quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

É tempo de revoada de içá ou tanajura. Coluna Nhac do Paladar, edição de 11/12/2014


Hoje tem coluna Nhac no Paladar e lá eu falo da revoada de içás. Veja lá no blog do caderno: http://blogs.estadao.com.br/paladar/ica-o-caviar-tupiniquim/

Deixo o texto aqui também: 

Içá, o caviar tupiniquim

Está certo que prometi mudar a tônica, mas as oxítonas em a me perseguem no tempo e no espaço e se não falar de içá agora, no início da temporada das chuvas, não fará sentido citá-la quando não houver chance alguma de ela estar presente, escondida a vários palmos na escuridão da  terra.

Mas, tudo bem, podemos chamá-la de tanajura, outro nome das formigas fêmeas prenhes do gênero Atta, que vivem no continente americano, do Sul dos Estados Unidos ao centro da Argentina, há cerca de 50 milhões de anos.  

Conhecidas de um modo geral como saúvas,  formigas deste gênero são cortadeiras, plantadoras de jardins de fungos dos quais se alimentam,  e causadoras de grandes prejuízos na lavoura. Um bom tipo de controle é comê-las, não só as içás que carrega dentro delas um projeto de formigueiro para durar oito anos em média, mas também as operárias, especialmente da espécie saúva-limão, aquelas com perfume de capim-santo e citronela encontradas em todo o Brasil, até nas praças de São Paulo.

Agora, apreço mesmo tem-se pelas içás, o caviar tupiniquim, afinal o que se come delas são as ovas encapsuladas num abdome expandido.  O saudável hábito indígena sobrevive em todo o Brasil ainda hoje,  não sem uma ponta de vergonha entre a maioria dos comedores, o que é uma grande bobagem.  Como forma de incentivo para que os papa-formigas saiam do guarda-comida, devo lembrar que estes insetos já estão chegando ao cardápio de restaurantes estrelados e temos ainda o bom exemplo do Vale do Paraíba, onde o hábito de comer içás é motivo de orgulho e brincadeiras mas nunca de chacotas.  Ali, catar e comer içá em sua curta temporada é um acontecimento social que mobiliza as cidades, atraindo crianças e adultos para fora de casa e até justificando ausências no trabalho.  Em Silveiras, entre outubro e dezembro, época de provável revoada, a formiga é atrativo turístico que pode ser degustada no Restaurante do Ocílio (Tel. 12-3106-1103). Mas ali é possível comê-las também durante o ano todo ou receber em casa a farofa  via correio, já que há um estoque de içás congeladas para a longa entressafra.

A época em que elas aparecem varia, mas no sudeste é agora, com as primeiras chuvas entre primavera e verão, e a safra é efêmera. Em poucos minutos elas estarão sob a terra fundando nova colônia. Há quem só coma içás cruas direto da boca do formigueiro, antes da revoada de acasalamento – dizem que o sabor é diferente.  A sorte é que numa mesma região é possível desfrutar de duas ou três revoadas em dias diferentes. Então, você ainda pode ter a sorte.

Agora, dizer exatamente o dia e até o horário em que a revoada vai acontecer, isto é coisa para gente experiente. Há uma série de sinais favoráveis que indicam grande probabilidade.  Depois de muitos dias de estiagem, num belo dia quente caiu um grande chuva, de preferência com trovoadas. Se o dia seguinte for de sol e estiver meio abafado de calor úmido, está aí uma grande chance de ter revoada. Se estiver observando o formigueiro vai ver um agito anormal de formigas operárias e uma zoada como barulho de chuva.  E estas condições acontecem muitas vezes sem que percebamos, mesmo numa cidade como São Paulo, onde já presenciei  gordas formigas caindo do céu – depois da revoada, elas caem, perdem as asas e começam a escavar a entrada do novo formigueiro, desde que consigam escapar dos predadores, pássaros, aranhas e humanos, claro. 

