quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Serra da Canastra. Casa dos produtores de queijo Zé Pão e Romilda


Há dois anos já falei um pouco sobre a rotina na casa desta família: http://come-se.blogspot.com.br/2012/01/na-casa-do-ze-pao-e-da-romilda.html

Mara Salles (chef do restaurante Tordesilhas) e eu fomos de novo nesta mesma época de começo de ano. Daquela vez caía água de derrubar pontes. Agora o tempo era seco de desacorçoar, de secar fontes, de enrolar as folhinhas do arroz plantado,  fazer pedras arderem sob nossos pés.

Em compensação, o céu estava muito azul e a água do córrego que passa a poucos metros da casa tinha água cristalina que continuava a arredondar as pedras do caminho.  Romilda e Zé Pão não mudam os ponteiros do relógio para o horário de verão, de modo que continuam a se levantar na hora das galinhas e das vacas. Ainda é escuro quando o casal começa as tarefas.  Romilda passa o café, põe fogo na lenha e já deixa o feijão ir cozinhando devagar. Acompanha o marido ao curral onde o trabalho começa iluminado por fraca luz acesa enquanto a claridade do dia  não chega. Invariavelmente Romilda toma um cafezinho em pé, acompanhado de um pão de queijo. No curral anda de lá pra cá com um banquinho de um só pé atado ao corpo para facilitar o agacha-e-levanta exigido na amarração dos pés das vacas, trabalho que se estende até a hora do almoço, quando terminam a ordenha de quase 50 vacas.  No meio da jornada, o trabalho é interrompido para o lanche. Romilda leva para Zé Pão bolo, pão de queijo e uma caneca de alumínio bem areada com café doce. No curral, Zé Pão completa a caneca com leite direto da vaca, que faz espuma densa que nunca vi em cafeteria alguma. Ele se senta em cócoras amparado pelo pé solteiro do banquinho que também carrega atado ao corpo, molha seu pão de queijo com um pouco de leite e come sem pressa. De volta ao trabalho, para sempre que necessário para levar o balde cheio de leite até a casinha de queijo.

Na hora do almoço, é coisa rápida. Um arroz sempre fresco, o feijão cozido lentamente, um refogado de verdura ou abobrinha, jiló, quiabo, o que tiver na horta. O tempero está bem ali, é só puxar uma cabeça de alho da trança que repousa sobre o fogão de lenha com toque defumado. Uma manteiga de porco, nome da banha, e quem sabe uma cebolinha.  Não é sempre que tem tomate nem pimentão, nem cebola. Colorau nunca usam.Pimenta-do-reino, talvez.  E tudo fica tão bom.

João Vitor, o menino, continua a não gostar muito do trabalho com o queijo. Quer ser outra coisa, mas não sabe bem o que. Gosta de fotografar, reconhece a flora e a fauna de Canastra, foi um ótimo guia, sempre doce, atencioso.  Incentivei-o a começar a fazer mudinhas de espécies nativas. São tantas flores raras, frutos pouco conhecidos, plantas medicinais e aromáticas. Ele fica um pouco entediado como qualquer menino de sua idade de passar os dias de férias ali sem comunicação, longe dos amigos e da cidade. Aliás, quem tiver um lap top sem uso ou um i-phone ultrapassado e quiser fazer uma boa ação, posso intermediar a doação (nenhum outro celular dava sinal ali, mas meu i-phone pegava e ele poderia usar internet, ler coisas interessantes, pesquisar).

Depois do almoço é hora de ir pra casinha fazer um dos mais deliciosos queijos da Canastra (a produção toda é vendida para queijeiro, sinto muito). Na mesa da cozinha há sempre uma bandeja de alumínio com garrafa térmica de café adoçado no centro, frequentemente renovado, rodeada por copos de vidro. Um prato com queijo está sempre presente para os de casa e os que vão chegando, se abancando, esticando a prosa, alternando café e queijo.  Mas nada atrapalha a lida que vai até o entardecer, de domingo a domingo, trabalho sem fim. O dia ainda pode terminar com pães de queijo quentinhos, grandes e crocantes.

