quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Coluna do Paladar. Edição de 05 de setembro de 2013. Capuchinha

Hoje é dia da minha coluna Nhac no Paladar: http://blogs.estadao.com.br/paladar/da-ate-pena-de-comer/ . E reproduzo aqui também, afinal minha jardineira está inchada de tanta capuchinha.

CAPUCHINHA
Colher o próprio alimento é o sonho de muitos de nós, nem sempre ao alcance de todos. No caso da capuchinha, uma jardineira é o bastante para enfeitar sua janela e prover suas vontades. Se plantar hoje, terá tempo de colher flores na primavera e, antes disso, usar as folhas.

A Tropaeolum majus,  originária do Peru e Bolívia, pode ser encontrada  em estado silvestre do México até a Argentina.  É tão rústica e adaptável que hoje é cultivada em todo o mundo como alimento ou planta ornamental pela beleza das flores.
No sabor, flores, folhas, botões e frutos  lembram o agrião, mas as plantas pertencem a famílias bem diferentes.  Em comum,  têm o sabor picante, que às vezes chega a arder o nariz, dado pela presença do glucosídeo glucotropeolina -  por ação da enzima mirosina,  ele se transforma em benzil-isotiocianato. O mesmo acontece com as sementes de mostarda e com a raiz forte no ato do corte, mordida ou  maceração.  

Se o sabor picante das folhas desperta interesse gastronômico, a beleza das flores com tons que variam do amarelo claro ao vermelho rubi  tem apelo maior como decoração,  e isto não é novidade. O que parece ser moda recente é o uso das folhas como enfeites de sobremesas.  Antes que estes usos se tornem exaustivos,  poderíamos começar a usar a planta de outras formas. As folhas cozidas em água fervente por cerca de dois minutos podem ser usadas em massas, pães,  recheios, suflês, cremes ou pestos. As maiores podem embalar filés de peixes, ser empanadas em massa de tempurá e fritas.

Já no caso das flores, o uso como acessório é óbvio, afinal elas têm talento para embelezar. Mas, se há flores sobrando, por que não usá-las também como uma verdura ou tempero picante?  Se socá-las no pilão e misturar com manteiga em ponto de pomada, poderá gelar e depois usar em fatias sobre peixe assado ou frango, como um delicioso adorno. 

Assim como as folhas, as flores despetaladas podem ser  ser prensadas entre duas camadas de massa de macarrão para formar um lindo vitral comestível. Depois, cortados aleatoriamente, os maltagliati podem ser cozidos em caldo ou servidos com manteiga.  Inteiras ou despetaladas, elas podem ser usadas ainda em risotos ou ao final do cozimento de pizzas e massas, dando um colorido inusitado.  E, infundindo as flores vermelhas em vinagre branco quente, em poucos minutos terá um radiante vinagre.

Para terminar, não posso deixar de falar das sementes – na verdade, frutos tipo aquênio -, que são ainda mais pungente e, em conserva, seguem o estilo das alcaparras. Basta aferventá-las em vinagre temperado com alho, sal, açúcar e louro e guardar. Depois, combine-as com queijo derretido, flores e folhas de capuchinha, meta no meio de um pão e nhac.    






Spätzle de folhas de capuchinha com manteiga de flores

¼ de xícara de folhas cozidas de capuchinha (cerca de 10 unidades grandes)
1 ovo
Água
1 pitada de noz moscada
½ colher (chá) de sal ou a gosto
1 e ½ xícara de farinha de trigo aproximadamente
2 colheres (sopa) de manteiga
1 colher (sopa) de azeite
Pimenta-do-reino
½ xícara de folhas rasgadas e pétalas de capuchinha
Lascas de queijo

