segunda-feira, 23 de julho de 2012

Mel de jataí. A primeira extração

Isto sim é alimento em capsula!
No ano passado, falei das minhas caixas de jataís que ganhei dos amigos Rui e Mariângela, e a aventura que foi trazê-las de Porto Alegre de ônibus. Estas abelhas da tribo Meliponini, importantes na polinização das plantas,  produzem ainda mel delicioso e nutritivo, além de cera com finalidades várias como na vedação e grudes diversos, e pólen, um complemento alimentar proteico e até terapêutico. O post sobre as abelhinhas gaúchas é este:  http://come-se.blogspot.com.br/2011/04/minhas-caixinhas-de-abelhas-jatai.html. Outras postagens sobre o mesmo tema podem ser vistos aqui e acolá





E,  se você viu o primeiro link, poderá perceber que o processo de extração não variou muito e eu já deveria ter aprendido com as lições do Rui, mas,  com o amigo tão longe, me sentiria mais segura se este reforço viesse de um profissional. Ainda lá no Paladar - Cozinha do Brasil, quando o Jerônimo Villas Boas havia acabado de dar sua palestra Mel de abelhas nativas, fiz a ele a proposta: "Não quer ir à minha casa me ajudar na minha primeira extração?" Para minha surpresa, ele topou na hora. Jerônimo é autor do Manual tecnológico Mel de abelhas sem ferrão, com distribuição gratuita - já falei disto e dei o link aqui - ,coordenador do projeto "Meliponicultura no Parque Indígena do Xingu” e  membro da Comissão Brasileira da Arca do Gosto, do Slow Food. Portanto, muita honra para mim confiar esta tarefa a tão boas mãos. Combinamos o dia e chamei a amiga Janaína Fidalgo, que agora também é feliz proprietária de uma caixinha.   Para quem é iniciante como eu e ela, vamos lá ao passo-a-passo.  Fotos minhas e da Janaína. 







Tiramos a caixa do lugar dela e colocamos sobre a mesa. Jerônimo tirou a parte de cima e me mostrou o batume, que é uma parede dura que isola o ninho, formada por cera e própolis endurecidos. Com uma faca ele foi tirando esta camada. 



Quando se chega aos potinhos de mel e de pólen que ficam ao redor do ninho, é só ir tirando o mel com uma ampola. Foi o que tentamos fazer, mas como é um processo muito demorado, resolvemos usar o método mais culinário - tiramos com a faca porções de potes e passamos pelo espremedor de batatas. Antes, separamos os potinhos de pólen, que se destacam dos outros por serem mais compactos, pesados e amarelados.  






Hora de peneirar e pesar o mel das três caixinhas: 705 gramas!  Não preciso dizer que o mel é delicioso. Quando é super fresco nem é tão ácido nem tão fluido quanto um mel de melipona já amadurecido. De qualquer forma, é menos concentrado que o mel de Apis e por isto fermenta com facilidade e logo fica com sabor mais azedinho e consistência mais fluida. Ainda assim, é muito bom.  O meu, guardei na geladeira, onde demora mais a fermentar.  Mas e este líquido aí na jarra ao lado? Veja a seguir:



Água de mel com guaraná: depois de separar o mel, sobram pedaços de cera misturados com pitadas de pólen e uma ou outra abelhinha não treinada ao desapego. Jerônimo contou que é costume caboclo juntar água a isto tudo e beber o caldo deste banho. É pra já. Juntamos água gelada, passamos por peneira e colocamos na jarra. É costume ainda, completou Jerônimo,  juntar um pouco de pó de guaraná para dar mais energia. É pra já também. Abri a gaveta e tirei o bastão de guaraná defumado dos índios Saterê Mawé. Bebemos com gosto um delicioso refresco que parece enebriar um pouco mas sobretudo refresca e dá forças para continuar os trabalhos.  





O Pólen é o alimento proteico das abelhas, necessário para as larvas em formação. Ficam armazenadas nos potes parecidos com os de mel. A cor pode variar de amarelo claro a laranja dependendo  das flores visitadas e tem sabor e aroma que ficam entre o mel e o floral. Pode ser guardado depois de seco para guarnecer pratos doces ou saladas. 

Tiramos o pólen com colherinha dos pequenos potes de cera, colocamos em saco de papel craft e deixamos à sombra para secar, já que tem consistência de uma farofa úmida. Só depois de seco é que é possível passar por peneira e guardar em vidro fechado, de preferência na geladeira. 




Uma Apis sendo atacada na asa por uma jataí
Álcool com cera para armadilhas e bolinhas de batume e de cera 

Cera e batume: a cera é mais macia, modelável com o calor das mãos, mas o batume é duro, formado por uma mistura de cera, própolis e outras substâncias que dão resistência para as abelhas fazerem verdadeiras paredes e vedações para os buracos da caixa. 

