quinta-feira, 21 de março de 2019

Forno Solar. Coluna do Paladar. Edição de 21 de março de 2019


Hoje tem coluna do Paladar do Estadão. Tanto no jornal impresso como no site do caderno.  E tem aqui também: 





FORNO SOLAR - Armadilha de calor
Nos últimos dias estive bastante empolgada experimentando um jeito diferente de cozinhar com um brinquedo que vai pela contramão das novidades robóticas na cozinha.  Trata-se de um rudimentar e revolucionário forno solar, que deve ser encarado com a seriedade que os novos tempos pedem, em nome da sustentabilidade e respeito às novas gerações. 

No começo, encarei mesmo como um divertido quebra-cabeça  – são apenas quatro quadrados de 40 centímetros de papelão encapados com folhas aluminizadas,  e dois menores para fazer a base,  que chegaram pelo correio tendo com remetente a empresa do Nicolau Francine chamada de Pleno Sol – plenosol.com.  Um saco plástico transparente e alguns prendedores de papel faziam parte do kit. O resto, um suporte metálico e uma panela preta com tampa, seria por minha conta. Foi mesmo instigante montar uma traquitana de aparência tão frágil com a promessa de que ela me entregaria em breve uma comida cozida e quente.

Não quis me demorar em planejamentos e fui logo colocando para aquecer em uma pequena panela de ferro - que era a única preta da cozinha em tamanho adequado -  algo que não tardaria a me dar resultado positivo ou negativo, a água.  Em pouco tempo ela ganhou temperatura suficiente para cozinhar batatas, mas tinha em mãos apenas tupinambos que foram pra panela e não demoraram meia hora para ficarem muito macios. Na empolgação, ainda coloquei alguns ovos na água quente e, claro, em poucos minutos estavam cozidos.  Logo descobri que não precisava adicionar água, pois os legumes e até os ovos cozinhariam num ambiente combinado de calor seco e vapor do próprio alimento.   Nos dias seguintes me revezei na torcida por chuva à tarde, por razões vegetais, e muito sol pela manhã para poder me aventurar nas receitas e me aperfeiçoar na técnica solar.  Cheguei a assar bolo de carimã e por pouco um pão não ficou totalmente assado antes de a chuva chegar.

É tão libertador poder usar uma energia limpa, inesgotável e de graça que comecei a levar muito a sério o novo brinquedo. Pesquisando, descobri muitos outros modelos inspiradores e já tratei de começar a desenhar um personalizado que ainda não saiu do papel.  Enquanto isso, fiquei animada em disseminar a prática para o maior número possível de pessoas e espero que você também resolva se aventurar.

Imagine você poder sair de manhã, deixar sua comida na panela e chegar em casa com um prato pronto quentinho te esperando para o almoço. É claro que não é um forno para substituir o fogão elétrico ou a gás, mas sim para ser usado como utensílio complementar, afinal estaremos sempre na dependência do sol.  De qualquer forma,  estamos em um país ensolarado na maior parte dos dias do ano e a economia de recursos é imensurável.
Embora fornos solares não costumem frequentar a mídia especializada em gastronomia, com a escassez iminente de combustíveis fósseis e recursos florestais em pauta, cada vez mais o tema vem atraindo jovens pesquisadores interessados na sustentabilidade das fontes energéticas renováveis. Há alguns anos, por exemplo, a Escola Politécnica da USP sediou um simpósio sobre o assunto e vários pratos foram feitos em diferentes modelos de fornos solares.  Ainda assim, os ativistas desta forma de cozinhar fazem trabalho de formiga mostrando os benefícios.

Pesquisas com captação da energia solar são antigas, mas o primeiro forno para fazer comida foi criado em 1767 pelo naturalista franco Horace Bénédict de Saussure, considerado hoje o pai do forno solar.  Ele observou que uma carruagem ou qualquer outro recinto com proteção de vidro esquentava mais que o comparativo sem vidro. Construiu então uma estufa com cinco caixas de vidros sobrepostas sobre uma mesa de tampo preto e conseguiu uma temperatura suficiente para cozinhar e assar a maioria dos alimentos. A partir da primeira experiência, aperfeiçoou o design para atingir temperaturas maiores e outros pesquisadores seguiram seus passos.  Em 1830, o matemático, botânico e astrólogo inglês, John Herschel, durante uma expedição para a África do Sul,  cozinhou em sua caixa quente feita de madeira enegrecida e vidro alimentos como carne e ovos. Seus relatos são um dos poucos existentes na época sobre os resultados da técnica e contam como cozinharam adequadamente e ficaram saborosas as comidas feitas na caixa, que incluíam carnes, ovos e até um ensopado muito elogiado pelos companheiros de viagem.