Lave bem as folhas de capuchinha e cozinhe em água fervente por 2 minutos ou até ficar bem macia. Escorra bem e espere esfriar. Coloque as folhas cozidas dentro de uma xícara padronizada (de 240 ml), amassando bem, e complete-a com um ovo e água. Bata tudo no liquidificador até ficar cremoso. Coloque numa tigela e junte a noz moscada e o sal. Misture bem e junte a farinha, mexendo sempre até resultar numa massa elástica densa – se precisar  junte mais. Bata bem e passe a massa pelo instrumento de fazer spätzle ou nhoque de pingar, deixando cair sobre água fervente. Se não tiver o instrumento, use uma tábua de carne - coloque a massa perto da borda da tábua, apoie-a na panela e, com as costas de uma faca molhada, vá empurrando para a água fitinhas de massa. Quando os pequenos nhoques subirem à superfície, retire-os com uma escumadeira e vá colocando numa travessa.
Coloque a manteiga e o azeite numa frigideira grande e leve ao fogo. Quando estiver bem quente e a manteiga, derretida, junte os nhoques e deixe fritar um pouco. Desligue o fogo, tempere com pimenta-do-reino triturada na hora e junte as flores de capuchinha. Chacoalhe a frigideira e distribua em três pratos. Espalhe por cima umas lascas de queijo meia cura e sirva.

Rende: 3 porções 


quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Amanhã tem tacacá na Tietê

Amanhã tem de novo tacacá na tietê,  no restaurante Tordesilhas,  como haverá de ser toda primeira quinta-feira do mês. Para quem não foi no primeiro, sinta aí nas fotos abaixo o clima de Belém em plena calçada dos Jardins.  Quem quis tomar na calçada, tomou. Quem quis entrar no restaurante e pedir uma cerveja e outros quitutes também o fez. Quem quis só entrar, sentar e tomar seu tacacá em paz foi bem recebido do mesmo jeito. Estudantes tiveram descontos. Já comi muito tacacá em Belém, mas este da Mara é o melhor. 
Tem tacacá na tietê no facebook. 





Comidas de Piracaia. De onde vem, pra onde vão

Abobrinhas colhidas, doces, doces
O tempo é muito curto em Piracaia. Este é o defeito de lá. Geralmente chegamos no sábado já na hora do almoço e voltamos no domingo no final da tarde. Não vejo a hora de poder ficar mais, mas por enquanto ainda temos que passar a semana em São Paulo. 

E o trânsito, o asfalto hostil e a poluição me fazem apetecer ainda mais este hiato no campo. Então, quando estamos lá, não paramos um minuto, aproveitando cada detalhe. Na chegada já nos costumamos a passar no supermercado Goyo, no bairro Batatuba, onde encontramos ótima carne e um ótimo açougueiro  - Seu João faz uma linguiça de porco deliciosa, só com temperos que a gente conhece o nome. Às vezes chego e ela está enchendo as tripas. Do porco destrinchado por ele, tira os dois joelhos, embala e coloca na gôndola. Comprei os dois desta vez. Diz que não se pode desperdiçar nada. As pontas disso e daquilo,  moi e rotula "carne pra cachorro". 

No caminho, antes de chegar ao nosso sitio, dei sorte de encontrar um pé de framboesa da montanha crescendo despercebido, cheio de frutinhas verdes. Na próxima ida, já devo encontrá-las maduras.  Quando chego ao sítio, antes de entrar em casa corro pra ver as novidades, do que nasceu, do que cresceu, madurou. Dentro, novidades sobre a mesa, abacates, bananas,  amoras, ovos de galinha e de pata. No freezer, galinha caipira e litros de leite. Todos trazidos do sítio dos nossos caseiros Silvana e Carlos. 

Minha irmã e meu cunhado almoçaram com a gente no sábado e foram embora no fim da tarde. Antes disso, tivemos visita da leitora Júlia com o marido Marcos, filho deles, filho dele e neta da dona Maria que estava junto. A casa ficou cheia e alegre.  Passamos momentos gostosos de conversa na varanda, comendo bolo de fubá - não tinha erva-doce, coloquei folhas de funcho, que deu a ele um aspecto divertido. Suzana, minha irmã, apelidou-o de bolo peludo, para graça das crianças.  Dona Maria ensinou a usar folhas de mamão para tirar manchas de roupa - e no dia seguinte, lá estava eu fazendo sabão e testando folha de mamão na toalha suja. Funciona.  E inventei de testar contra pulgões. Funciona também . Depois falo disto.

No domingo acordei cedinho e vi pássaros novos que devem estar migrando pra lá nesta temporada. E descobri feliz que no laguinho já tem peixes grandes (talvez trazidos por pássaros?) que não se pareciam com tilápias, bons logo logo para serem comidos.  Um deles tem uma pinta redonda na lateral igual a um tucunaré. Que tipo será?  

