sexta-feira, 20 de julho de 2012

Pão do zero, com fermento natural (levain)


Durante o 6º Paladar - Cozinha do Brasil, fiz o que pude para ver o máximo de aulas possível. Para isto, às vezes entrava, via um pouco e saía. Por uma feliz coincidência, estava já saindo da sala do Rogério Shimura,  onde acontecia  um bate-papo com alguns padeiros de prestígio, quando alguém perguntou para o Vittorio Lorenti, da Basilicata (padaria tradicional do bairro do Bixiga) se o levain que eles usavam era muito antigo ou quantos anos tinha. Não me lembro a pergunta exata, mas a resposta foi para mim a maior preciosidade daquela aula, que incluía também receitas de pão. 

O que ele respondeu me fez lembrar a mesma situação que vivi com Michel, padeiro francês que me acompanhou no trabalho do Senegal. Ele me olhou estranho quando lhe perguntei quantos anos tinha o seu levain. E respondeu que por acaso era antigo mais et alors?,  que importância isto tinha?  Nenhuma, nenhuma, perguntei por  perguntar, já desconfiando há algum tempo, com experiências em fermentos de Cristo e levains jovens e tradicionais,  que isto era realmente um mito, que depois de um tempo a levedura inicial, tenha vindo do figo ou das passas, acabava se diluindo e se transformando com os acréscimos frequentes de novo alimento à base de farinha e água. Os fermentos de pão ficam mais ou menos parecidos depois de levedados, desde, é claro, que reformados com frequência e que não estejam muito ácidos.   Então Vittorio Lorenti fez a mesma cara de et alors? do Michel e disse que se o fermento morre ou se perde, e isto já aconteceu várias vezes na Basilicata, é só começar um novo e ainda assim os pães italianos de lá continuam com o mesmo miolo de 98 anos atrás.

Michel, durante uma de nossas mudanças de cidade no Senegal, perdeu o levain que havia levado de Lourdes, de sua padaria artesanal, mas não perdeu a calma. Sem ficar desesperado, foi à cozinha do hotel, pediu uma bacia, água e farinha, fez uma mistura, cobriu com pano e, pronto, estava resolvido. Como o tempo era quente, em dois dias, tempo que tínhamos até a próxima atividade,  ele já havia construído um novo fermento para as oficinas. E os pães continuaram saindo maravilhosos. 

Vittorio Lorenti foi além e ensinou um jeito seguro de começar uma nova cultura, sem o risco de contaminações com outros microorganismos não desejáveis. Eu tenho um fermento antigo, presente da Mari Hirata em 2008, que já tinha nas mãos dela uns quinze anos e neste meio tempo e antes do fermento da Mari já comecei outros do zero, como já mostrei aqui. Mas gostei da forma ensinada por Vittorio  - na verdade, ele só falou rapidamente emendando o método na resposta, mas não foi difícil visualizar. Cheguei em casa e já fui fazendo uma bolinha e colocando na água. Comecei com 50 g de farinha e 30 ml de água, já que a farinha absorve 60% de água para formar uma massa modelável. Coloquei a bolinha numa jarra e cobri com água. No outro dia, joguei a água fora e juntei mais farinha à bolinha que estava  meio amolecida. Cobri de novo com água. Fiz isto durante três dias. No quarto, a bolinha se encheu de ar e subiu. Era o sinal claro de que havia ali gás carbônico da fermentação, mudando a densidade da massa. Lorenti não disse como prosseguir, mas continuei como sempre fiz com meus fermentos. Completei com mais água e mais farinha para ter uma massa densa com mais de meio quilo -  quantidade suficiente para fazer meu pão e sobrar para o próximo. E deixei fermentar por mais um dia antes de fazer minha própria receita que simplifiquei para 400, 40 e 20, para ninguém esquecer. 

