripieno (coelho recheado) que comi no encontro do Slow Food, só comi um prato de trippa fiorentina (bucho em tirinhas com molho e queijo ralado) no Mercado e, de resto, massas e risotos feitos com cogumelos ou, no máximo, frutos do mar. Nada de carne de aves, de boi ou de porco. Por isto, não posso nem dizer se são boas ou não estas carnes que vi no Mercado. Mas pelo menos o nome delas acho que aprendi. Uma coisa interessante é que os tendões, línguas e tripas são vendidos já cozidos. Vejam aí as fotos:
(Para saber onde se encaixa cada peça, bem como seus nomes italianos regionais, veja a ilustração da vaquinha aqui).


Coniglio ripieno. coniglio porchettato


Faraona (angola) e galetto


Pollo e galletto

Trippa cotta e centopelle cotta

Zampa di vitella

Vitella: rosetta, ossibucho, scannello


Piccioni (pombos)

Bistecca, rosetta, bicchiere, groppa e magro scelto
Bollito, scanello e girello

Vitella: campanello, scannello, ossibuchi, rosetta, coscio e spalla.

Cervelo

Bistecche, girello e rosetta


Arista


Musetto cotto, Arrotolato di guancia cotta, lingua cotta


Soppello, campanello, spalla e petto

Nervetti cotti di vitella e lamprenollo cotto
Pancetta, spalla di maiale, stinco e rosticciana

Pecora e Capra


Pollo e coniglio

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Florença - os queijos do mercado


Lugar de comer às 7 da matina. Daqui a pouco, isto lota de gente faminta.
Pelo menos para mim, a melhor hora de se ir ao Mercato Centrale di San Lorenzo é pela manhã, quando se pode olhar tudo com calma, fotografar, ver peixes mais raros que chegam em pequena quantidade, provar uma lasquinha de queijo, uma fatia de presunto, perguntar, conversar, comprar sem pressa nem filas. Mas se você não consegue acordar muito cedo, tem atés as 14 horas para conferir as novidades no meio de uma multidão que foi lá pelo mesmo motivo. O que não pode é deixar de ir. A partir de hoje, mostro aqui os produtos que consegui fotografar, divididos por assunto, de modo a abranger todo o mercado. Começo com os queijos. E acho que trago-os de todas as bancas. Desculpe-me por não conseguir ter fotografado todas as legendas decentemente. E também por não ter provado todos eles para poder deixar aqui minhas impressões. Trago, então, se é que isto serve para alguma coisa, o preço em euros, por quilo.


Sardo - 11,80 euros; Pecorino prataiolo - 9,80 euros; Pecorino di Maremma - 9,80 euros


Scamorze fresche - 12,91 euros


Plaquinhas ilegíveis


Quartirolo - 19,50 euros; Taleggio - 19,50 euros (ops, o que meu dedo está fazendo aí?)


Provolone piccante e Provolone dolce – 13,90 euros; Taleggio – 12,90 euros; Brie em oferta – 9,90 euros; Provola affumicata – 14,90 euros; Ricotta - 2,90 (?) euros


Plaquinhas ilegíveis


Romano - 9,80 euros


Plaquinhas ilegíveis


Parmegiano reggiano 1 scelta e Parmegiano reggiano 1 stagionatura – 12,91 euros


Pecorino stagionato in grotta


Fourme d´Ambert au sauternes - 44,00 euros; Ricotta carnica affumicata - 25,50 euros; Marzolino; St. Fillippe ai 3 blu - 44,00 euros; Blu de Re mucca - 39,50 euros; Tomino "La Tur" mucca - 6,50 euros a peça; Lucullus - 44,00 euros e Ricotta del pastore - 10,00 euros (veja o preço da Bottarga - 250,00 euros o quilo!)


