sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Flores do sertão

Já era
Poderia chamar a maioria destas flores que apresento aqui de poncs - plantas ornamentais não convencionais. A não ser as flores que viram frutos como a de umbu e de maracujá, quase todas as outras cabem na unha do dedo mindinho.

Um homem passou pela rua, me viu achagada, quase beijando o chão para fotografar, e perguntou: está tirando retrato de pulga, sua moça? Disse que era flor e ele balançou a cabeça. Por acaso eu acabei e segui na mesma direção do homem, a tempo de ouvi-lo conversando sozinho: coitada, que louca, fotografando florzinha...

Num outro episódio, fotografei esta flor roxa diferente, que nunca tinha visto na caatinga e nunca mais vi. Era mínima,escura e a luz do sol já ia indo embora. Para garantir uma foto melhor depois (o que não aconteceu), arranquei um galhinho e perguntei para o rapaz que nos acompanhava no carro. - Sabe como chama esta planta? - Sei. Se chama m-a-t-o! Isto, aos risos, claro.

Já no aeroporto de Petrolina aconteceu algo interessante e divertido. Os passageiros seguiam para o avião no meio da pista em fila disciplinada, quando avistei uma moita de perpétuas e saí pela tangente. Só havia visto iguais àquelas numa escola, abandonadas entre matos e lixos. Um guarda acompanhava e orientava a fila com cara sisuda. Ele estava preparado para qualquer eventualidade ligada à segurança, à qualquer movimento que saísse do normal, mas não soube o que responder quando saí da fila e disse que precisava fotografar aquela moita de flor. Ele fez cara de assustado, olhou ao redor procurando a moita, não sabia do que eu estava falando, não sabia se autorizava ou proibia, já que não fiz pedido algum mas simplesmente avisei, e, afinal, aquela moita não deveria estar ali no meio da grama - era mato. Por fim sorriu. Perpétuas lindas aquelas. O passageiro que se sentou ao meu lado também não entendeu muito quando debulhei todas as florezinhas que consegui roubar dentro do saco virgem de vômito à procura de sementes.



Mas o que deu raiva mesmo foi quando no último dia em Uauá presenciei o floricídio de malvas brancas que se abrem pela manhã e descansam após o meio dia.  Estas foram as primeiras e as últimas flores que fotografei em Uauá. Logo que cheguei, elas me chamaram a atenção pois enfeitavam, perto da cooperativa,  um muro sem rebocos de um terreno baldio, numa calçada não pavimentada, e ainda cobria o fio de água escura que corre a céu aberto  e que domina as sarjetas da cidade sem esgoto tratado. Achei tão generoso da parte das malvas - um enfeite que modifica a percepção de um lugar onde o verde e as cores são pouco valorizados (como se isto não fizesse parte do nosso bem-estar - hoje já temos pesquisas que mostram o bem que a simples visão da natureza nos faz).  Mas no dia de vir embora, passei novamente pela cooperativa e vi o jardineiro fazendo seu trabalho, passando a enxada nas malvas. Fui com jeito conversar com ele, que também fez cara de me achar louca. As respostas foram estas: - Isto é mato. - As pessoas querem a calçada limpa. - Está tampando a passagem do esgoto. Etc. Diante de minha insistência de que poderia tirar só o capim, ele respondeu que se não tirasse tudo iam dizer que ele não trabalhou (!).  Tentei ainda argumentar que a guanxuma, o outro nome da planta, poderia evitar com que ele ficasse careca, já que seu extrato é usado em xampus para o problema. E que logo logo estaria ali a  Avon, o Boticário, a Natura ou L´Occitane em busca dessas flores que crescem tão bem na caatinga. Mas nada o fez demover da ideia de cortá-las pela raiz deixando a calçada pelada em folha e flores.

Um coisa boa foi que na casa da Dona Jovita tomei chá de flores de umbu - azedinho e perfumado.

 Aqui, fotos de algumas flores não convencionais, vulgo mato.


Bom-dia!




