quarta-feira, 24 de junho de 2015

João Rural se foi

Foi ele, neste dia, quem me ensinou a reconhecer folhas de caetês
Ele ontem se foi e vai deixar saudade. Largou seu fusca, seus livros, microfones, câmeras, o picuá de prosa e um legado sem igual sobre a cozinha caipira paulista, especialmente do Vale do Paraíba, onde vivia.

Conheci João anos atrás através de seus livros, tipo apostilas, que eram compilações de receitas caipiras que encontrava em suas andanças pela zona rural do Vale do Paraíba. Delícias do Milharal foi o primeiro que comprei no Revelando São Paulo.  Até que um dia me escreveu a propósito da  hortelã pimenta e ficamos amigos. Depois disso, tivemos vários encontros aqui e no Vale e sempre voltava pra casa um pouco mais sabida, digerindo tudo o que me ensinava.  Ele já apareceu aqui no Come-se várias vezes. Também mostrei a ele coisas que ele não conhecia, como o coentro de pasto, por exemplo (a chicória do Pará).

Era tinhoso e não aceitava, por exemplo, pamonha na palha de milho - caipira não usava palha do milho e sim caetê, nativo e que não deixa cheiro, dizia ele. Também não aceitava termos no Brasil um movimento com o nome de Slow Food, criado na Itália e do qual sou membro. Para ele, tínhamos que ter uma coisa só nossa, com nome que o caipira entendesse,  e por isto batizou seu  movimento de "Cumê Divagarinho". Eu tentava dizer que estávamos do mesmo lado, que o Cumê Divagarinho poderia ser parte do Slow, mas ele não aceitava. Nem por isto a gente brigava. Era sempre uma troca prazerosa.

Não tem muitos dias que ele me ligou, mas não falou que estava doente, discreto que era. Parece que foi um enfarto que o levou, mas estava se tratando de leucemia. Quando nos falamos, estava como sempre cheio de planos - uma escola de cozinha caipira, uma paçocada, uma viagem, um livro. Ele sonhava ainda montar um condomínio caipira, com casas de pau a pique, fogão de lenha e comida típica. Vivia viajando, aprendendo, divulgando o que descobria. Nunca quis levar com ele nada deste mundo - sempre generoso no compartilhamento. E foi assim até o fim. No ano passado o convidei para uma fala com a Lourdes Hernandez no Sesc Belenzinho, no projeto Comer é Mais, do qual sou curadora e foi a última vez que nos vimos.

Testeira do seu blog: www.picuadeprosa.blogspot.com 
Aproveito para reproduzir aqui o primeiro email de 2008.

Olá neide 

Acabei de ler seu blog e fiquei feliz com o artigo sobre a hortelã pimenta. Sabe que era eu que estava vendendo estas mudas em São Paulo. Pode ser que no dia estava lá meus parceiros e não nos conhecemos. 
Mas a tal de hortelã não tem informação mesmo em lugar nenhum. mas agora mais recentemente, fazendo pesquisa para um novo livro que vou fazer, encontrei mais gente nos sertões com a tal da hortelã pimenta. Alguém até me disse que é a mais ideal para fazer as comidas árabes. Já estou há um ano andando pelas serras do Vale e vai mais seis meses, pra completar toda a pesquisa. 
Mas vamos ver se aparece alguém que sabe mais, pois até eu estou necessitando disso.
Falar nisso você conhece um outro coentro que é abundante no litoral Norte e que tem um pé espinhudo e folhas como as da hortelã pimenta? Dizem os caiçaras que este coentro é melhor pro peixe, pois seu cheiro é brando, não exalando muito, mas dando o sabor. 
É isso
João Rural 
Veja no site www.nascentesdoparaiba.com.br  um guia que fiz com o patrocínio da petrobras no ano passado, e agora estou terminando a segunda edição, que sai no começo do ano. l

E aqui, o último, em março: 

Fala ai neide, como andam os sabores? 
Vou iniciar os cursos de comida caipira em abril, num local que fiz parceria, bem na entrada da cidade.
o lançamento do projeto vai ser com uma paçocada na semana santa, quatro dias de paçocas salgadas e doces,
veja  ai no meu face JOÃO RURAL CULINARISTA , te mandarei informações definitivas e mais completas
na próxima semana, pra vc me dar um apoio...  se num tem face? 
 
abços 
João Rural

(A gente se fala por outras redes, João!) 


6 comentários:

Miguel Vieira disse...

Ô, tristeza... encontrei ele uma vez aqui em SP. Era simpático, e um poço de conhecimento, né?

Anônimo disse...

Nossa, Neide. Tô triste com a notícia. Eu o conheci num passeio do SESC, aqui de São José dos Campos. Fomos a uma fazenda em Paraibuna, onde conhecemos o mangarito, ajudamos nas tarefas de preparação do almoço no fogão de lenha, comemos tanta coisa gostosa. Foi uma experiência maravilhosa, tirei boas fotos. Que pena ... Beijos, Liliana.

adelia sylvia penna ramos disse...

Neide,
eu não o coheci, agora foi a primeira vez que ouvi falar dele, mas fiquei triste como se fosse meu amigo... É no que dá você escrever com o coração!
adelia

Vera disse...

Neide,
Noticia aqui do jornal local sobre o João Rural
http://www.ovale.com.br/viver/o-homem-caipira-1.597513
Abraços, Vera

Vera disse...

E um vídeo com ele no Discovery Channel apresentando uma receita com cambuci
http://www.youtube.com/watch?v=hlyERjaqan8
Que esteja em paz.

Tiane disse...

Que coisa linda! A postagem e os personagens dela! Uma pessoa como ele, não deveria partir tão cedo. Adorei o "cumê divagarinho"! Pena, que só estou conhecendo vocês agora!