Veja também como desidratar o seu fermento, caso tenha com ele algum apego sentimental (como tenho com o fermento da Mari)

Uma bolinha de farinha coberta por água
Depois de um dia, com a água escorrida 
No terceiro dia, a massa começa a se expandir
No quarto dia, a bolinha subiu

Junta-se mais água e mais farinha, cobre-se com filme plástico
Tem que deixar espaço para a massa crescer
No dia seguinte, ela estará aerada e volumosa
A massa, tudo misturado. O fermento que sobrou, guardei tampado
na geladeira por uma semana, até a próxima reforma e fornada
Os pães: um deles fiz como pão de forma e outros dois modelados



Pão integral 400, 40, 20, com levain 


Numa bacia coloque 400 g de levain (reformado no dia anterior, bem borbulhante), 400 g de farinha de trigo branca, 400 g de farinha de trigo integral (de preferência as duas orgânicas), 400 ml de água, 40 g de mel (1,5 colher de sopa), 40 g de manteiga ou azeite (4 colheres de sopa rasas) e 20 g de sal (1 colher de sopa). Misture tudo com uma colher e depois sove com as mãos, juntando mais farinha só se for preciso, até a massa ficar homogênea,  lisa, maleável. Toda esta etapa pode ser feita na máquina de pão, no modo "amassar", ciclo de 1h30 (neste caso, talvez precise abrir a tampa quando a massa estiver crescendo, lembrando que a massa não estará crescida em apenas uma hora e meia). Cubra a bacia com plástico e deixe em repouso no lugar mais quentinho da casa até a massa dobrar de volume (isto, em dias frios, pode levar até 10 horas - por isto, pode começar a fazer antes de dormir). Divida a massa em três e modele os pães. Coloque-os numa assadeira untada, cubra com plástico ou pano e deixe crescer novamente (quando apertar o pão e a massa voltar à posição inicial rapidamente, está bom - ou, se quiser, coloque uma bolinha num copo, quando ela subir, está na hora de colocar o pão no forno. Este mesmo método pode ser válido na primeira fermentação, caso não tenha muita experiência). Lembre-se que isto também pode ser demorado, algo como umas 3 horas, dependendo da temperatura ambiente.  Polvilhe farinha de trigo e corte com lâmina fina. Se quiser, umedeça a superfície e espalhe flocos de trigo ou centeio, ou gergelim ou linhaça. Leve ao forno pré-aquecido bem quente, por 10 minutos. Abaixe a temperatura para o mínimo (nos fogões domésticos deve ser mais ou menos 180 graus) e deixe assar por mais 50 minutos ou até dourar. 

E nhac! 

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Palitos de mandioca. Ou quinta sem trigo 52

Na semana passada vieram aqui a chef Teresa Corção, do restaurante Navegador, e a escritora americana Sara B. Franklin, que estão escrevendo um livro sobre a mandioca.  A Teresa é minha amiga e uma das pessoas mais devotas à promoção da mandioca (ela é também do Slow Food Rio de Janeiro e presidente do Instituto Maniva).  Bem, as autoras me pediram uma receita  com mandioca para o livro e fiz duas para que escolhessem tomando chá. O bolo de mandioca com abóbora, de que gosto muito, e os grissini, com pedido de perdão a piemonteses caso se ofendam por tê-los feito com mandioca e não trigo. E que não sejam grissini, ninguém pode dizer que não são palitos. Elas ficaram com as duas. Já havia feito estes palitos com cará e foi quando nasceu a receita que pode sofrer inúmeras variações. O bom de fazê-los com mandioca é que reforçamos sua presença, somando a raiz com seu amido. E os palitos ficam crocantes mesmo quando guardados. Marcos e eu devoramos no dia seguinte. 





Palitos de mandioca 
500 g de polvilho doce
500 g de mandioca cozida e espremida no espremedor de batatas 
1/2 xícara de leite
1/2 xícara de manteiga
1,5 colher (sopa) de açúcar
2 colheres (chá) de sal
2 ovos pequenos
Manteiga para untar a assadeira
Para a cobertura: gergelim branco e/ou preto, flocos de pimenta seca, alecrim, orégano seco, flor de sal, endro,queijo parmesão ralado etc para finalizar
Coloque o polvilho numa tigela e por cima esprema a mandioca cozida ainda muito quente. Misture bem até formar um farofa úmida. Junte, então, o leite fervido junto com a manteiga, o açúcar e o sal. Mexa com uma colher até amornar (se estiver muito quente, a massa vai cozinhar os ovos e isto  não pode acontecer).  Aos poucos, vá juntando o ovos batidos juntos e mexendo com as mãos.  Deixe descansar a massa na geladeira por meia hora, que ficará mais fácil de manusear. Pré-aqueça o forno e unte algumas assadeiras pequenas com cerca de 20 centímetros de largura e bordas bem baixas (se usar um tapete de silicone, não precisa untar).  Tire pedaços da massa com cerca de 25 gramas e, numa superfície de trabalho bem seca, enrole formando palitos na espessura de 1 centímetro de diâmetro mais ou menos. Espalhe sobre a superfície de trabalho a cobertura desejada e enrole o palito sobre ela para grudar bem. Se preferir, pincele ovo batido sobre os palitos já nas assadeiras e espalhe sobre eles as coberturas. Leve ao forno pré-aquecido e deixe por cerca de 20 minutos ou até que fiquem dourados e bem secos. Sirva quente ou espere esfriar e embale em sacos plásticos que fechem hermeticamente.
Rende: cerca de 80 palitos 