Canestrato - 8,50 euros; Sardo - 11,80 euros

I
E outro tanto com plaquinhas ilegíveis

Site do Slow Food no Brasil comemora hoje 1 ano



De presente, aceita uma visitinha: www.slowfoodbrasil.com

quinta-feira, 17 de julho de 2008

O encontro da Arca do Gosto em Scandicci


Pensei que fossem tomates, mas eram berinjelas vermelhas

Como já disse aqui, fui junto com a Roberta de Sá, presidente da Comissão da Arca do Gosto – Slow Food, da qual faço parte, para um encontro que reuniu representantes de 24 países em Florença (mais especificamente Scandicci, a 9 quilômetros de lá) para discutir sobre regulamento e critérios para que um alimento possa embarcar. Segundo o presidente da Fundação Slow Food para Biodiversidade, Piero Sardo, estamos num dos momentos mais difíceis para a proteção da biodiversidade na história, já que, com o alarme público para o aumento dos preços dos alimentos, os governos têm se empenhado unicamente em aumentar a produção.

Bem, para quem não sabe, a Arca do Gosto tem a função de redescobrir, catalogar e descrever alimentos em risco de desaparecer. São produtos ameaçados pela padronização industrial, pelas rigorosas leis de higiene, pelo mercado de massa, mas que têm real viabilidade econômica e comercial. Porém, não é só isto. Além de estarem de acordo com a filosofia do Slow Food do bom, justo e limpo, eles têm que ter uma relação histórica, cultural e territorial com determinada comunidade. Com isto, nem todos os alimentos que imaginamos poder entrar na Arca se encaixam nestes critérios. É o caso do mangarito, por exemplo. O Seu João Lino reintroduziu o cultivo comercial de uma cultura perdida, aqui perto de São Paulo, mas que não têm mais nenhuma relação histórico, cultural ou territorial com uma comunidade específica. É uma pessoa plantando num local escolhido por ele. O que podemos fazer é incentivar o uso, reintroduzir nos cardápios, mas não é um alimento para a Arca, segundo os critérios da Fundação. Agora, não pensem que estes critérios estão redondinhos, não. O critério de território, que pode ter amplas interpretações, foi o mais polêmico e saímos de lá sem um consenso. De concreto, sabemos que Brasil não é considerado um território nem o povo de são paulo, uma comunidade. É tudo em proporções bem menores. Outra discussão acirrada foi em relação ao uso da logomarca do Slow Food. Nem um produto protegido pode usar a logomarca em seus rótulos, já que a Fundação não têm poder fiscalizador que pudesse aferir e atestar regularmente sua qualidade higiênico-sanitário. E se houver qualquer problema com o produto, que pode ser um ingrediente in natura, mas também um manufaturado como uma geléia ou uma conserva, por exemplo, o Slow Food não poderia ser responsabilizado. Ainda assim, o produto pode ser divulgado pelos Convivia ou outros meios como produto protegido pelo Slow Food. Saímos da reunião com alguns temas pendentes para serem discutidos no Terra Madre, que vai acontecer em Outubro, em Turim.

Mas nem tudo foram farpas. Houve também seminários centrados em frutas e hortaliças que discutiram temas sobre como proteger o patrimônio de variedades locais, métodos de cultivo sustentáveis, preservação, eco-embalagem, rotulagem e comercialização.

E o melhor de tudo é que cada almoço e cada jantar foram especiais, pensados com cuidado para que tivéssemos oportunidade de provar muitos produtos, pratos e vinhos regionais, numa mesma mesa com gente de várias partes do mundo, de Mali a Noruega. Quem fez a comida durante os três dias foram voluntários, homens e mulheres, membros do Convivium do Slow Food de Scandicci. E posso dizer que capricharam tanto no preparo, quanto na apresentação e serviço (com o calorão que fazia, alguns vinhos, fartos, diga-se, chegaram meio quentes à mesa, mas isto não afetou em cada o encantamento). Tudo isto num castelo, onde foi montado e inaugurado especialmente para este evento o Bistrot del Mondo, local destinado também para exposição e venda de produtos da Arca e Fortalezas, exposições de produtos, degustações e outros encontros do Slow Food. E teve até bolo de aniversário – é que a Fundação Slow Food de Biodiversidade completava cinco anos de atividade.
Alguns pratos regionais, simples, sem frescuras e maravilhosos e bebidas, idem:


Pappa al pomodoro

Assortimento di salumi di cinta senese - só botei tudo aqui pra tirar foto. Não comi tudo, mas poderia.
Conserva de berinjela vermelha – quando demonstrei interesse pelos frutos in natura de enfeite no café, logo se apressaram em me dar a experimentar.


