sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Jenipapo maduro. Coluna do caderno Paladar. Edição de 16 de novembro de 2017



Ontem foi dia de coluna Nhac no Paladar. E falei do jenipapo maduro. Está lá no site do caderno e aqui também.  


JENIPAPO CAI DE MADURO
Em minha coluna de julho mostrei o jenipapo verde que tinge tudo de azul e prometi que voltaria a falar do fruto maduro quando fosse a safra dele. Pois nem precisei procurar. De repente minha casa foi invadida por uma mala de jenipapo trazendo seu perfume na rabeira.  Veio de Manaus, diretamente do sítio do biólogo Valdely Kinupp, autor,  junto com o botânico Harri Lorenzi,  do livro Plantas Alimentícias Não Convencionais (Panc) no Brasil e que esteve em São Paulo para uma palestra no Sesc Pompeia sobre Panc – sim, jenipapo é considerado uma Panc.

Na mesa de espécies que dificilmente encontramos nos supermercados apresentada por kinupp durante a palestra, havia entre as hortaliças raras frutas com perfumes pronunciados. Cupuaçu, maçã-de-elefante, melão-cruá e jenipapo brigavam pra ver quem ganhava no cheiro. Difícil dizer, mas isoladamente o jenipapo é mais ardiloso, pois atrai a atenção e o apetite com um forte perfume frutado de maçãs, ameixas ou marmelos, para em seguida mostrar seu lado B, notas que remetem à querosene, motor de liquidificador prestes a queimar, massa plástica, funilaria. Mas, calma lá, são só vagas lembranças que aos poucos você associará ao ótimo sabor e para sempre sua memória afetiva será componente importante deste paladar único. Guardadas as devidas diferenças e proporções, podemos comparar ao aroma petroláceo do vinho Riesling alemão. Se é defeito ou não,  ainda se discute, mas a maioria dos enófilos aprecia.

No caso do jenipapo, à primeira prova, muita gente estranha a combinação do Diesel com o ácido, perfumado e falta de doçura na fruta in natura, mas diante de uma travessa de jenipapada – fatias da fruta descascada, sem pele e sem sementes, apenas polvilhadas com açúcar, ninguém se contenta com pouco. É viciante, já adianto. O aroma indesejado é imediatamente trancafiado em outro compartimento, sendo superado por substâncias voláteis florais e frutadas das mais agradáveis.

Jenipapo pra tingir pele de preto ou comida de azul tem que ser imaturo, ainda duro, mas a fruta para comer, fazer doce, bolinha, passa ou licor, tem que cair de maduro. Geralmente é colhida embaixo das árvores e, mesmo com a queda, amassa mas não quebra. Por esta característica, não é um fruto que atrai pela aparência na banca de frutas. Você passa, sente um perfume frutado delicioso e quando vai ver de onde vem se depara com um saco, bacia ou balde cheios de frutos amarronzados e amassados. É difícil acreditar que não estejam passados, apodrecidos.  Na porta do Mercado da Lapa sempre via, mas nunca me senti motivada a comprar.

Só com a intimidade é que vamos desmontando os mitos. A polpa tem uma membrana fina aderida, facilmente removível com um descascador de legumes, e realmente cede à pressão quando a apertamos, mas o que amassa é o miolo com as sementes, pois a polpa com cerca de 1 centímetro de espessura tem consistência macia, mas resistente como uma borracha.  E é incrível como um fruto assim pode ser resistente. Fora da geladeira, sem se desintegrar, pode durar dias. Na geladeira, até um ano resiste sem perder a dignidade. 

Todas as partes do jenipapeiro são muito usados na medicina popular contra males diversos - tosse, anemia, contusões, luxações entre outros -, por isto a planta Genipa americana é uma espécie amplamente estudada e os componentes dos frutos já tiveram atividade antibiótica comprovada em testes in vitro contra várias espécies de bactérias. Talvez isto explique a longa vida de prateleira que o jenipapo exibe. Ele mumifica mas não estraga – a não ser que esteja com ferimentos na casca e isto pode ser um caminho para a deterioração.

Assim como o café, o jenipapo pertence à família das Rubiáceas e não é exclusividade brasileira, já que está amplamente distribuída por todas as áreas tropicais e subtropicais da América Latina. Entre nós, podemos encontrá-lo da Amazônia a São Paulo. No Nordeste é comum e alguns preparos são populares especialmente na Bahia. No Recôncavo, por exemplo, são famosas as bolinhas de jenipapo – a polpa sem pele e sem sementes passada em máquina de moer e cozida com açúcar até o ponto de enrolar, quando deve estar bem escura. Passadas em açúcar, estas bolinhas são tentações disputadas nos mercados. E o São João na Bahia não é festa se não tem licor de jenipapo. Sem contar os refrescos que podem ser feitos deixando o miolo da fruta na água para soltar a mucilagem que envolve as sementes – estas costumam ser descartadas apesar do intrigante sabor apimentado quando mordidas.