A cera forma camadas entremeadas de ar como um cobertor leve e fofo que mantém o conforto térmico constante do ninho, compõem a parede fina dos potes de mel e de pólen e dá formato a uma rede infinita de túneis dentro da colmeia, por onde as abelhinhas circulam, entrando e saindo pela única abertura, anunciada por um canudo cor de cera de vela, translúcido e pipocado de furos.   Os caminhos estreitos possibilitam a defesa contra intrusos que não têm outra opção se não passar por eles sem serem notados e destruídos. E, em se tratando de defesas, as meliponas podem não ter ferrão, mas são valentes. 

No outro dia, lavei bem toda a cera e batume que havia sobrado e deixei sob o sol para secar toda a água entranhada. Deixei separados batumes e ceras. Logo percebi que não poderia deixar de cobrir as bacias pois tanto jataís quanto Apis queriam extrair dali as últimas gotas de doçura, afogando-se em pequenas poças de água e mel. Cobri com tule e ainda assim as Apis não arredavam as patinhas meladas. Foi aí que olhei uma de perto e vi que o motivo não era o peso das patas lambuzadas, mas a agonia de não poder voar, com uma jataizinha grudada em sua asa. Segundo Jerônimo, as jataís vão triturando a asa da inimiga até arrancá-la fora.  Um caso deste vimos no dia da extração. No dia seguinte, porém, vi pelo menos uma dez Apis nesta situação degradante. Às vezes havia duas jataís, uma em cada asa e a Apis só balançando a bundinha ameaçadora com o ferrão ardendo de vontade de ferroar as pequenas. 

Mas, voltando às ceras e batumes, depois de bem secas e macias pelo calor do sol, amassei com as mãos, fiz bastões, cortei em pedaços e, no caso das ceras, fiz bolinhas.  O batume deixei em pedaços pois é duro para bolear. Guardei em vidros, do mesmo jeito que fiz daquela outra vez. Uma parte do batume e da cera,  diluí num vidro com álcool (aliás, se sujar as mãos ou recipientes, é só limpar com álcool, o solvente apropriado). O álcool com cera será usado em armadilhas para atrair jataís à procura de novas casas. Mas isto é assunto para outro dia. 

Armadilha para jataís: o álcool com cera diluída é usado para banhar o interior da garrafa pet usada na armadilha feita com a ajuda de cera para colar o caninho. Esta foi feita pelo Jerônimo, mas já fiz as minhas também. Depois dou o passo-a-passo. 


7 comentários:

Cassiano Dal Pizzol disse...

Andei "brincando" de fazer hidromel em casa.
Lendo sobre o mel de Jataí fiquei curioso para saber como seria o hidromel feito com ele.

Tens ideia da concentração de água dele?

Carina Abreu disse...

Oi Neide, tudo bem? Sua abelhinhas estão de parabéns, são ótimas produtoras! Sou pesquisadora de abelhas sem ferrão, do grupo da USP e apaixonada por meliponíneos. Gostaria de dar algumas sugestões para o manejo de suas abelhinhas. As abelhas gastam muita energia para produzir a cera (calcula-se uma proporção aproximada de consumo de 8Kg de mel para fazer 1Kg de cera!). Assim, vc poderia retornar a cera que retirou para a colônia, lembrando sempre de colocá-la limpa (sem resquícios pólen e mel), para evitar forídeos e formiga.
Um abraço!

Anônimo disse...

Neide pra onde as abelhas foram elas fico perto? ou voltam.eu ouvi dizer que só pode dizer que mel se for de abelhas africanas ou européias isto é verdade.bjs.(Diulza)

Neide Rigo disse...

Cassiano, também queria fazer hidromel, mas gostaria de ter mais mel para isto. A composição de água pode variar de 22 a 25%.

Oi, Carina, super obrigada pela dica. Vou devolver já a cera roubada!

Diulza, as caixas voltam para o lugar delas depois da extração - o ninho não é mexido e as abelhas que tinham ido passear ficam ao redor do lugar onde deveria estar a caixa, até que ela retorne ao lugar. Por isto o trabalho tem que ser rápido. Por uma questão de legislação que tem como parâmetro a composição do mel da abelha do gênero Apis, o mel de abelhas nativas não poderia ser chamado de mel. Mas isto é um absurdo, pois é claro que é mel.

Um abraço, N

Anônimo disse...

olá, meu nome é elizandro pauwels e tenho algumas caixas de jatai e no ano passado colhi uns 20 kg de mel, só que na minha região eu não consigo vender e gostaria de saber se voc~e talvez compraria meu mel? aguardo resposta, obs mel de excelente qualidade e 100% natural,desde já obrigado.elizandropauwels@gmail.com

CARLOS TEIXEIRA disse...

Oi fiz a divisão da colmeia jataí. Separei a colmeia mãe da colmeia filha. Quanto tempo leva para a nova rainha (colméia filha) começar e produzir ovos. Quanto tempo leva para fazer nova divisão? Quanto tempo leva para colher o mel.

CARLOS TEIXEIRA disse...

Oi fiz a divisão da colmeia jataí. Separei a colmeia mãe da colmeia filha. Quanto tempo leva para a nova rainha (colméia filha) começar e produzir ovos. Quanto tempo leva para fazer nova divisão? Quanto tempo leva para colher o mel.