Variação: quando a massa está mais firme - e, para isto, basta reduzir o ovo para apenas um -, faça bolinhas e achate-as numa prensa entre duas folhas de plástico, para fazer tortillas. Cozinhe-as em chapa bem quente dos dois lados até dourar. Sirva quente (depois de frias, perdem a graça, ficam um pouco elásticas demais). 

Com pasta de feijão temperado com cebola, coentro, cominho e limão, nhac! 

Oficina no Capão Redondo

Não podiam faltar: banana-da-terra e matinhos comestíveis que encontrei
no quintal da casa. E ainda carambolas, que alguém trouxe e serviram pra
decorar - queria tê-las feito grelhadas, mas fica pra próxima
A Ivana postou as fotos no Doidivana: http://doidivana.wordpress.com/2012/07/18/neide-rigo-no-cras-campo-limpo/

Ontem foi dia de oficina de culinária para representantes e funcionários de cozinha de várias organizações assistenciais da zona Sul que têm convênio com a prefeitura. Foram duas turmas, de manhã e de tarde, e estive à frente delas a convite do Cras (Centro de Referência de Assistência Social) de Campo Limpo, sob supervisão de Marly F Martins dos Santos, por  indicação de minha prima Ivana, que também trabalha lá e que acompanhou as duas atividades - tendo que ouvir os mesmos blablablás em duplicidade. A Flora, minha sobrinha que está hospedada aqui, foi promovida a ajudante imprescindível. 


O pão de abóbora foi irmanamente divido com as mãos

A aula foi muito parecida com a que dei em Acrelândia, também no Cras, com a diferença que lá as alunas eram as próprias atendidas pelo serviço e desta vez o espaço não era exatamente do Cras e sim do Sasf (Serviço de Assistência Social à Família 1) de Capão Redondo. Mas até o fogão trazido da copa  improvisadamente, as mesas com toalha de plástico e as cadeiras brancas eram  parecidas. O pão de abóbora e o quiabo também. Mostrei ainda o pastelzinho de banana,  pelo qual ando mais ou menos fissurada e o jiló recheado. Só a quantidade de alunos foi bem maior no dia de ontem. E, apesar de a aula ter ficado um pouco espremida, fiquei feliz de ver o empenho de muitos participantes no concurso de culinária com tema definido pelo Cras  "Um legume para fazer sobremesa ou Uma fruta para fazer um salgado". Havia farofa de melancia, doce de chuchu, compota de cenoura, pudim de beterraba, sanduíche com morangos e muitas outras invenções interessantes. Foi um dia bem gostoso e cansativo, mas depois de chegar em casa com as tralhas,  sem forças para preparar um jantar que não fosse um caldo aportuguesado mais rápido que miojo, estou preparada pra outra como uma alentejana de outrora. 


Mais rápido que um miojo, reconfortante: caldinho de coentro, alhos e ovo
escalfado sobre pão integral, à moda da açorda alentejana