Recentemente a fruta foi incorporada à  Arca do Gosto, projeto do movimento Slow Food que visa identificar, catalogar e proteger alimentos em vias de desaparecer, pois jenipapeiros do Sul da Bahia estão dando lugar à cultura do café, colocando em risco toda a história de uso do ingrediente nesta região.  Aliás, uma publicação com todos os produtos brasileiros da Arca, incluindo o jenipapo,  foi lançado recentemente. Para adquirir, escreva para contato@slowfoodbrasil.com

Jenipapada - a fruta crua, fatiada e polvilhada com açúcar 

Ainda estou em processo de adquirir intimidade com a fruta, mas já posso dizer que meu preparo favorito é a jenipapada feita por Tieta do Agreste, na obra de Jorge Amado e que conheci recentemente.  No livro de Paloma Jorge Amado, As frutas de Jorge Amado, a receita é simples. Diz para preparar 2 jenipapos (lavar, descascar, tirar sementes e a película entre as sementes e a polpa), cortar em tirinhas e misturar com 3 colheres (sopa) de açúcar. Fica na geladeira por dois dias para macerar e está pronto para servir. 
Gosto também muito das bolinhas de jenipapo que me fazem lembrar das bolinhas de tamarindo mexicanas , doces, salgadas, ácidas e apimentadas, cuja receita dei na minha coluna sobre tamarindos.  Então misturei as duas receitas e fiz bolinhas de jenipapo – doces, salgadas, ácidas  mas nem tanto,  e apimentadas. Ficam deliciosas e intrigantes – seguindo o estilo desta nossa fruta.



Bolinhas de jenipapo com pimenta

300 g de polpa de jenipapo (sem sementes e sem pele)
150 g de açúcar
¼ de xícara de água
1 colher (café) de sal
2 colheres (sopa) de pimenta vermelha seca em flocos

Para passar as bolinhas
2 colheres (sopa) de açúcar
1 colher (sopa) de pimenta vermelha seca em flocos (pode usar pimenta para kimchi encontrada em lojas de produtos asiáticos ou substitua por 1 pitada de jiquitaia ou pimenta em pó do Xingu) 
1 colher (café) de sal


Passe a polpa de jenipapo pela máquina de carne ou processador para que fique bem triturada. Em uma panela pequena coloque todos os ingredientes, misture bem e leve ao fogo baixo. Quando ferver, cozinhe por 10 a 15 minutos, até que o líquido se evapore e reste na panela uma pasta espessa que se desprende do fundo da panela. Retire do fogo e espere esfriar completamente.


Para passar as bolinhas: em um prato coloque o açúcar, a pimenta e o sal e misture. Tire porções da massa do tamanho de bolinhas de gude e enrole nas mãos. Passe por esta mistura. Estão prontas pra comer ou, se quiser guardá-las, coloque num vidro e feche bem. Conserva-se bem fora da geladeira por até uma semana ou mais.

Rende
 cerca de 50 bolinhas

16 comentários:

Anônimo disse...

Neide,
Amo jenipapo. Adorei as matérias com o jenipapo verde. Fico feliz ao ver essa fruta tão famosa no Nordeste se popularizar através de seus lindos posts.
Uma novidade boa é que consegui fazer o levain depois de 23 tentativas!!!!! Vivaaa
Hoje começo a fazer o panetone que desde 2013 tento fazê-lo https://come-se.blogspot.ae/2013/12/vamos-fazer-panetone.html
Bom final de semana.
Beijos de Abu Dhabi
Michela

Lucas Mourão disse...

Neide,

Amei a postagem, ri demais da sua descrição do odor do jenipapo hahah.

Abraços,

Lucas (jaca)

diu disse...

Odeio jenipapo lembro que tinha muito no cerrado la em Goias, e no quintal tinha meu Deus não me apetece,mas fiquei contente de saber que tem quem goste.Igual o um outro fedido que fugiu da memoria vi vendendo caro em mercado.

Suzana disse...

Neide, sempre venho no seu blog quando estou com poucas esperanças na humanidade 😃

Gostaria muito de saber seu percurso profissional, pra saber como eu poderia tentar seguir seus passos. Sinceramente, deveria existir uma graduação ou pós graduação Neide Rigo.

