sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Expedição Pitadas em Goiás: Restaurante Popular


Se quiser, veja antes: 
http://come-se.blogspot.com.br/2013/07/mala-cheia-de-goiania.html

Logo no primeiro dia de expedição fomos apresentadas a todo jeito de comer goiano concentrado num só lugar. Fazia tempo que não vivia uma coisa assim - o prazer de ter tanta comida boa junta. 

Se você é goiano e não conhece o restaurante Popular, corra lá. E quem é de fora, corra mais rápido ainda, que é um  jeito intensivo de absorver Goiás sem sair do lugar, com a cabeça voando pra nossos rincões rurais instalados no imaginário gustativo.  É uma grande casa de vó, uma oficina de sabores,  com mesas entre os fogões, gente cortando abacaxi num canto da mesa, alguns pratos sendo juntados no outro canto,  enquanto batatas fininhas vão saindo crocantes da gordura quente a todo momento e tachos de compotas apuram a calda às vistas de quem come. 

Dona Maria de Lourdes Salomão, a proprietária, cuida de tudo com esmero.  Toda bem arrumada, com vestido impecável, acompanha de perto cada detalhe da casa de 35 anos. Na cozinha com panelões de alumínio grosso brilhando sobre fogões industriais  (como goianos gostam de panela de alumínio tinindo de brilho - eu também), os funcionários são todos alegres, trabalham sem atropelos e parecem ter Dona Lourdes como uma querida. O garçom contratado mais recentemente tem 4 anos de emprego e diz que aquilo pra ele é uma grande família, uma grande escola, que dona Lourdes ajuda todo mundo, que é uma verdadeira mãe para todos. Já viram isto num restaurante de 300 lugares que serve até mil refeições por dia? E tem o gentil  (e eficiente) Jones,  que atende a todo mundo treinando alegre seu inglês.  

O nome popular é porque fica no Centro ou Bairro Popular, mas também porque tem este jeitão simples do comer bagunçado, familiar, tudo junto, direto da panela ou em travessinhas, de uma lindeza tão brasileira nas cores dos legumes cozidos no ponto certo, no brilho das carnes ainda quentes e na variedade de texturas e formas - a panelada de frango tem pés e pescoços, e por que não? 

É como naqueles grandes almoços de família em que a gente come sem vergonha de chupar ossos, em que estica as mesas com tábuas e cavaletes ou cria ambientes extras nos puxadinhos para acomodar tios-avós e crianças. 

Assim é o restaurante Popular.  Quem quer, pode pegar direto da panela, mas também há opção pelo modo tradicional que está se perdendo em Goiás, que é o "comercial". Nada a ver com o nosso comercial que consiste geralmente em arroz,  feijão, carne, salada e batata frita. O comercial goiano deveria se chamar "banquete goiano" pois me fez lembrar o banquete chinês em que vários tipos de comida gostosa chegam à mesa todos juntos, dispostos em travessas. Quiabo, jiló, abobrinha, linguiça, omelete, ovos fritos, guariroba,  batatas fritas, frango caipira, carne de porco, milho refogado, feijão,  creme de milho, pamonha frita, disco, bolinho de arroz, galinhada, arroz de pequi etc. Mesmo não tendo optado por este sistema e mesmo já estando com prato cheio, não parava de chegar à mesa outras gostosuras: batatas chips (feitas ali), linguiça com cebola, fresquinha, omelete com queijo divino de bom, abacaxi cortado e devo estar esquecendo algo. O suco, você pede em jarras: tamarindo e laranjada foram o que experimentamos. Laranjada não é coisa familiar, que mãe faz pra render a fruta? Nunca tinha visto laranjada (laranja+água e açúcar) em restaurante e estava deliciosa.  A sobremesa completa o banquete. Vários doces, de leite, de goiaba, de banana, ambrosia,  pudins, queijos e compotas de fruta a escolher. 




Antes de irmos embora, demos uma circulada pelo restaurante. Num puxadinho ao lado da cozinha grande, funcionava uma outra cozinha de apoio, onde talhava no fogo a ambrosia com 50 litros de leite e repousava a rabada do dia seguinte, já limpa de gorduras, separada por tamanho e bem temperada - tudo embalado caprichosamente. Uma mesa-jirau servia de apoio para secar as panelas ao sol no quintal, onde funcionários descascavam cenouras e outros descansavam do almoço.  E, como na casa da gente, o pouquinho de quiabo que restou na panela recebeu um ovo por cima, a abobrinha virou virado e tudo isto ali, na frente do cliente, jeito nosso às claras. A receita de cada prato, se pedir, as cozinheiras entregam tudo com paciência e sorriso na cara. 

Tudo isto a preço popular, claro. Só não ornou a gôndola de inox para saladas... 

Restaurante Popular: Rua 72, 524. Centro de Goiânia. Tel. 3224-6150 

Veja algumas fotos: 
Pela fachada, a gente não dá nada 
Feijão tropeiro (ou virado?)