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Wrapped & Stuffed

Posta de tainha em folha de sete-copas - aqui

Outro dia contei aqui que estivemos, Mara Salles, Ana Soares e eu, com Anissa Helou e que ela estava pesquisando sobre invólucros para sua apresentação no Oxford Symposium, cujo tema neste ano foi "wrapped & stuffed". Pois ontem ela mandou o link do vídeo da palestra e eu fiquei toda recheada de orgulho de ver nosso nome lá na apresentação dela. E embrulhada em vaidade com aquele monte de fotos de invólucros que já apareceram aqui no blog.  Por estas e por tantos outros exemplos ao redor do mundo, que ela mostra em fotos e filmes, vale a pena dar uma olhada. 
http://vimeo.com/45744088

terça-feira, 17 de julho de 2012

Canjiquinha branca ou amarela, solta pra sempre quirerinha

Outro dia ganhei da leitora Nilce uns mimos de sua terra, Espera Feliz, cidade do interior de Minas, próxima à Serra do Caparaó, já pertinho do Espírito Santo e Rio de Janeiro. Entre os presentes, uma canjiquinha branca, mais rara por aqui, para não dizer desconhecida. 


Antes que ela me dissesse qual é o jeito clássico de se preparar a iguaria em Espera Feliz, não quis esperar e preparei como costumo fazer com a amarela. 


Outros presentes que chegaram com a canjiquinha branca
Canjiquinha ou quirerinha é o milho branco ou amarelo, sem película, quebrado grosseiramente. Às vezes há muita disparidade entre o menor e o maior tamanho de grânulo e isto  pode dificultar o cozimento. Por isto é bom sempre passar por peneira antes de cozinhar.  Os grânulos mais finos podem ser usados como polenta. E os mais graúdos, como de costume. Costumo preparar canjiquinha mole, com frango, ensopada com carne de porco, ou em sopa com ovos ou legumes, mas gosto também de fazer como arroz, usando as mesmas medidas, uma parte de grãos  para duas de água, refogada antes com manteiga ou banha e alho amassado e temperada com sal e talvez um pouco de pimenta.  Fica gostosa e agradável de se comer quando recém tirada do fogo, ainda macia, cremosa, mas ao esfriar logo gelatiniza como um manjar, formando grandes grumos pouco convidativos para uma próxima refeição. 


Quando preciso reaquecer canjiquinha neste estado lastimável,  a peneira entra novamente em jogo. O que faço é passar a sobra ainda fria ou gelada pela peneira de malha grossa. E isto, além de necessário, às vezes é meu desejo e os grumos são premeditados. Assim, consigo grânulos macios e soltos que podem ser reaquecidos em panela de vapor e servidos sem urgência.  Eles continuarão soltinhos como cuscuz. 


Mas hoje não foi nada planejado. Eliana teve que ir embora, eu estava sem tempo preparando uma aula que vou dar amanhã e a sobrinha Flora estava estudando. Já que tinha que ir ao mercado, comprei uma lata de sardinha com molho de tomate (sim, depois de comer um peixe enlatado chinês, frito, seco-encharcado, que comprei na Liberdade com água na boca fisgada pelo rótulo, estou adorando nossas sardinhas enlatadas), aqueci e temperei com grãos de cominho moídos na hora e folhas de coentro,  peneirei e esquentei no vapor a canjiquinha branca e servi com abobrinha e abóbora madura que Eliana tinha deixado prontas - apenas refogadas em cebola e alho.  Com vidros embaçados, frio e chuva lá fora, um copo de Madiran que a Flora trouxe de Paris, molho Harissa que o amigo Pedro trouxe do Marrocos e muita fome de inverno, foram muitos nhacs ao redor do prato bem quente. 


Para a canjiquinha cozida ficar solta como sêmola no vapor: 


Cozida como arroz, quando quente ela estará assim, cremosa 
Depois de fria, é difícil desfazer os grumos

Então é só passar por peneira grossa,  forçando a passagem dos grumos
como uma espátula 

Restam grãos soltinhos que nunca mais se juntarão


E que podem ser reaquecidos no vapor. Se quiser, tempere com manteiga
E fica assim, a canjiquinha soltinha. Aqui, com folhas de brócolis -
coincidência com o prato lá em cima de alguns anos atrás

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Melancia podre. Come-se não, mas serve para alguma coisa

Outro dia comprei uma melancia destas pequenas e redondas. Estava firme, bonitona, íntegra. Mas quando abri tive que lidar com a liquefação da minha expectativa e da polpa, que virou água vermelha fétida. Quis ao menos aproveitar as sementes e preparei as poucas que haviam para que germinassem,  do mesmo jeito que fiz com sementes de melão, com sucesso, e que faço como grãos de feijão. Mas que nada, depois de dias mantidas úmidas, nenhum germe se meteu a botar o broto  pra fora.  Certamente era uma melancia híbrida da pior laia, forjada para parecer sempre bela ainda que pobre por dentro e  para lançar senão sementes inférteis ou suicidas. 