Há poucos dias quando eu estava em Piracaia, interior de São Paulo, uma amiga percebeu umas formigonas cavoucando o chão e saindo de ré com grânulos de terra que iam amontoando em volta do buraco. Corremos para buscar vidros e varinhas e, uma a uma, fomos içando as içás e trancando nos recipientes, agradecendo a graça de estarmos ali naquele lugar e na hora certa.   No ano passado não tive a mesma sorte, pois a revoada aconteceu na minha ausência.  Mas dois anos atrás, quando fiz minha primeira grande coleta, fiquei tão extasiada que saí perguntando no outro dia para os moradores se tinham visto o fenômeno.  No começo diziam que sim, que viram, mas desconversavam, diziam que não comiam. Só quando eu contava que tinha fritado e comido é que abriam o jogo e confessavam a façanha ainda incrédulos da minha sinceridade.  Aos poucos, fui sabendo que muita gente na cidade comia a iguaria entre família e amigos, na intimidade dos lares. Com farinha, na farofa, na paçoca, com café ou cachaça.   Até que um morador expos a verdade: - Quer saber mesmo? Acho que de dez moradores nove comem içá por aqui! Imagino, por isto, que ali está só um exemplo de um hábito alimentar que une brasileiros de norte a sul mas que corre por uma via paralela e subterrânea como os túneis de um formigueiro.   

Claro, coletar içás com varetinhas, hashis ou pinças dá fortes indícios de atividade recém aprendida e ainda amadora, mas é eficiente e seguro quando não se tem prática.  Acalmar as bichinhas no freezer também é um jeito urbanoide de abate menos aflitivo do que quebrá-las ao meio antes de levá-las à boca ou à frigideira. Depois de mortas pelo frio, fica fácil de tirar as patas, mandíbulas e asas, se for o caso. Há quem coma só o abdome, que é o filé mignon do inseto,  mas tem quem aprecie as cabeças que conservam  um pouco daquele sabor cítrico das saúvas.  Como o resto do corpo é menor que o abdome,  é melhor tostá-los separadamente para não passar do ponto.  Já os abdomes, depois de tostados em óleo ou banha,  ganham um sabor atrativo, algo entre camarão, nata e torresmo, numa percepção muito particular.   

Quando estes insetos voltarem a fazer parte do cardápio de brasileiros orgulhosos da herança indígena,  poderemos criar uma infinidade de pratos com eles,  além das deliciosas e tradicionais farofas e paçocas. A contribuição que deixo aqui é a parceria com brotos de bambu também de safra curta e que despontam na mesma época das içás, com as primeiras águas. 


Broto de bambu com içás
40 içás, só o abdome
1 colher (sopa) de óleo de girassol orgânico
1 colher (sopa) de manteiga
3 colheres (sopa) de cebola finamente picada
1 pimenta dedo-de-moça sem sementes picada
1 (sopa) de suco de limão-cravo
1 colher (sopa) de mel de uruçu, jandaíra ou jataí
½ colher (chá) de sal
6 folhas de manjericão-cravo picadas finamente
300 g de broto de bambu cozido ou assado (sem não for amargo) e cortado de comprido

Coloque as içás numa frigideira pequena junto com o óleo e leve ao fogo. Vá tostando, sem parar de mexer, por cerca de 10 minutos ou até que estejam bem crocantes, crescidas e com listras aparentes.  Tire as içás da frigideira e reserve-as,  mantendo o óleo.  Na mesma frigideira com o restante do óleo, junte a manteiga e a cebola e deixe dourar. Desligue o fogo e junte o suco de limão, o mel, o sal e as folhas de manjericão.  Despeje sobre o bambu ainda quente e espalhe por cima as içás.  Se não tiver broto de bambu,  combine o molho com pedaços de palmito de pupunha assado inteiro.

Rende: 4 porções 

A mesma salada feita com outra parte do broto de bambu - as camadas
externas e tenras



15 comentários:

Fernanda Gonçalves disse...

Neide,
cresci correndo atrás das Içás, nesta época do ano, em Jacareí. No bairro onde minha família mora, é comum sentir o cheiro de xixi característico da torra, ao final das tardes. Eu não gosto de comer, mas adorava caçá-las e encontrar os formigueiros...
Minha falecida avó só brigava conosco no dia 2 de novembro, pois as revoadas deste dia eram chamadas de "içá dos mortos" - e não prestava para comer. Não sei se por coincidência, ou por força da sugestão, sempre achei que as formigas ficavam mais bobas neste dia, e era mais fácil pegá-las.
Um beijo, Fernanda.

