terça-feira, 13 de maio de 2014

Pomar espontâneo


Antes de vir para o escritório passo sempre pelo jardim e me certifico se a estaca de flor de sabugueiro brotou, se a estufinha do manjericão está funcionando, se o limão transplantado não sentiu, se a semente de tagete germinou. São muitos assuntos pendentes e temas mutantes naquele pequeno pedaço de chão. E é isto que sempre me motiva a sair da cama. Um jardim nunca está igual. Por isto gosto de começar hortas e jardins de modo pouco prático. Seria mais fácil pensar num projeto, ir a um viveiro, trazer as mudas e plantar na terra preparada. Aí é só ir manejando, mas trabalho muito não há. Já feito assim, com sementes ou estacas, dá uma mão de obra terrível, mas o prazer de ver estas vidas se materializando (ou espiritualizando) e o espaço ganhando formas não tem preço.

Sementeira improvisada. Aqui ainda estavam pequenas as mudas 
O fato é que era pra ser só uma passadinha rápida pelo quintal, só mesmo pra conferir. Tanto trabalho eu tinha além do hobby. Mas resolvi tentar tirar o abacate que nascia na jardineira. Puxei, puxei, saiu. Puxei o outro. E depois a uvaia, o abacaxi, a pitanga e mais pitanga, e limão, mexerica, cereja do rio grande, nêspera, manga. Tive que encher vasos e replantar tudo. Já mostrei aqui como vou fazendo quando não tenho tempo de plantar as sementes. É um pomar cuspido (como diz Nina Horta) cujas sementes são arremessadas ali às vezes direto da boca, caso das mexericas e pitangas. Outras são depositadas displicentemente. Geralmente são sementes comuns, nada de raridade. Se brotam, bem. Se não, viram composto. E quando brotam não consigo desprezá-las.

Olhe o tamanho dos abacateiros
Depois de trinta e poucos vasos plantados, ainda sobraram 14 mirtáceas diversas de pequenos tamanhos, que estão esperando num pote d´água os vasos e a terra definitivos.  Poderia ter parado aí, mas me animei com um tantinho de cúrcuma para colher. E um pouco de araruta, de gengibre. E mato para arrancar, mudas para separar, estacas para plantar. Depois de 6 horas de cava, agacha, levanta, quando estava pronta para começar a trabalhar de verdade, minha vizinha Ana me chamou pelo muro convidando para irmos buscar seixos que foram jogados perto do clube. Lá fomos nós com sacos e pás e trouxemos mais de 50 quilos na caçamba do carro. Na volta, que tal irmos molhar a hortinha? E fomos lá com um galão de 20 litros e outros menores, desta vez a pé. Fizemos mais uma viagem, pois, com esta seca que castiga, este tanto de água só serviu para evitar a morte dos poejos, hortelãs, couves e manjericões recém-plantados.

E assim tive hoje um dia de jardineira com mãos na terra e não na massa.


4 comentários:

silvia lopes disse...

Sei bem o que é isso, a gente começa o dia com uma programação vai fazendo outras coisas e no final acha que não trabalhou "de verdade" só porque saímos do programado. E daí?!...dia produtivo e feliz!

aguiar disse...

Neide isso tudo é um bálsamo na vida de quem gosta de plantas e acima de tudo de plantar! Fantástico!
Tenho dois vasos com plantas aqui no apto, e vivo jogando sementes em volta e todo dia vou olhar o que brotou.E esta semana fiquei feliz com a germinação das sementes de páprica.
Adorei seu post, fiquei viajando nas suas palavras.
Obrigada .Bjs

lili disse...

Esse blog deveria mudar o nome para VIDA. Que delícia começar o dia assim.

Camila Oriente Batalhone disse...

Que delícia! Adoro isso! Também sou assim: faço a ronda diária nas plantas e quando vejo estou arrancando de cá, plantando de cá, semeando aqui, fazendo bagunça ali, e já se vai o dia todo. Também gosto de todo o trabalho que o jardim dá, pois como você disse, ele nunca é igual, cada dia tem uma surpresa nova... é uma flor que abriu, uma semente que germinou, uma estava que pegou, um broto que nasceu... ;)