Cippola di Tropea e peperoncini verdi in dolce e forte – mais doce que ácido, uma delícia para comer com pão toscano, sem sal.


Fagiolini burrini al pomodoro, zucchine fiorentine trifolate e coniglio ripieno arrotolato. Estas vagens são cremosas e adocicadas.


Crespelle allá fiorentina. Delicada panqueca com queijo e molho de tomate super aromático e adocicado.


Alici marinate com cipolla e menta. Este e a pappa al pomodoro foram meus preferidos.


O melhor queijo que comi por lá: Castelmagno d´alpeggio. Da província de Cuneo, no Piemonte, este queijo com D.O.P. (Denominazione di Origine Protetta) é firme, mas amanteigado e deve fazer um risoto delicioso.

Rosato



Valpolicella Classico Superiore Ognisanti

Vino Nobile di Montepulciano

E, claro, Chianti - Colli Fiorentini

Para terminar: Zuccotto da Gelateria artigianale Malotti, de Scandicci, com Piemonte Moscato Passito La bella estate 2006.

Dia de comer e Beber. Convivium Slow Food São Paulo e SBAV-SP promovem jantar de harmonização



No próximo dia 22 de julho, terça-feira, prepare-se para ir de taxi, ônibus ou metrô. Nada de dirigir. É que o Convivium São Paulo promove junto com a Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho (SBAV-SP) um jantar de comida brasileira harmonizado com vinhos biodinâmicos e orgânicos escolhidos pelo especialista Edecio Armbruster, diretor sócio-cultural da Sociedade e membro do Movimento. O cardápio, comentado pela líder do Convivium, Cenia Salles, e assinado pelo chef Newton Figueiredo, privilegiará ingredientes orgânicos, preparações regionais e produtos protegidos pela Fortaleza Slow.

Confira o cardápio e os vinhos escolhidos:

Menu

Entrada: Legumes grelhados com queijo coalho e farinha ovinha de Uarini ao néctar de abelhas nativas (da farinha ovinha já falei aqui)
Prato principal: Escondidinho de mandioca e mangarito com carne seca
Acompanhamento: Arroz vermelho com crocante de licuri (um coquinho delicioso, para quem não conhece)
Sobremesas: Creme de cupuaçu e doce de umbu

Vinhos

Avondale Sauvignon Blanc 2006 - África do Sul
Iphöfer Kronsberg Silvaner Kabinett trocken 2005 -Francônia, Alemanha
Crozes-Hermitage Les Meysonniers 2006 - Rhône, França
Ijalba Múrice Crianza 2003 - Rioja, Espanha
Wachenheimer Rechbächel Riesling Auslese - Palatinado, Alemanha


Serviço

Quando: 22 de julho, terça-feira
Quanto: R$ 70,00 para sócios e imprensa; R$ 100,00 para não-sócios
Onde: SBAV-SP - Alameda Gabriel Monteiro da Silva, 2586
Confirmação até sexta-feira, dia 18/07: (11) 3814-7905, com Nelson
Outras informações: http://www.sbav-sp.com.br/

quarta-feira, 16 de julho de 2008

OS SABORES DA TOSCANA

Vinhedos da Isole e Olena – um lugar inesquecível

Voltei. Fora a espera de 12 horas no aeroporto de Paris por causa de uma conexão perdida, tudo deu certo. Muito certo. E percebo agora que o difícil não é voltar da Toscana, mas escolher sobre o que falar da Toscana. Tentarei.