Já mais recentemente, no início da década de 1970, as americanas Bárbara Kerr e Sherry Cole projetaram um modelo de caixa feita de papelão. Em 1987, sob inspiração e iniciativa destas duas pesquisadoras, foi criada a organização a SCI - Solare Cookers International, que conta  hoje com uma plataforma on line comprometida com a pesquisa, divulgação e apoio a projetos ligados a promoção de fornos solares especialmente para população em estado de vulnerabilidade social, mas também para pessoas comprometidas com a causa ecológica – segundo a SCI, estima-se que um forno solar usado por uma família que normalmente usa lenha para cozinhar preserva mais de uma tonelada de madeira por ano.

O modelo CooKit desenvolvido por pesquisadores apoiados pela organização é feito de papelão, tem custo baixíssimo e pode ser feito em uma hora por qualquer pessoa – o molde deste modelo e centenas de páginas com informações sobre o assunto estão disponíveis na wiki abrigada pela organização: solarcooking.fandom.com/wiki/CooKit . Ele é um híbrido simplificado entre o forno de caixa e o parabólico e inspirador de vários modelos atuais de fornos de painéis espalhados mundo afora, inclusive do que ganhei da Pleno Sol. Aliás, Nicolau também ensina a fazer o modelo que tenho em sua página de instagram: @nicolauplenosol. E ainda vende outros tipos.

Atualmente os fogões solares são muito usados em países da África e em campos de refugiados mundo afora, tanto para cozinhar quanto para pasteurizar água.  Há vários projetos para incentivar o uso na Índia, China, Senegal, Afeganistão, Quênia e outros.  No Brasil seu uso ainda não é muito difundido, mas seria uma solução ao desmatamento no Semiárido, por exemplo, onde o sol é abundante e a vegetação para lenha, ainda muito usada para cozinhar, é escassa.  Sem contar a economia de tempo para a coleta de lenha, a diminuição de risco de incêndios e acidentes com crianças e o impacto positivo no efeito estufa eliminando fumaças de queima.

Para quem tem curiosidade de saber como funciona, é muito simples, os fornos são como armadilhas de calor. Os raios de sol batem nos painéis refletores e a luz reflete na panela no centro do forno em forma de calor. Por ser preta, ela retém este calor rapidamente cozinhando o que está dentro dela. A função do plástico transparente ou da cúpula de vidro que pode ser feita com duas tigelas acopladas é permitir que a luz do sol passe facilmente para a panela e impedir que o calor aprisionado faça o caminho de volta.

Em termos de resultado dos fornos solares, podemos compará-lo ao das panelas elétricas de cozimento lento ou crock pots, como são conhecidas.  O cozimento lento realça o sabor dos alimentos, já que vários compostos aromáticos são voláteis e se perdem sob altas temperaturas, o mesmo valendo para alguns nutrientes. Tem a vantagem adicional de dispensar o uso de óleos, manteigas e outras gorduras, pois a comida é cozida no vapor e não gruda. Não é preciso adicionar água em alimentos frescos e úmidos a menos que queira fazer um ensopado ou cozinhar grãos.  E não precisa ficar cuidando, pois o máximo de erro que pode acontecer é cozinhar demais. Queimar, jamais.