Fernando, o vizinho, chega com o filho menino, cada um montado no seu cavalo, pelo lado oposto ao portão, saindo da floresta de eucaliptos em ligeiro estardalhaço para grande susto da cachorra, sendo que nós já nos acostumamos. Senta um pouco, proseia, ganha alface, toma água, fala dos escambos e dois partem, pocotó pocotó.  O dia se vai indo também.

Ainda colhi todas as ervilhas doces que já começavam a secar (aquelas que ganhei da Marisa Ono, que se plantam no outono), admirei a horta com os repolhos agora com cara repolhuda, verdinhos, apetitosos; as folhas de cebola, grossas e fartas; os tomateiros  saudáveis que perfumam quando esbarro sem querer - logo teremos tomates. Outros frutos se anunciam com vigor - pitanga, pêssego, manga, araçá vermelho, araçá branco, goiaba. As amoras e as cabeludinhas estão quase prontas pra comer.  E com tantas alfaces de toda cor colhi carurus/ bredos para fazer com polenta. Para compor o prato, ainda colhi abobrinhas com flores. E uma única berinjela que viajou pra São Paulo e já foi pra panela com o joelho de porco. 

Para os gatinhos, deixei comida pronta - desta vez, fígado com quirera, aveia e folhas de alface de todo tipo e de repolho super picadas. Como a nata se acumulava, fiz também manteiga. Fiz a feira de fim de tarde e voltamos pra casa desviando do gado na estrada de chão empoeirada, ladeada pelo por do sol vermelhando o céu, nos despedindo da corujinha que pousa no toco, ultrapassando charretes em Piracaia, carros na rodovia e pronto, cá estamos.

Claro, trouxe trabalho pra casa  - debulhar as ervilhas colhidas, fazer geleia com as amoras colhidas pelo Carlos e Silvana, achar usos para a cesta de verduras etc.

E, pra quem quiser conhecer Piracaia, nos dias 13 e 14 haverá a Feira da Lua. A associação Piracaia Orgânica estará lá vendendo produtos dos associados e também dando uma palestra no dia 14. Apareça. Veja o convite aqui.  

Ovos de galinha e de pata

A primeira berinjela 

Cebolas e alhos

Ervilhas doces

A primeira pitanga

Alfaces vermelhas - tenho dó de arrancar 

Ingredientes do molho para as fatias de polenta ao forno

Meio quilo de manteiga pronta, a partir do leite que compro dos caseiros


Tomateiros

Polenta com bredo


Buquês de repolho - estas folhas externas são deliciosas

Inveja da Maria

Testes de extermínio de pulgões a partir de folhas de mamão

Bolo de fubá peludo - com folhas de erva-doce

Biju de tudo quer saber. Hum... acho que vou gostar 
As últimas flores de ipê da temporada

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Expedição Pitadas: visita ao produtor de baru em Pirenópolis

Baru

Se quiser saber mais sobre esta viagem a Goiás, leia de baixo pra cima as postagens anteriores: 

http://come-se.blogspot.com.br/2013/09/expedicao-pitadas-visita-produtores.html
http://come-se.blogspot.com.br/2013/08/expedicao-pitadas-banquete-na-cidade-de.html
http://come-se.blogspot.com.br/2013/08/expedicao-pitadas-restaurante-porto.html
http://come-se.blogspot.com.br/2013/07/mala-cheia-de-goiania.html

http://come-se.blogspot.com.br/2013/08/expedicao-pitadas-em-goias-restaurante.html
http://come-se.blogspot.com.br/2013/08/expedicao-pitadas-feira-do-ateneu-em.html


Já havia, com o Slow Food,  visitado a Fazenda Custódio dos Santos, do casal Seu Bié e Dona Albertina e dos filhos Elias, Edna e Daniela, em Pirenópólis (Aqui e acolá). Toda a família, que inclui nora e netos,  faz parte da Fortaleza do baru,  pertence à Associação de Desenvolvimento Comunitário de Caxambu e vive do que produz, algumas das quais vendidas sob a marca Promessa de Futuro, como geleias, baru e hibisco seco para chá. Coisa rara para uma família inteira, ainda mais com uma produção limpa, sem uso de insumos industriais, sejam adubos ou agrotóxicos.  

Dona Albertina nos esperou com um almoço à beira do fogão de lenha e se orgulhava de dizer que tudo era produzido ali. O arroz, o feijão, as verduras, o frango, o suco de hibisco. Comemos com gosto, acompanhado de pimenta local. Tudo muito fresco e com sabor delicioso.  