Começamos com uma reunião com a Comissão Nacional da Arca do Gosto, do Slow Food. Sábado e domingo. De manhã e à tarde, apresentação dos trabalhos de diversos países e palestras sobre assuntos relacionados ao cultivo, conservação e apresentação de frutas e hortaliças. Nos intervalos, almoços e jantares preparado por voluntários do Convivium do Slow Food Scandicci – que fica a apenas 9 quilômetros de Florença. Muito Chianti, Vin Santo, cerveja artesanal e comida boa, caseira, que incluía coniglio ripieno (coelho recheado), fagiolini burrini al pomodoro (vagens fininhas com tomate), fragole di Mosciano com ricotta di pecora (moranguinhos com ricota fresca de leite de ovelha), alici marinate com cipolla e menta (aliche marinado com cebola e menta), Pappa al pomodoro (pão refogado com tomate), queijo Castelmagno d´alpeggio, Spaghetti alla chitarra (espaguete cortado com uma guitarra própria para talhar a massa em pequenos fios) e tantos outros. As comidas e os detalhes deste encontro voltarão em outra postagem.

Já em Firenze, encontrei minhas amigas Kátia Stringuetto e Mônica Manir que vinham de Veneza. Alugamos um apartamento em cima de uma padaria. Com a vendedora nos encontrávamos de dia, mas com os padeiros, que trabalhavam de noite e com portas abertas por causa do calor, nos falávamos quando chegávamos em casa, exaustas, geralmente carregadas de sacolas. Não foi difícil fazer amizade mesmo com nosso parco portugliano. O cheiro de pão toscano se infiltrava pelas frestas e impregnavam até nossos lençóis. Sem falar é claro no calor gerado pelos fornos que aqueciam nosso chão já tão quente pelo sol dos dias longos de verão – o calor lá é de lascar. Então, o pão, alimento presente em toda refeição toscana, nos acompanhou desde o primeiro dia. Dia e noite. Para compensar a quentura, ganhávamos pão caldo no fim da noite.

O acervo cultural da cidade de Florença é a coisa mais impressionante que já vi. Diante da estátua de David quase se vê e se ouve o sangue dele correndo em enxurrada sob uma pele de mármore. Ele parece que respira.
Mas este blog é de comida, então, vamos a ela.

Não comi em nenhum restaurante estrelado e caro, mas em tratorias singelas e bem apanhadas. Jantamos quase todos os dias em casa, onde me realizei cozinhando pastas e risotos com ingredientes do Mercato Centrale di San Lourenzo. Aliás, duas visitas em horários movimentados não foram suficientes para conhecê-lo bem. Decidi num dos dias acordar bem cedo e chegar lá às 7 horas, quando as bancas estavam se abrindo. Aí sim pude conversar, perguntar, tirar fotos sem nenhuma pressão, sem turistas me empurrando e com vendedores menos estressados. Não que os sejam, muito pelo contrário, são muito simpáticos principalmente quando sabemos usar em italiano pelo menos as palavrinhas introdutórias mágicas. De resto, saber um pouco de mímica também ajuda. Mas, com muitos compradores na fila para atender, é claro que os mesmos vendedores não têm a mesma paciência.

Minhas maiores descobertas foram os queijos, às centenas, os embutidos, os tomates maravilhosos de doces assim como os melões, as flores de abobrinha muito frescas, os peixes e as frutas de clima temperado como ameixas, pêssegos e nectarinas, todas incrivelmente doces e suculentas como devem ser.

Os presuntos, os lardos (fatias de toucinho curado mas não defumado) e salames são aromáticos e com sal perfeito para se comer com o pão típico da Toscana, senza sale - completamente sem sal. No começo se estranha, depois percebe-se o exato equilíbrio entre a massa rústica e simples do pão de crosta dura e os queijos e embutidos salgados, macios e untuosos.

Viajamos ainda pelas colinas de Chianti e visitamos a famosa vinícola Isole e Olena, onde conversamos com o simpático casal Paolo e Marta durante longas e deliciosas horas. E este é um capítulo à parte, para adiante. Conhecemos também as cidades medievais e mágicas de San Gimignano, Siena e Lucca. Não podíamos deixar de tirar fotos na Torre de Pisa e ainda exercitar nossas panturilhas nas trilhas íngrimes das Cinque Terre. Em todos estes lugares chama muito a atenção o capricho nas vitrines das pequenas mercearias de especialidades gastronômicas. São charmosas, aconchegantes e, claro, tentadoras. Assim como as sorveterias, que abusam da decoração e valorizam o termo “artesanal”.