Anônimo disse...

Neide, sempre trazendo um outro jeito de comer o alimento. Ficou linda a apresentação do prato, iça com bambu.
Minha mãe sempre contava da diversão que era comer iça. Ela descrevia a aventura de caçá-las e depois o prazer de saboreá-las fritinhas, sempre terminava a estória com um hummmm !!!!
Lendo e vendo seu artigo, sei hoje que é realmente prazeroso caçar iça, oportunidade única.
bjo ana

Uakari disse...

Há um mês teve revoada delas aqui em Campos do Jordão, e sendo eu um urbanóide paulistano novato no interior, nem de longe me passou a ideia de capturá-las para comer. Eram grandes e gordas e, não sei como, entravam na casa e andavam por todos os lados. Só quem se aproveitou foi o Napoleão, meu cachorro. Mesmo que tivesse sabido de que se tratavam, teria guardado no congelador e estariam lá até hoje, sem saber como (ou com nojo de) comê-las.

Juni disse...

Olá Neide, eu nunca vi uma revoada destas formigas, consequentemente, nunca as comi! Mas tenho muita vontade de experimentar.

Eduarda Couto disse...

Da maneira como você expôs o assunto me dá uma enorme vontade de participar dessa aventura e provar as formigas, o que seria impensável para mim sem ler seu texto! Parabéns mais uma vez.

Anônimo disse...

aqui no sul da bahia essas tanajuras começa cair a partir do mês de setembro até dezembro, elas sempre caem depois de dias chuvosos. pra saber se elas estão caindo eu costumo olhar ao redor do sol, pois elas refletem um pouco a luz do sol, costumam cair a partir das 14:00h.

Flavia Semenow disse...

Oi Neide!
Você conhece alguma fazenda que "cultiva" formigas?
To procurando material sobre esse assunto e não acho..
Um beijo e super obrigada!

Andrentv Silva disse...

Na onde eu posso esta comprando

Andrentv Silva disse...

Na onde eu posso esta comprando

fabio atman disse...

Boa noite a todos e venho caricidamente pedir ajuda de todos vcs que conhece aonde vcs encontram a formiga tanajura ou içá pois preciso a porção de um copo de 200 ml e torrar e fazer um remédio e tratamento a minha visão devido a toxoplasmose e sejas o custo e SEDEX em envio o valor e peço em nome de Deus ajuda !!! Gratidão eterna
Email fabioatman@hotmail.com
Moro em santa Catarina
Fone/whatssap 048 9973-4080

AMARO... disse...

Oi Neide meu nome e Amaro sou comedor de içá formiga,mais conhecida na minha terra como tanajura,a ultima vez que comi, foi em 2010,,quando fui de ferias para o nordeste...por favor qual o lugar mais proximo de São Paulo,,que eu poderia,,mim deliciar,com essas formigas mais gostosas, do mundo,..obrigado Neide pela atenção e parabems pelo blogger,,Olha que de tanajura eu entendo em..abrasos,,

Unknown disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
FLAVIA disse...

Olá estava lendo seu comentário e me chamou atenção pois tenho toxoplasmose tbm a minha se localiza nos olhos,mais nunca tinha ouvido falar que as tanajuras poderia ajuda,bom comelas somente acredito que n tem efeito pra mim pois desde pequena até hj com 30anos como as tanajuras todos os anos,vc teria uma receita e onde vc tem a toxoplasmose? obrigado.

FLAVIA disse...

Olá vi seu comentário vc teria uma receita pra esse tratamento pois tbm tenho toxoplasmose nos olhos e somente comelas acredito que n resolva pois como des de pequena já tem uma 25 anos que como todos os anos.obrigado

FLAVIA disse...

Olá vi seu comentário vc teria uma receita pra esse tratamento pois tbm tenho toxoplasmose nos olhos e somente comelas acredito que n resolva pois como des de pequena já tem uma 25 anos que como todos os anos.obrigado