Sorte que quis também aproveitar a casca, afinal, caramba, não era justo perder uma melancia inteira, que eu tinha comprado em um supermercado longe de casa - voltar pra trocar estava fora de questão.  Alguma coisa eu tinha que aproveitar, já que pra comer a casca já também não servia. Então raspei bem toda a polpa amolecida das duas metades com colher, e isto foi moleza, e deixei secando ao sol por vários dias até que ficassem com consistência coriácea e deixassem de atrair drosófilas. De vez em quando mudava de posição, apoiava sobre tigelas enquanto estavam flexíveis, e assim foi até que ganhassem a aparência de vasos - biodegradáveis, o melhor de tudo. Aí foi só furar com haste de metal vermelha de quente, espalhar no fundo uns pedaços de telha quebrados para garantir boa drenagem, encher de boa terra e plantar sementes de abóbora. Neste final de semana levei para o sítio para replantar - foram enterradas juntas,  plantas e vasos, agora com um talho de faca no lugar dos furos.  O bom é que as plantinhas não sofrem com o replantio.  No entanto, vamos ver no que vão dar.  Aquele guaco no coco, enterrados juntos,  vai muito bem, obrigada.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Era uma vez de comer: uma caramboleira de Acrelândia


Quanto vale uma árvore que produz todos os anos frutos doces e suculentos que alimentam a família e os vizinhos, nutrem e divertem? Uma árvore destas portentosas que fazem sombra, atraem pássaros e sustentam balanços não tem preço. Mas pra algumas pessoas não vale nada. Só serve é pra fazer sujeirada na calçada. Só presta é pra atrair mosquitos e moleques quebrando a cerca. Sucos, estrelinhas, alegrias, companhias?  Que nada, melhor o isolamento e o suco de pozinho. Às vezes a gente passa pelos lugares e se apega às pessoas mas  também à paisagem. Quando estive em Acrelândia, uma das árvores que me chamou a atenção foi a caramboleira da dona Edna. Os frutos reluziam como lanternas douradas em meio à folhagem verde e por isto Lúcia Guerra, que me ajudava nas oficinas, e eu resolvemos pedir um pouco para as aulas e para o piquenique.  Pode pegar quanto quiserem que aqui ninguém come. Mas e as meninas não gostam do suco? Não, elas gostam de suco pronto de pozinho. Então tá. 

No primeiro dia pegamos frutos pela cerca e colhemos da calçada. No segundo, me atrevi com consentimento a subir na árvore enquanto Lúcia ia recolhendo as que eu jogava de cima. Enchemos a sacola com as mais lindas e pesadas. Nunca tinha visto carambolas tão lindas. No caminho, meninos pediram algumas e se deliciaram. Foi a fruta que salvou nosso piquenique na praça, já que quase ninguém levou nada (diferente daquele último na escola). Fizemos suco amarelinho e saboroso e levamos as frutas lavadas numa cesta. As crianças se fartaram, se alegraram ao descobrir que fatiadas viravam estrelas, e todos os adultos aproveitaram. 

Mas os amigos da USP que estão lá novamente me escreveram e mandaram foto: 

"Neide, o pé de carambola deu lugar a um novo muro aqui no cruzamento da r. Rio de Janeiro com a r. Antonio Boa... a moca não gostava mesmo da árvore que fez a nossa alegria com tanto suco :(
Beijos com saudades,
Babi, Pablo e Rubem"

Pois é, atrás deste muro havia uma caramboleira. Estas fotos, nunca mais. Pelo menos o jambeiro e o coqueiro ainda resistem. Até quando? 