Recolhemos soro e pingo, fizemos experiências na cozinha, ajudamos no almoço, na pia, Mara fez barreado,  tomamos banho de cachoeira, fomos a pé pra casa do Zé Mário e nos lavamos no rio cuja água parece igual, mas nunca é a mesma.  Dois anos se passaram e a vida ali parece seguir a mesma toadinha, dia após dia. Só parece.


Amora verde, com gosto de uva 

Driblando a pouca luz pra ver o barreado feito pela Mara

Depois de um dia de cozimento lento na lenha. Com temperos da Canastra

Erva doce, comum nas hortas

Secador de louça engenhoso

Arroz, feijão, frango caipira, mandioca, refogado de legumes, bucho
de porco recheado

Um pouco do que tem na horta: chuchu, abobrinha, quiabo

Mandioca não falta


Alho em cima do fogão de lenha. Defumando devagar

Capricho

Apesar do pouco tempo para o trabalho doméstico, Romilda deixa sua
cozinha sempre assim, arrumadinha

Planta minúscula do tamanho de minha mão. Há centenas assim

João Vitor

Mara anotando a receita do pão de queijo

Mara guardando o soro do queijo canastra

Bolos de fubás


Romilda troca de botas para voltar ao curral com o lanche do Zé Pão


O dia amanhecendo e o coador já foi usado e lavado 

Antes de ir pra lida

João Vitor:  hidromassagem no córrego


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Entre comida e fauna. Serra da Canastra

Cansei de falar de comida. A coisa tá ficando chata, glamourosa demais, conceitual além da conta, marqueteira a não mais poder e desmesuradamente cara. De hoje em diante vou falar de pássaros e bichos soltos e vivos.

É lógico, tudo isto é mentira, afinal um outro mundo é possível e eu não vou fugir da minha paixão.  E é deste outro mundo alimentar que vou continuar falando. Da comida de que gosto, da comida que as pessoas comem em suas casas ou nos restaurantes de verdade, da comida gostosa que alimenta todas as fomes, desejos e sentidos. Vou falar da comida da Serra da Canastra amanhã, mas por hoje fique com a enrolação das fotos dos bichos de lá.

Se você vai pra Serra esperando silêncio, esqueça. Desde os primeiros raios de sol, é um imenso barulhinho bom de maritacas e curicacas, canarinhos, graveteiros e marias-pretas, siriemas e tucanos ao longe. Ao redor da casa, galos e galinhas ciscando, cachorros quase quietos sob ou sobre bancos, cobras em barrancos e, claro, bezerros apartados berrantes que colocam a gente cedinho de pé pra ir ao curral segurando nas mãos uma canequinha de café sobre a qual se espirra o leite espumoso e quente direto da fonte.















Fubá, cachorrinho do Zé Mário aprendendo a descer do banco

Fubá, do Zé Mário e João Vitor, filho do Zé Pão e Romilda



   

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

A multidão éramos nós

Chega uma hora que é a de voltar pra casa. Já estou naquele ponto em que não sei mais qual é meu melhor endereço. Se aqui em São Paulo ou no sítio em Piracaia. Fico triste de voltar, lá durmo tão bem. Depois re-acostumo. Também gosto daqui. 

Só sei que esta foi a primeira vez que passei tanto tempo no sítio. Foram dez dias com apenas uma saída para uma piracaia na pousada da Helenice. Fora as caminhadas por perto, a ida à cachoeira e à represa. Durante este tempo nos encontramos com alguns vizinhos e avistamos alguns poucos carros na estrada. O silêncio fazia com que o canto dos pássaros fosse ensurdecedor. Mas dormíamos com eles, de modo que acordávamos muito cedo, junto com o sol e totalmente repousados, restabelecidos. Ficávamos trabalhando na terra até o sol se por, ou melhor, desaparecer por completo deixando atrás de si um véu de escuridão, pois às vezes quando entrávamos em casa o relógio já marcava nove. Dormimos pouco mas compactamente, como deve ser. Sem distrações como televisão ou internet. Apenas música. Marcos é um DJ incansável e não deixa uma só atividade sem trilha sonora, desta vez com overdose de Vitor Ramil, Jeneci e Mosca, que não me desagradam nem um pouco. Acordamos com música de maritaca, tico-tico e o farfalhar atabalhoado do tucano. Depois de uns três bocejos estávamos inteiros para apreciar a manhã, tomar café olhando a represa, levar susto com gato pulando no nosso ombro e às vezes (uma só vez)  repousar com ele. Isto, sem querer dormir mais durante o dia e, o melhor indicativo de bom sono, sem olheiras.  Internet havia, mas nem cheguei a abrir o laptop ou o tablet. Via alguns emails no celular à noite e me programei para responder apenas às urgências - que, felizmente, não houve.  E assim, pudemos nos dedicar a plantar, colher, cozinhar e descansar a cachoça. Por isto, peço desculpas a falta de resposta nos comentários.  

