quinta-feira, 10 de julho de 2014

Águas amazônicas de beber. Cipó d´água na Ilha do Marajó

Foi Alonso, irmão da minha anfitriã e amiga Dona Jerônima, quem nos acompanhou pela trilha arenosa e molhada que atravessa o mangue, para me mostrar o cipó d´água.

Mateiro como ninguém, Alonso nasceu e sempre viveu naquele pedaço de Soure, na Ilha do Marajó - PA,  e conhece as plantas por nome e sobrenome, por hábitos e funções. Vai andando e dando a ficha - quem é, pra que serve, como colhe, como prepara. É invejável. As funções fitoterápicas se misturam com o conhecimento vindo da pajelança. São os banhos de cheiro, os para atrair amor, para espantar tristezas, trazer alegrias, chamar fortuna, conquistar a paz, pra icterícia de menino, gripe de marmanjo, quebranto etc. Estes assuntos estão presentes nas conversas dos mais velhos com grande frequência, mas os mais jovens já se vão ignorantando. Aos poucos, ninguém mais saberá reconhecer o bom cipó para se beber água fresca na floresta. Crianças já não querem nem mais tomar mingau na cuia.

Mas em matéria de ignorância, não fico atrás, apesar da curiosidade. É só andar um pouco com dona Jerônima e Alonso para gente se dar conta de que não sabe nada de nada. No manguezal você vê um monte de cipó e tudo parece igual quando Alonso puxa um e diz: este é o bom, este tem água. Tem o diâmetro certo, tem a casca com a cor ideal e ainda tem que ser aquele que não matará a planta se cortado. Também não pode ir passando o facão de qualquer jeito. Tem que cortar primeiro a parte mais alta num só golpe e só então a parte baixa, cerca de 1 metro abaixo, em corte enviesado. Sendo assim, a água escorre e basta deixar cair o líquido sobre a boca sedenta. Se cortar primeiro a parte de baixo e depois a de cima, água nenhuma escorre.


Para ter certeza da transparência da água - esta, sim, insípida, límpida e inodora -, levei um copinho. Pude degustar sem pressa, prestando atenção no sabor. Diferente da água que bebemos, esta realmente refresca mas não tem sabor nenhum, como se fosse uma água sem sais, destilada. É geladinha, agradável de se beber.  Diferente também da água de buçu, que o Tiago Castanho serve no menu degustação do restaurante Remanso do Bosque, em Belém. Trata-se de um coquinho medicinal que produz mais água que polpa. É gostosa, mas tem sabor adstringente, com muito tanino.

O coquinho buçu
Há muitas formas de se obter água de beber em lugares inóspitos (mesmo no Marajó, com tantas águas, há lugares em que só se as encontram salobras).  Outra forma de conseguir água é furar o tronco da sororoca, um tipo de bananeira amazônica, que vi no Acre mas não no Marajó, pois planta armazena muita água. Desta não provei. Há também outros tipos de cipó d´água, mas é preciso conhecer ou ao menos ter passado por exercícios de sobrevivência das forças armadas. Veja aqui este da Mata Atlântica mostrada pelo Giu Toniolo, especialista em sobrevivência no mato - não sei se é o mesmo cipó, mas a técnica para obtenção da água é a mesma. Eu não arrisco,  a não ser que veja a flor, agora que já conheço o tipo do Marajó, do qual não descobri o nome científico. Se alguém souber, aceito contribuição (jogo a toalha depois de passar a manhã tentando descobrir).


A linda flor do cipó, que se abre no alto da floresta 

Um comentário:

Juliana disse...

muito interessante...
e que flor maravilhosa!

Ju