Aqui jaz uma caramboleira. Foto: Bárbara Lourenço

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Bolinhos de arroz, feijão e banana-da-terra no vapor. Ou quinta sem trigo 51

Para a aula do Paladar - Cozinha do Brasil, passei a noite cozinhando no vapor estes bolinhos. O bom seria comê-los quentinhos e eu pretendia fazer um para cada aluno - eram quase duzentos. Também queria ter tido mais tempo para explicar melhor.  Mas a gente envelhece e continua tendo que aprender mais sobre limites, próprios e alheios. Aprender a se auto-editar é fundamental e eu não me canso de tentar. Mesmo com a amiga Lili aqui me ajudando, chegou uma hora em que admiti, não dá mais, cada aluno vai ter que degustar só a metade de um bolinho, cortando ao meio ainda o estilo, afinal coloquei com pinça no fundo de cada um uma folha de coentro, que tive que rasgar com cuidado para caber na forma. Mas tudo bem, pois o quiabo com pimenta e coentro foi coisa de última hora para o bolinho não ser provado puro, que era o combinado. Ele vai bem com algum molho, alguma nata, um molho apimentado. Os quiabos em rodelas foram crus, apenas temperados com sal,  e cozinharam al dente com o vapor. Na hora de degustar, também seria impossível aquecer, então foi frio mesmo. Também não tive tempo suficiente pra mostrar como foram cozidos no vapor. Era muita coisa para nós três, Mara Salles, Ana Soares e eu,  falarmos sobre as frutas e, como é regra, sempre superestimamos o tempo que nos dão. Culpa só nossa.  Ficaríamos tranquilamente ali falando durante quatro, cinco horas e ainda teríamos assunto.  Mas sorte que tenho aqui o Come-se, onde posso ir explicando tudo aos poucos e devagar, pra quem foi e pra quem não foi. 


A bandeja de degustação na nossa aula no Paladar


Bem,  uma das frutas que escolhi abordar na aula foi a banana-da-terra, pela qual ando cada dia mais encantada, desde que passei a conhecê-la melhor no Acre e pensar nas infinitas possibilidades e bondades de sua massa doce, nutritiva, densa e rica em amido, como vimos no papel de banana e naquele pastelzinho que não levam outro ingrediente na massa que não a própria fruta.  


Mas a massa da banana-da-terra também pode substituir parte ou totalmente o trigo numa série de receitas, como bolos, pães, bolinhos e pães chatos - aqui, um exemplo é aquele beiju com abóbora. Por isto, resolvi acrescentar a massa nos bolinhos feitos com farinha de arroz e farinha de feijão fradinho que já mostrei em outros posts. Banana combina com arroz e feijão servidos separados. E no bolinho não é diferente quando os três elementos se juntam numa só massa temperada apenas com sal, grãos de coentro e de cominho. Nada de farinha, ovo, leite, gordura. Leva sim um pouco de fermento para ficar aerado, já subvertendo um pouco o método tradicional de se fazer os idlis, como são chamados os bolinhos no vapor feito com arroz e feijão. O método clássico, com levedação natural está aqui:  http://come-se.blogspot.com.br/2012/04/bolinhos-de-abobora-com-arroz-e-feijao.html. Também mostrei que a massa pode ser cozida na frigideira à moda das fritadas: http://come-se.blogspot.com.br/2012/05/fritada-indiana-arroz-feijao-e-mistura.html. E aqui vai a receita:


Bolinhos de arroz, feijão e banana-da-terra no vapor 



Numa tigela, coloque 1 xícara de farinha de arroz, 1 xícara de farinha de feijão fradinho (farinha para acarajé) e 1 xícara de massa de banana-da-terra já fria (a banana madura, mas firme, cozida até ficar bem macia e espremida). Junte 1 colher (chá) de fermento em pó, 1 colher (chá) de sal, 1 pitada de grãos de cominho e de coentro moídos na hora e água aos poucos, misturando bem, até formar uma massa densa, com consistência de massa de bolo firme.  Na hora de preparar os bolinhos, unte forminhas de quindim com óleo e coloque uma colher de sopa de massa em cada uma.  Cozinhe no vapor por 10 minutos ou até que a superfície dos bolinhos estejam firmes ao toque. Sirva quente ou frio com nata, coalhada, quiabos, camarão seco.  Se tiver dúvida no modo de preparo, não deixe de clicar nos links que indiquei acima. 

Nota 1: a mesma massa pode ser um pouco mais fluida – diluida com um pouco mais de água, e frita em frigideira como uma fritada, com temperos como tomate, salsinha, coentro, cebola.

Nota 2: se quiser, coloque no fundo da forminha, antes da massa, algum recheio como camarão com quiabo ou só quiabo cru em rodelas, folhas de coentro e pedaços de pimenta. 