Bem, falarei aos poucos nos dias seguintes do que vi e comi. Como sempre, para sair em viagem, corro para adiantar trabalho e volto na correria para tirar o atraso. E ainda digo que sou Slow
...

Companheiras de viagem: Kátia Stringuetto e Mônica Manir.


Vin Santo e Cantucci no Mercado


No Mercado, vitrines chamativas e didáticas: todas trazem o nome e o preço das coisas.


Nosso café da manhã: um iogurte maravilhoso que encontramos no mercado e frutas vermelhas.


Pappa al pomodoro. Receita camponesa rústica feita com pão duro - simplesmente deliciosa. Aguardem receita.


Pães quentes da nossa vizinha padaria.



No Mercado, o vendedor me ensina a preparar as abobrinhas recheadas: corte uma tampa, escave e faça um recheio com pão esmigalhado, ovos, salsinha, cebola e carne moída; leve ao forno numa assadeira com água e um pouco de azeite, até amolecer. Ecco.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

VOLTO NO DIA 16 DE JULHO


Neste próximo fim de semana acontece em Florença o encontro internacional das comissões da Arca do Gosto, um dos projetos do Slow Food do qual faço parte. Vejam aqui o programa. Vou amanhã com a Roberta de Sá, do Slow Brasília, presidente da Comissão Nacional, e só volto no dia 16 (uma semaninha em Florença por minha conta, com minhas amigas Kátia Stringuetto e Monica Manir). Não me abandonem, volto com novidades. Tchau, tchau, que preciso arrumar as malas. Um abraço, Neide

Abóboras, curau de abóbora, bolo de abóbora

Todas cucurbitáceas: abóboras e cruá

Em abril ganhei duas abóboras maduras, uma da Verônika e outra da Silvia Bruno, duas leitoras aqui do Come-se. Deixei-as de enfeite, com dó de abrir. E elas estavam intactas quando, neste fim de semana, fui a uma festa junina e decidi levar um creme feito com elas, tipo curau que vi certa vez numa revistinha Saúde. Só me lembrava o jeito de fazer. O resto foi por minha conta. É prático, rápido e surpreende. Aproveitei pra comparar as duas variedades de abóbora. Minha mãe havia me dito que a rajada era melhor para doce porque é mais firme, tem massa mais fina. Para comprovar, abri as duas.

A rajada é mais densa e tem cor mais escura


A lisa tem polpa mais fina e mais espaço para sementes

Cozinhei as duas no vapor (ambas ficaram macias depois de 15 minutos já colocadas sobre a água fervente, em cuscuzeira), salguei levemente e dei para o meu provador oficial, o Doc (apelido do Marcos no aikido). Preciso sempre anotar correndo suas observações, porque ele fala rapidamente o que achou de um jeito pouco usual para quem lida com comida. Aqui a avaliação dele, curta e grossa:

A rajada tem planos de clivagem mais definidos; menos saborosa.

A lisa tem textura fibrosa menos organizada; sabor mais encorpado e adocicado.

E é isto mesmo, a clara tem fibras longas e mais úmidas que se soltam com facilidade, enquanto a rajada é mais firme, mais coesa. Em compensação, a lisa é mais saborosa. Então, para doce fica mesmo melhor a rajada já que vai levar açúcar. A outra fica boa em quibebes e compotas como aquelas com cal em que as fibras ficam bem embaladinhas com a superfície selada com o óxido de cálcio, assim com a rajada, claro.

Bem, descasquei as duas e usei em partes iguais para o creme, já que a textura nem a doçura fariam diferença. Tão orgânicas as duas, fiquei com vontade de aproveitar também as cascas. Com elas fiz o bolo do site do Mesa Brasil – Sesc-SP. Incrementei a receita juntando cardamomo e gengibre e assando parte da massa em forminhas.