Ahhh, como vc tem um sítio, será que vc conhece o trabalho do Ernst Gotsch, Agricultura Sintrópica? Tem muito a sua vibe.

Amara Pedrosa disse...

Faz tempo não vinha por aqui.
E na volta o que encontro, jenipapo.
Amo essa fruta, tem gosto de infância para mim.
Você ensina a fazer descascado e sem sementes, meu marido me acostumou a usar tudo. Simplesmente lavo, corto em fatias finas e coloco o açúcar.
Vai pra geladeira, mas começamos a comer antes que pegue o ponto.
Vicia mesmo.

Natasha Arruda disse...

Aqui perto de casa tem jenipapo mas nunca soube como usá-lo, quando perguntava para as pessoas como elas usavam, elas só o usavam para licor, aprendendo muito com o seu blog.

Dine&Drinks disse...

Thanks a bunch for this post. I am sorry that cannot write Portugese but i understand it pretty well.
Will be waiting to see more North American and Portugese Cuisines contents.

Unknown disse...

Opa..sou de Manaus..amo jenipapo..experimenta o suco e o licor!

Anônimo disse...

Não concordo com as notas de querosene, petróleo entre outras citadas. O fruto tem um sabor característico, sendo mais exótico no primeiro contato, para consumir inatura é bom que esteja bem maduro, pois ele solta um suco bem doce o que dispensa o uso de qualquer tipo de adoçante. Nas terras do meu pai tem muito desse fruto que é utilizado para fazer doces compotas e licores.

Unknown disse...

Pique

vmpbsb disse...

Eu faço um maravilhoso doce em calda cortado em quadradinhos bem pequenos , que fica cozinhando em fogo baixo , em uma maravilhosa calda de açúcar e cravo da Índia . É um sonho de sobremesa para degustar com queijo branco. Também uso esse mesmo doce na forma de geléia ( passado no liquidificador para virar uma pasta) e combina com pães e biscoitos salgados. O doce em calda também combina plenamente com sorvete de creme ....

Unknown disse...

Gosto muito de jenipapo,só o cheiro me deixa salivando. Conheço e como desde criança nos sitios e fazendas, da familiares e amigos.

Unknown disse...

O jenipapo maduro com limao para fazer um suco, fica delicioso

Anônimo disse...

I like junipapos

Anônimo disse...

I really appreciate how you made this topic so easy to understand. I’m definitely going to follow your advice!

MARIA LUIZA SANTOS SILVA disse...

Quer dizer, puxou um monte de disciplinas durante o EAD, colou à beça na prova e agora se formou como farmacêutica, graças à cola, graças ao Photomath. Você ainda foi monitora de química analítica experimental 1 e 2, será que você ensinou os outros alunos a colarem a prova usando o Photomath também?

Você nem deve se lembrar de mim, eu sou uma das pessoas que você abandonou em orgânica 1 durante o EAD, você passou colando em cálculo para a farmácia usando Photomath, me fez acreditar que eu podia passar na faculdade sem estudar, quando chegou no semestre seguinte em orgânica 1, você decidiu que não iria me dar cola, então eu fiquei reprovado em orgânica 1. Por sua culpa, eu estou com a minha graduação toda atrasada. Fez o que fez comigo e nada aconteceu com você.

Será que o pessoal do Laboratório de Análises Avançadas em Bioquímica e Biologia Molecular, onde você fez iniciação científica, sabe que o seu CR era 7, graças a você ter colado em cálculo para a farmácia usando o Photomath?

 

Você é a prova que vale a pena colar na prova, que a coordenação da farmácia da UFRJ fecha os olhos para as pessoas, que colam na prova feito você.

 

Por causa da sua queixinha que você foi fazer na coordenação da farmácia junto com o Gabriel Vasconcelos de Lucena, Camilly Enes Trindade e a Julia Tavares de Azevedo, algum FDP da coordenação da farmácia vazou as minhas informações pessoais para uma pessoa que nem me conhece e nem estuda mais na UFRJ.

 

Pode mandar o seu amigo, o Guilherme de Sousa Barbosa que me ameaçou, mesmo sem eu ter feito nada contra ele, me matar, manda o Guilherme de Sousa Barbosa aparecer na boca de fumo que tem aqui perto de casa e mandar os traficantes me matar, aqui do lado da minha casa funciona um ferro velho clandestino que fornece material furtado para os traficantes construírem barricadas.