Nota 3: você pode deixar que a massa fermente sozinha, sem uso de fermento químico. Basta misturar um dia antes a farinha de arroz, de feijão e a água. Cubra com filme plástico e espere até a massa ficar aerada. No outro dia, complete o preparo, juntando a banana e os temperos.   


quarta-feira, 11 de julho de 2012

Marajó no site da Saveur

James Oseland fotografando no Marajó 

Quando postei há alguns dias, a matéria que escrevi sobre o Marajó para a Saveur de junho com fotos do James Oseland,  ainda não estava publicada online. Agora, quem não viu a revista de papel, pode ler lá no site e conferir fotos e receitas, curtir, comentar, reclamar. Obrigada a Ana Lúcia Borelli que me avisou.
http://www.saveur.com/article/Travels/Brazil-Marajo-Island

Dão ou jujuba


Todo ano, sempre nesta época, vejo nas lojas de produtos orientais do bairro da Liberdade pacotes com estas frutas verdes. Não sei porque mas nunca tive curiosidade de experimentar. Talvez por não gostar muito de aroma artificial de maçã verde, que nada tem a ver com a fruta original que tem um bom perfume - é que vejo a fruta, lembro do cheiro enjoativo e acabo desviando o olhar. Mas desta vez estava com a Carol e o jeito de olhar as coisas quando se está acompanhada é diferente. Por isto resolvi comprar um saquinho com cerca de  um quilo da fruta a 9 reais. Elas são muito parecidas com maçãs, mas menores, com uma semente do tamanho de uma amêndoa. Não são do tipo de fruta que atrai pelo aroma, que quase não demonstram. Ainda na mercearia nos perguntamos como será que se come e, curiosamente, uma chinesa que comprava outras coisas se juntou à nossa conversa com simpatia e nos disse que deveríamos comer verdes mesmo, que era assim o costume, pois são frutas docinhas mesmo quando imaturas. E, com uma piscadela, sorriu balançando a cabeça, aprovando o preço, que estava muito bom, sim. Se era uma agente-x a gente não sabe, mas ela estava certa. Assim que cheguei em casa, provei uma, provei duas e não conseguia parar de comer. Consegui reservar duas pra salada. Crocante e suculenta como a maçã, tem sabor doce ligeiramente ácido - quase nada. E é pouco perfumada.

Dentro do saquinho vem um folheto com poucas informações em português além de um texto em chinês com composição nutricional e talvez algum outro dado sobre a fruta. Tem também o nome "jujube" e o lugar onde é produzido, Cedral, perto de São José do Rio Preto.

Jujubas que vi na África eram diferentes, menores,  mas juntando nome com imagem foi possível descobrir o nome científico da fruta que comprei, Zizyphus mauritiana Lam,  e a partir daí constatar, surpresa, que a fruta é a mesma que sabia existir em Roraima com nome de "dão", mas que nunca tinha visto.

Não sabia que era cultivada em outro lugar, agora sei. Pelo jeito vai bem no clima quente da região norte do Estado de São Paulo. Não é fruta brasileira, mas nativa da Índia e Sudeste Asiático, onde é muito cultivada. Está atualmente espalhada pela Índia, Afeganistão, China, Malásia, Austrália e da Flórida até o Brasil. Parece que no norte da Austrália a árvore, que cresce rapidamente até doze metros, é considerada praga, mas por aqui, mesmo ao redor de Rondônia, onde já é uma fruta que faz parte das memórias infantis de gente mais velha, é ainda pouco difundida. Pelo jeito, chineses gostam e deve haver muitas boas maneiras de se preparar em pratos doces e salgados, embora a mulher da loja tenha dito que o bom é comer in natura mesmo. Nunca vi maduras além das fotos, mas elas ficam vermelhas,  mais molinhas e podem servir para se conservar em passas, pois uma vez me lembro ter comido um prato coreano de costela com jujubas secas, à moda das ameixas. Não sei se é a mesma coisa pois não me lembro do gosto, afinal este nome jujuba se aplica a frutas diferentes mundo afora. As que vi no Senegal eram muito menores.  Já estas são do tamanho dos tomates médios.