As receitas:


Polvilhei a canela usando um molde furado (fundo do meu passador de legumes)
Creme ou curau de abóbora


1,3 kg de abóbora de pescoço madura, sem casca, cortada em cubos
2,5 xícaras de leite
Casca de 1 limão Tahiti
1 pau de canela
1,5 xícara de açúcar
1 colher (chá) de sal
¾ de xícara de maisena diluída em ½ xícara de leite
Canela em pó para polvilhar

Cozinhe os cubos de abóbora no vapor, por 15 minutos ou até ficarem macios. No liquidificador, bata o leite com a abóbora até homogeneizar. Talvez seja necessário fazer isto em duas vezes. Ou use o mixer. Leve ao fogo baixo, mexendo sempre, com a casca de limão e o pau de canela. Tempere com sal e açúcar e espere ferver. Junte, então, a maisena diluída e mexa bem até formar um creme liso. Cozinhe por 2 minutos, prove e corrija o açúcar se achar necessário. Caso queira mais denso, junte mais maisena diluída. Retire a canela e a casca de limão, polvilhe com canela e sirva quente, frio ou gelado.

Rende: 20 porções


Bom para as crianças levarem de lanche

Bolo de abóboras com cardamomos

Ingredientes
2 xícaras (chá) ou 180 g de casca de abóbora picada (cabochá, moranga ou de pescoço, madura)
3 ovos
1 xícara (chá) de azeite (ou óleo)
5 vagens de cardamomo – sementes socadas
1 fatia fina de gengibre fresco
2 xícaras (chá) de açúcar
1 1/2 xícara (chá) de farinha de trigo
¾ de xícara (chá) de amido de milho (maisena)
1 colher (sopa) de fermento em pó

Cobertura
4 colheres (sopa) de leite
4 colheres (sopa) de chocolate em pó
4 colheres (sopa) de açúcar

Ou
100 g de chocolate meio amargo finamente picado

Modo de fazer
Unte com margarina ou manteiga uma forma média redonda, com 30 centímetros de diâmetro e polvilhe com farinha. Reserve.
Massa: bata no liquidificador as cascas, os ovos, o azeite (ou óleo), o cardamomo e o gengibre. À parte, peneire numa tigela o açúcar, a farinha, a maisena e o fermento. Junte o creme do liqüidificador e misture bem com batedor de arame. Despeje a massa na forma e leve para assar em forno médio (200 graus), por cerca de 30 minutos ou até dourar e desprender das laterais.
Cobertura: Misture todos os ingredientes e leve ao fogo até ferver e engrossar um pouco. Espalhe esta cobertura por cima do bolo e deixe esfriar antes de cortar. Ou espalhe sobre o bolo quente o chocolate meio amargo picado. Se quiser, distribua a massa em forminhas de silicone para fazer bolinhos.

Rende: 10 pedaços de 90 g ou muitos bolinhos... (não contei, porque fiz só uma parte da massa).

Nota: usei casca das duas abóboras de pescoço.


Já tinha feito este bolo com cabochá e ficou bem saboroso


E bem verde! (betacarotenos de montão)

terça-feira, 1 de julho de 2008

Seu Juarez dos arrozes


Clique e amplie: arroz jasmim (aromático), basmati, moti, farroupilha, vermelho e preto

Quando estive em Porto Alegre, minha amiga Mariângela queria muito que conhecesse o Seu Juarez dos arrozes, na feira ecológica, que acontece por lá há 17 anos. Eu também, mas choveu canivetes naquele final de semana que teve até ciclone. E o homem ficou ilhado, não foi. E eu, a ver navios.

Mas amiga que é amiga manda depois a encomendinha pelo correio. E na semana passada chegaram os seis preciosos saquinhos de arroz. Quando abri a embalagem, já vaporou um aroma delicioso a avelãs tostadas, pipoca, nozes, cheiro bom. Arroz jasmim, basmati, moti, vermelho, negro e farroupilha. Todos orgânicos, todos integrais. Nunca imaginei como seria um arroz aromático integral. Nem o basmati ou o moti, que encontramos sempre muito educados e polidos. Já o vermelho e o negro são sempre rústicos, íntegros, do contrário não seriam vermelhos ou negros, já que apenas a película é colorido. Polidos, todos são brancos ou quase brancos. Do farroupilha, nunca tinha ouvido falar.