Elias é o mais falante e explica que conseguem produzir cerca de 11 variedade de feijões. Destas, fiquei feliz de saber, algumas nasceram de uns tipos diferentes que levei quando estive lá.  Elias é um daqueles apaixonados pela terra (como toda a família, mas é o mais eloquente) e fala com orgulho da dificuldade que já passaram e do que já conseguiram. Quando, desta vez,  disse que levaria mais sementes quando voltasse lá e perguntei se isto não o incomodava, se não estava arrumando mais trabalho pra ele, veio a resposta linda, que deixei anotada: "imagine, sementes? - quanto mais ainda é pouco". 

Em 2009 estive neste mesmo lugar e trocamos sementes. Deixei apenas
uns feijões diferentes pra plantarem, mas trouxe comigo muito mais.  





Quando alguém diz que baru é caro, pode imaginar o quão trabalhoso é obter aquela amêndoa tão delicada. É trabalho árduo e minucioso da família inteira quando é época (os frutos caem entre setembro e outubro) e não é todo ano que dá uma boa safra. Neste ano, por exemplo, não teremos muito baru. Quem não sabe o que é baru,  veja lá: o baru, sua castanha e sua polpa.  

Bem, veja aí alguma fotos. O contato com a família, para quem quiser conhecer os produtos,  está lá no site Cerratinga:  http://www.cerratinga.org.br/promessa-de-futuro/

banana

Baru

carambola


Hibisco

Mamão

Alho

Feijão azuki

Coentro do pasto (chicória do pará)

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Expedição Pitadas: visita a produtores assentados na cidade de Goiás

Se quiser saber mais sobre esta viagem a Goiás, leia de baixo pra cima as postagens anteriores: 


http://come-se.blogspot.com.br/2013/08/expedicao-pitadas-doces-goianos_29.html
http://come-se.blogspot.com.br/2013/08/expedicao-pitadas-banquete-na-cidade-de.html
http://come-se.blogspot.com.br/2013/08/expedicao-pitadas-restaurante-porto.html
http://come-se.blogspot.com.br/2013/07/mala-cheia-de-goiania.html

http://come-se.blogspot.com.br/2013/08/expedicao-pitadas-em-goias-restaurante.html
http://come-se.blogspot.com.br/2013/08/expedicao-pitadas-feira-do-ateneu-em.html

Na cidade de Goiás fomos visitar duas propriedades num assentamento, onde compramos verduras para o almoço do dia seguinte na casa de Caio Jardim. Depois de rodar alguns quilômetros entre o braquiarião poeirento, chegamos ao sítio da Divina, assentada da reforma agrária há 13 anos, com uma produção impecável de hortaliças e frutas, cultivadas sem uso de insumos agrícolas industriais. Seguem algumas fotos.

A horta limpinha - em todos os sentidos

Mostarda roxa 

Um pouco mais à frente, visitamos outro sítio, da Maria da Glória de Moraes, que é assentada há 8 anos e vive ali com os filhos.  Ela tinha um marido que, segundo ela, atrasava sua vida, não gostava da terra, um companheiro que não acompanhava, enfim, um homem que empatava. Passou o diabo com ele. Depois de mandá-lo às favas, desabrochou, toma conta do próprio nariz, tem uma horta linda e é feliz por ter uma terrinha onde possa plantar. Ela pediu tanto que conseguiu. Disse que não importava o quanto nem tanto, o que queria era um pedaço de terra pra plantar e agradece por isto todos os dias.

Um feijão apurava no fogão de lenha enquanto ela dizia que tem o sonho de ter um restaurante rural ali. Demos, claro, a maior força. E a julgar pelo alumínio reluzente da velha cristaleira exposta na varanda como uma obra de arte, dá pra acreditar que capricho ali não falta. E a competência na cozinha estava bem ali na nossa frente, no caldeirão de feijão cheiroso.

Fotos do sítio da Maria:

Colhe e passa por água fresca, verduras fresquinhas

Haja muque 1

Haja muque 2 - beber água nestes copos ... 


Chuchus

O feijão, dá pra imaginar

Ela ainda encontra tempo para ser guardiã da igreja histórica

Pediu pra tirar foto sem boné. Trabalha duro, sem perder a doçura

Jogo americano na casa do Caio, que dedico à Maria