Aqui vão outros nomes, para quem quiser pesquisar mais: yuiubi, em Porto Rico; yuyuba, em espanhol; guinda, na Colômbia; pomme malcadi, no Haiti; perita haitiana, na República Dominicana, posingué, na Venezuela e jujube, em inglês.

O tipo de crocância das jujubas é muito parecido ao encontrado no jacatupé, no yacon, nos rabanetes, na maçã verde. Como tinha em casa jacatupé (comprado também lá na Liberdade) e rabanete, resolvi juntar os dois derradeiros numa salada com cenoura, batata e ervilha cozidas e emulsão de umbu, que é assunto  pra outro post, mas que poderia ser uma maionese comum.  Aliás, umbu verde também é bom e docinho, além de ácido, e as duas frutas fariam boa combinação nesta salada.






Onde compreiMercearia e Bomboniere Towa - Praça da Liberdade, 113 - Liberdade. Tel.            11 3105-4411      
Quem  produz:  Sítio Taiwan - Cedral - SP - Tel. 17 223-0097/  9627-5169/ 5579-4156 

terça-feira, 10 de julho de 2012

Extração do óleo de patauá


Queria ter visto a aula da Ana Luiza Trajano e do Paulo de Abreu e Lima, no Paladar - Cozinha do Brasil, sobre óleo de patauá, mas foi na sexta-feira, quando eu estava aqui enlouquecida preparando a oficina que daria no sábado. Já falei um pouco de óleo de patauá aqui, quando fiz  um post sobre óleos e gorduras, e, por sorte, um leitor me mandou este vídeo muito didático sobre o demorado processo artesanal de extração. Vale a pena conhecer. Depois de assistir à trabalheira toda, tenho ainda mais respeito por cada gota do precioso nectar. O leitor, que não assinou mas a quem muito agradeço, inclui ainda a notícia sobre o breve lançamento do produto pelos Baniwa.
"Neide, parabéns pelo Blog. 
Agrego ao tema Patauá, que promete, o seguinte vídeo (fresquinho!), elaborado pelo brilhante cineasta indígena Moisés Baniwa, de São Gabriel da Cachoeira/Amazonas. 
http://www.youtube.com/watch?v=kZVb9fpSj5I&feature=plcp
Estou sabendo que os Baniwa estão se organizando para oferecer óleo de patauá extravirgem e pimentas no mercado.
abraços". 

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Anissa gostou de pastel

A escritora, jornalista, fotógrafa e cozinheira Anissa Helou aproveitou a vinda a São Paulo, para o Paladar - Cozinha do Brasil, pra explorar o país. Quis conhecer a favela, motivada pelo filme Cidade de Deus, saber o que andam fazendo seus conterrâneos sírios por aqui, aprender a fazer pastel e ver um pouco do que foi a nossa aula de invólucros no evento do Paladar do ano passado. Do pastel nem sabia quando a Aninha combinou de conversarmos lá no Mesa III.  Pensei que seria apenas uma conversa sobre invólucros. Ela queria conhecer nossas comidas embaladas, para uma apresentação que vai fazer em Oxford. Mas, como eu ainda estava animada com a comida do Paladar deste ano, levei coincidentemente alguns pasteizinhos de banana (o da receita de ontem), que, claro, não tem nada a ver com o pastel objeto de interesse. Ainda assim, serviram como sobremesa e ela preferiu os fritos aos assados. E me mandou esta linda foto. Mara também levou os famosos pasteis de carne, camarão e palmito, do Tordesilhas. No Mesa III, Anissa pode acompanhar passo-a-passo o feito da iguaria pelas mãos habilidosas da Hilda, braço direito da Aninha. Comeu-os quentinhos, pastel de carne e massa frita. Gostou tanto. E ficou, como qualquer pessoa que se depara com o espetáculo,  impressionada com a fábrica de massas da Ana. O Mesa III estava em pleno funcionamento, com massas coloridas saindo do cilindro, chapeizinhos sendo dobrados, frangos perfumados com alecrim indo ao forno de lenha etc. Ela é divertida, solta, simpática, demonstrou seu encantamento sem ar blasé e tirou fotos lindas, que já nos mandou.

Pasteizinhos de banana. Foto: Anissa Helou
Ana Soares, Anissa Helou, Neide Rigo, Mara Salles. Foto: Andreza Biagioni