Pois liguei hoje para o produtor de todos eles, Juarez Antonio Felipi Pereira, ou Seu Juarez, 52 anos. De família de pequenos agricultores com tradição arrozeira, plantou seu primeiro arrozal aos 17 anos à moda do pai, sem nenhum insumo químico que não fossem as gotas de uréia do próprio suor. Mas, segundo ele, já aos 38 tinha entrado na onda da agricultura química, até que um dia estava todo paramentado para mais uma aplicação de herbicida altamente tóxico. Ele e um amigo, com botas, chapéus, roupas de tecido especial, máscaras e luvas espaciais. O amigo olhou para aquilo tudo e disse: “você parece um lunático” ao que ele retrucou: “e você parece que vai pra guerra”. Acabou a aplicação e a frase que saiu da própria boca ficou martelando na cachola. E aí, depois de muito repercutir a expressão, tum, deu um estalo: guerra não combina com comida! Quem é o oponente? O sistema financeiro e comercial que te dá golpe baixo?; os insumos químicos que minam com a saúde de quem aplica e de quem come? ou aquelas ervinhas bobas que crescem onde bem entendem? A conclusão foi óbvia e rasteira. Daí a voltar à agricultura praticada pelos seus antepassados foram alguns passos largos, mas lentos. Durante 4 anos colheu pouco, ganhou quase nada, mas via pela frente toda a perspectiva possível para um agricultor feliz, coisa que não acontecia antes, quando vivia endividado para pagar sementes e insumos. Depois de cinco anos praticando uma agricultura mais limpa e sustentável, foi convidado a participar da feira ecológica de Porto Alegre, composta de produtores com estes mesmos propósitos. O inusitado da proposta é que sua banca seria temática – apenas arroz. Recebeu um pacote de sementes, semeou em viveiros, cuidou e multiplicou. Começou a receber na feira uma outra forma de pagamento pelo seu trabalho – além do preço justo, ganhou o respeito, o carinho e o interesse do consumidor. Só por isto já valeu. Mas também o motivou a abrir os olhos para outras variedades de arroz, de preferência do tipo japônico (aqueles de grãos mais curtos), também meus preferidos. Resgatou sementes antigas cultivadas antes da padronização trazida pela “revolução verde” que fez sumir do mapa inúmeras sementes crioulas. E fez mais: conseguiu isolar variedades que hoje se multiplicam e mantêm suas características inalteradas. São 28 delas no total, cultivadas em apenas 50 mil metros quadrados. Do plantio ao beneficiamento, tudo é feito na propriedade. No entanto, senti que a menina dos olhos dele é o arroz farroupilha. Disse que a lavoura deste arroz é a maior lindeza deste mundo. De porte alto, tem ciclo longo e não exige terra limpa. E os fertilizantes, rejeita terminantemente. Cresce muito, fica espigado, pode tombar. Melhor sem. Parece ser uma das variedades mais antigas do Rio Grande do Sul, embora hoje ele não conheça mais que cinco produtores no Estado. Seu pai, com 85 anos, conta que quando tinha 10, cada família, incluindo a sua, ganhou 5 kg de sementes de arroz farroupilha para plantar e talvez revender para o empresário doador. Seu Juarez não sabe ao certo como foi. De qualquer forma, o arroz está aí até hoje resistindo às intempéries agroeconômicas, químicas e culturais. Ele é um arroz mais longo que o cateto e mais curto que o agulhinha. Na consistência também é intermediário entre os dois. E na panela, posso garantir porque foi o jantar de ontem, é muito bom. Lembra um pouco o Batatais que meu pai planta. Cremoso, bom para risotos. E com um sabor amendoado bem definido.

Atualmente, com a ajuda de marrecos e outros animais para a manutenção do equilíbrio da lavoura de arroz de outras culturas de subsistência, Seu Juarez diz que sua saúde física continua melhorando com a capacidade readquirida de entender as coisas e de se encantar com a comida que lhe faz bem. Agora se sente muito mais jovem, saudável e disposto que com 38 anos vestido para a guerra, com mochila de veneno nas costas.

Dos arrozes, falo depois.