Marcos e meu cunhado Darly construiram um viveiro com sombrite ganhado dos amigos Juliana e Flores, de Holambra. Inauguramos o espaço com 300 vasos - com mudas se apertando dentro deles (assim sendo, umas 500 mudas, penso eu, loucas pra irem pra terra).  Fora isto, fizemos replantios, podamos, mudamos plantas de lugar, multiplicamos espécies, lutamos com formigas, tiramos sapos do caminho, tiramos fotos de lagartas assustadoras, colocamos feijões pra secar ao sol e recolhemos ao escurecer, amarramos com arame o jirau do chuchu, conferimos o andamento da compostagem, guiamos as plantas trepadeiras, reparamos arames farpados etc. E os caseiros também. 

No Natal teve pernil que tinha sido encomendado no supermercado da cidade, o Goyos. E para o ano novo fizemos javali que foi caçado ali mesmo nas redondezas por um vizinho - o danado vinha comendo toda a roça do homem que conseguiu caçar, abater e dividir com a vizinhança. Comemos com cuscuz que os amigos Carol e Rodrigo levaram. Na virada, nada de fogos de artifício. Para não dizer que passamos na obscuridade e isolamento, iluminamos o momento com o velho e bom bombril incendiado e amarrado a um arame que, girado com força, produz faíscas lindas. E também fizemos fogo de verdade com tochas de folhas secas de araucária, como homens da caverna querendo fazer parte do barulhento e iluminado reveillon que víamos e ouvíamos do outro lado da água.  No fundo, não queríamos, não. 

De resto, o milharal já tem milho pra comer refogado. Eu havia esquecido como é bom o milho tirado da palha e cozido na hora. O cheiro da palha se mantém nos grãos e não tem nada que ver com o milho que a gente compra já pelado.  O pé de camapu (physalis), que ganhei da leitora Daniela, estava carregado e se beneficia do fato de ser ignorado pelas formigas. O mesmo se deu com os pés de acerola (também presentes da Daniela), que estavam apinhados de frutinhas verdes e vermelhas. Colhemos ainda alguns araçás vermelhos. E as goiabas estão por ficar prontas. As morangas estavam abóboras esparramadas pelo chão. O mandiocal está à toda, assim como as pimenteiras. O maracujá está lançando flores e frutos. Aliás, encontrei uma flor de maracujá branca no caminho da cachoeira. E nesta época há muitos moranguinhos silvestres na beira da estrada, onde também encontrei uma intrigante framboesa verde que, quando bem madura, continua verde amarelada e com sabor de uva.  

E é isto, a vida continua, o Come-se também. Não ainda, pois amanhã vou pra Serra da Canastra visitar Dete, Zé Mario, Zé Pão, Romilda.  Até a volta! E depois, seguimos a rotina. 

Fique com algumas fotos que devem valer pelo registro (em breve voltarei a ter uma câmara decente -  desde que deixei cair a máquina do bolso no vaso sanitário - prestes a ser usado -, tenho feito fotos com celular) 

Morangas maduras

Bolinho de chuva num dia de chuva, feito pela Ananda

Biju não comeu o ninho. Os feijões serão replantados

Quatro tipos de feijões secando. Mais dois serão colhidos

Araçás e acerolas

A Tapioca some, mas Biju está sempre com a gente

Mandiocal e couves

Os milhos colhidos

A multidão éramos nós

Vários deles estão sempre por perto. Lindos!

Camapus

Lulo. As folhas estão maior que meu antebraço

Biju pula na gente e dorme no ombro

Marcos terminando o viveiro

A flor de maracujá do mato



Lagarta que queima

Fogo que arde; Feliz Ano Novo!