Finalmente, para quem já se convenceu de que vale a pena ao menos tentar cozinhar de forma limpa, algumas dicas: tente se programar para o almoço por volta das 9 horas, assim aproveitará a melhor potência e inclinação do sol, que vão até às 14 horas; use sempre panelas finas e pretas por fora e certifique-se de substituir por madeira qualquer puxador ou cabo não metálico que possam derreter - panela preta de ágata é uma boa opção; a panela deve estar sempre tampada para reter a umidade do alimento; se o dia estiver muito nublado e quiser arriscar o pouco sol, é bom que esteja por perto para transportar a panela para o fogão convencional se for necessário; o melhor céu para o uso do forno solar é aquele azul de brigadeiro; a temperatura atingida gira em torno de 120º graus nos fornos de painéis, suficiente para a maior parte dos alimentos, lembrando que a temperatura da água ou de alimentos que a contenha não passa de 100 graus mesmo no fogão convencional; se a tampa da panela receber bastante raios do sol e ficar bem quente ela servirá de fonte de calor suficiente para encurtar o tempo de cozimento e até dourar o alimento; o tempo de cozimento pode variar de acordo com o tipo de fogão solar escolhido - os parabólicos atingem temperaturas bem altas rapidamente, os de painel são mais lentos e os de caixa ficam no meio termo, com resultados parecidos com os de um forno convencional; use sempre um saco plástico transparente alimentício para reter o calor – é importante ter um apoio ou pedestal para elevar um pouco a panela de modo que ela não encoste no saco plástico.  Ah, por questão de segurança microbiológica, só cozinhe carnes se você for ficar em casa para ter certeza de que o sol está forte o suficiente para cozinhá-la em vez de amorná-la apenas, o que poderia favorecer o crescimento de microrganismos patogênicos.

E então, que tal aproveitarmos o patrimônio energético mais antigo do planeta para cozinharmos de maneira mais amigável?

Arroz com feijão fradinho e repolho

1 xícara de arroz branco
1 xícara de feijão fradinho pré-cozido ainda firme (cozinhe em fogo convencional ou um dia antes no forno solar)
¼ de repolho cortado em pedaços de 2 centímetros
2 tomates picados
2 colheres (sopa) de salsinha e cebolinha ou folhas inteiras de salsa-do-líbano
Meia cebola ralada
1 colher (chá) de sal ou a gosto
1 colher (sopa) de azeite
1 colher (chá) de cúrcuma em pó ou a gosto
1 colher (chá) de páprica defumada ou a gosto
1 xícara de água

Em dia de muito sol, entre 9 e 10 horas da manhã,  misture todos os ingredientes dentro de uma panela preta e tampe para que fique bem vedada. Separe um saco plástico transparente de uso para alimentos que suporte com folga a panela. Coloque um descanso de panela de metal dentro do saco para que a panela não grude no plástico. Coloque a panela, prenda o plástico (ou dispense o plástico se quiser usar uma cúpula de vidro) Depois de 1 hora e meia confira e veja se precisa de mais tempo para que o arroz absorva toda a água.
Passe o arroz para uma travessa, regue com azeite, polvilhe páprica defumada e espalhe por cima ervas frescas. Sirva com peixe frito.

Rende: 4 a 6 porções


3 comentários:

Rita Taraborelli disse...

Oi Neide, parabéns pelo post!!!!
Tenho um forno do Nicolau também e realmente é muito emocionante e divertido cozinhar no sol. Estive neste simpósio da USP com minhas experiências com granola solar e foi bem Interessante. Um dos organizadores do simpósio é o Celestino, um português muito gente fina que sabe fazer altas receitas no sol, faz um bolo com alfarroba muito bom, ele pesquisa o cozimento solar e as engenhocas solares na Universidade de Faro. Neste simpósio também tinha um cubano que compartilhou sua experiência com desidratação solar em fornos gigantes, tecnologia solar avançada... e um chileno muito figura que desenvolve fornos incríveis, ele mostrou um restaurante no deserto onde tudo é preparado no sol. A energia do sol é poderosa... e a possibilidade de cozinhar com sua luz é genial, ainda temos muito o que aprender.
Fico contente que alguém tão interessante e influente como você esteja divulgando o cozimento solar assim ;D
Muito bom. Abraços solares, Rita Taraborelli

Míriam I C S disse...

Fantástico isso Neide. Trabalho com energia solar há anos e sou louca pra fazer um desses. Gabriel Zei e eu fizemos um forno solar mas nunca conseguimos testar.
Bj Mirinha

engaztop2 disse...



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