Perpétua da escola

Perpétua do aeroporto

Batata-de-purga

Amaranto

Flor de melão de são caetano





Cosmus rosa

Flor de cansanção

Maracujá da caatinga

Pinhão bravo 

Flor de umbu (no chá)






Malva pela manhã

Malva se fechando ao meio dia
Cardo santo, também conhecida como carro santo. Um tipo de papoula

13 comentários:

Gilda disse...

Essa fotógrafa apaixonada e suas lentes maravilhosas. Obras de arte da mãe natureza e da fotografia.

Anônimo disse...

Bom Dia!! Boa Tarde!! Boa Noite!!
Conta que tá bonito, engraçado e a gente daqui, conhecendo Uauá, Ô coisa Boa!!!
bjo ana

aveloh disse...

lindas demais. Não conhecia as batatas de purga, chiquérrimas.

lili disse...

Mania de achar que flor é mato.Já perdi a conta de quantas maria-senvergonha salvei e replantei. Tão alegres e tão pouco exigentes, alegram qualquer vaso ou canteiro e fornecem novas sementes,com generosidade.E viva o mato!

Marcia Gonçalves disse...

Ué, sempre achei que boa-noite era flor, minha avó as plantava no jardim de casa... já o cambará sempre vi crescer no meio do mato, não achava que era flor até vê-las enfeitando jardins de prédios de luxo, vai entender né?
Beijos, Marcia

Anônimo disse...

Só olhar pra elas já faz bem... essas florzinhas insigne-ficantes

Clarice.

Isabel Figueiredo disse...

Neide, adoro sua sensibilidade! Sou louca igual a você e também tenho uma coleção de fotos de lindas flores que nascem no solo judiado das beiras de estrada da Caatinga, beijo grande, Isabel (Cerratinga)

Neide Rigo disse...

Obrigada pelos comentários.

Lili, também adoro maria-sem-vergonhas.

Marcia, e quem disse que boa-noite não é flor? Flor é um estado de espírito (ops, uma parte anatômica da planta), independente de onde ela esteja, no mato ou no jardim.

Isabel, elas são irresistíveis, não é mesmo?

Um abraço,n

Amara disse...

Neide,
Seus relatos sempre nos encantam. Quanta coisa bonita deixamos de ver, quanta coisa bonita existe e matamos por pura ignorância.

Na entrada da faculdade local tem uma árvore que me atraiu pela beleza de suas flores, um dia o jardineiro estava 'decepando' a coitada.
Perguntei porque iam cortar e ele disse que ela atrapalhava a entrada dos carros.
Tentei argumentar para que não cortasse tanto e ele, certamente aborrecido porque eu estava atrapalhando o trabalho, me perguntou:
- Foi a senhora que plantou?
Respondi que não e saí carregando o máximo de vagens e flores que pude colher em segurança.
Tempos depois descobri que se trata de uma Moringa oleifera, árvore extremamente útil.
Minhas sementes não vingaram. A árvore, mesmo deformada, resiste aos ataques do facão.

Nem só o 'mato' é destruído por esse Brasil afora.

Neide Rigo disse...

Amara,
estas pessoas não têm culpa. Falta-lhes educação e sensibilidade ecológica. Sim, da moringa tudo se aproveita. As vagens frescas são preparadas como quiabo - já fiz aqui no come-se. E a planta se reproduz bem por estaquia.

Um abraço,n

Manu disse...

Neide,
Que post maravilhoso (como todos os seus).
Vou adotar essa nomenclatura pra vida: PONCs, rs!
Beijo grande.

Anônimo disse...

Amei seu post Neide, sou de Petrolina e o pessoal passa a inchada mesmo nas perpétuas-roxas e nas malva-banca, até mesmo dentro do parque municipal o prefeito manda limpar. Eu fico indignado com a situação, sendo elas visitados por vários besouros e abelhas em época de seca por aqui. Parabéns pelo tema abordado.

Leonardo P.

Neide Rigo disse...

Pois é, Leonardo!
Acho que sempre que pudermos podemos alertar sobre a importância delas, né?
Sorte que eu trouxe comigo a perpétua e a malva - ambas estão indo bem por aqui.
Um abraço,n