Frango caipira, com pé e tudo a que temos direito

Gueroba 

Jiló

Linguiça caseira acebolada

Milho refogado 
Abobrinha
Galinhada com pequi
Carne de boi
Bolinho de arroz
Carne de porco
Disco (bolinho de carne moída empanado e frito)
Quiabo
Pimentas a escolher
Doces de frutas - ah, esta goiabada! 
Panelas ariadas, prontas pra começar de novo

9 comentários:

Maria Paula Rodrigues disse...

Come-se bem demais em Goiás. Saudades. E meus agradecimentos a você, Neide, pelo blog maravilhoso e indispensável!

Anônimo disse...

Neide dei boas risadas, viajei com voçê pois vai muito tempo que não vou a Goias acho que uns 20 anos a mesa jirau foi boa não sabia que voçê conhecia tanta coisa,e até hoje seco minhas panelas no sol, Neide ninguém te deu a moça de engenho ou sera que não fazem mais? da próxima viagem suba um pouco mais indo para o norte que vai encontra muitas coisas boas e diferente da do sul.

Ana disse...

Recuperei a parte da Expedição que não participei. Deve ter sido divina a ida de vocês no restaurante. Acredita que eu não o conheço?

Anônimo disse...

Restaurante popular! <3

Sou de São Paulo, mas mudei para Goiânia no início do ano (namorido é da terra). Um dia, para eu conhecer a comida daqui, meus sogros nos levaram a esse restaurante - gente, que delícia! Nunca vi nada igual em São Paulo, tão despretensioso e com tanta comida boa (sem aqueles preços abusivos)!

Meu sogro optou pelo comercial - eu ficava embasbacada com a quantidade absurda de comida que apareceu na mesa (chegou uma hora em que eu só ria quando aparecia mais uma travessa); estávamos em 6 pessoas, mas 15 comeriam tranquilamente e sairiam rolando, tamanha a fartura.

Gostei tanto que, poucos dias depois, quando uma grande amiga veio me visitar nessa terra quente, nem dei tempo de a coitada descansar e fomos do aeroporto direto para lá. Sempre que vou ao restaurante, ensino alguma palavra nova para o Jones (já fui professora de inglês e nunca vi aluno tão animado em aprender quanto ele).

E fiquei tão, mas tão feliz em descobrir que o Pitadas será no Bosque dos Buritis! Lá é meu atual local de trabalho - adoro aquele lugar!

-Bárbara (leitora do blog desde que morava em SP, mas comentando pela primeira vez só agora)

Anônimo disse...

Neide, que delícia de lugar, que fartura. Fiquei com muita vontade de conhecer e almoçar por lá. Acho que sairia dali rolando depois de comer tanta variedade rsrsrs. Texto maravilhoso, a gente viaja junto ... Beijos, Liliana.

Neide Rigo disse...

Maria Paula, é verdade. Comi muitíssimo bem. Obrigada você!

Anônimo, minha família era da roça, não tenho como não conhecer girau. Na feira tinha moça de engenho pra vender, mas não comi nem comprei. Deixei pra próxima.

Ana, não, eu não acredito rsss. Vá correndo.

Bárbara, que delícia trabalhar naquele lugar maravilhoso. Sortuda, você. Espero que te conhecer no festival.

Liliana, não deixe de ir se tiver oportunidade.

Um abraço,n


Anônimo disse...

Neide.
Não conheço Goiás, mas certamente entrou para minha lista de lugares a visitar. Amei viajar contigo pela imensidão de comida! Nedi

Lúcia Guerra disse...

Gente que delícia...deu água na boca Neide! Lembrei-me da simples refeição q fizemos em um restaurante lá em Acrelândia-AC, tinha essa característica: diversidade e sabor em "tigelinhas". Te envio a foto p/ relembrar.

Anônimo disse...

NEIDE

Trabalho um banco em São Paulo e viajo o Brasil inteiro a serviço,mas quando conheci o restaurante da dona Lurdes é tudo isso mais alguma coisa ainda pois lá realmente nunca vi ,olha que conheço muitos restaurantes e cardapios mas lá o ser Humano não sai sem soltar a cinta pois ultrapassa a culinaria mineira , ali é uma mistura de Goiana , com mineira e deu naquilo tudo o carisma e simpatia que a Dona Kurdes acolhe todos com seu cajado e sempre bem vestida e cabelos hiper arrumados e sempre atenta ao gosto de todos sinceramente tiro o chapeu a essa criatura e ao mesmo tempo indico a todos que estão lendo esse meu testemunho que se passarem um dia por goiania não deixem de conhecer esse restaurante e se sentir na casa da fazenda ou na casa dos nossos avós com os mesões cheios , m,uitas das vezes sentei juntos com pessoas que nunca a vi e me senti em minha propria casa . parabéns a Dona Lurdes e a Voce Neide de ter esse Blogger falando de coisas boas