segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Calabura é o que é

Árvore na Alameda Lorena 
De dezessete, sete acertaram a resposta da charada. Logo a primeira resposta, da Veronica, já era a correta. No entanto, ainda disseram araçá, acerola, grumixama, café, gabiroba. 

Tudo começou quando o leitor Luciano Pupo me mandou foto perguntando que fruta era aquela, com gosto de suco de cacau e algo de figo.  O Luciano é o mesmo daquele caça ao tesouro Eugenia candoleana que publiquei aqui.  Daquela vez fui quem deu todas as coordenadas para ele descobrir onde estava a tal árvore que citava no post. 

Já agora quem deu o mapa da mina foi ele, inclusive com as coordenadas do Google Maps. Pra falar a verdade eu estava tão ocupada quando ele me perguntou, que tentei adiar a resposta - que exigiria de mim alguma dispersão, eu me conheço. Pedi para ele me mandar a foto da fruta partida ao meio. Com isto eu poderia ganhar algumas horas, quem sabe dias. Mas que nada. Ele imediatamente me mandou o seguinte email, incluindo a localização (para quem tiver curiosidade):  "Impossível neste momento... Comi as quatro. Mas antes de papar a última cortei-a no meio pra dar uma olhada (deveria ter fotografado também, né...?). Por dentro é bege, com veios aquosos entremeados na polpa. Há muitos "micro-grânulos" na polpa, que imaginei serem as sementes. Nenhuma delas tinha algum outro tipo de semente. Dê uma olhada neste endereço: https://maps.google.com.br/maps?q=alameda+lorena+582&ie=UTF-8&ei=G8AEU83hCYjNsQS7moHwDQ&ved=0CAkQ_AUoAQ É uma página do Google Maps, que se V. for aproximando no zoom, chega nas imagens reais (street view). Entre os nºs 572 e 582 existe uma árvore, é essa. Outra referência são as lojas Dyff e Diva; a árvore fica entre elas. Ou ainda dê um pulo lá pessoalmente, se tiver um tempinho. Garanto que não vai se arrepender. É um sabor único e sensacional.
Estava indo a uma reunião na Lorena e me deparei com essa joia. Hoje a árvore está um pouco diferente do que nas imagens do Google; há um ramo jovem que brotou perto da base que está proporcionando um belo toldo natural na calçada em frente à loja. Quando vi essas inéditas frutinhas vermelhas pendendo de cabinhos finos bem acima da minha cabeça, não resisti e arrisquei por uma na boca, quase que instintivamente, dada a improbabilidade de serem tóxicas. Só depois, quando saí por ali indagando de lojistas que árvore era aquela (ninguém sabia...), uma moça disse que sabia que podia comer. Mas eu já tinha comido... Nunca tinha visto/experimentado nada parecido. Espero que descubra, estou muito curioso
." 


Pensei em responder que definitivamente não sabia. Mas,  olhando bem a foto,  me veio à lembrança a frutinha que comia trinta anos atrás no Crusp, quando morava lá. A árvore ficava em frente ao bloco C e conheci a frutinha através do Acauã, também cruspiano. Não preciso dizer que parei tudo e escrevi pro amigo perguntando o nome.  Enquanto ele não respondia comecei a folhear o livro do H. Lorenzi (Frutas Brasileiras e Exóticas cultivadas). Lembrava de ter visto a frutinha ali. No mesmo instante que encontrei a descrição com foto no livro, chegou a resposta do Acauã: "calabura, boa para curtir na cachaça".  Aí comecei a lembrar de mais fatos que na hora não dei muita importância. Acauã citou a fruta e seu nome num piquenique que fizemos no começo deste ano, mas certamente eu estava conversando com outra pessoa e a inscrição ficou meio apagada na mente. Também no ano passado quando fui à casa/ viveiro da amiga Juliana Valentini e Flores, me lembro dela ter dito algo como "ah, esta fruta é meio bobinha, calabura, mas passarinho gosta". Era tanta novidade ali que não liguei muito para a árvore. Mas a inscrição ficou e só agora foi marcada para sempre. E é incrível como é assim que vou aprendendo. Então,  não me venha perguntar qual é o livro que tem tudo o que sei e que posto aqui no blog, afinal vou aprendendo e já disseminando, pois se um dia eu esquecer tudo, você poderá me salvar.

Então, nestes últimos cinco dias (Luciano me interpelou no dia 19) já me envolvei com a frutinha de várias formas. Primeiro, que segui a indicação e fui até a Lorena. Marcos e eu descemos vários quarteirões a pé, do conjunto nacional até a Alameda Lorena em plena sexta-feira quase já escurecendo. Chegamos lá e colhemos algumas frutas, fotografamos e comemos. Falhei em não recolher alguns galhos, pois fiquei sabendo que a planta pega por estaquia, além das sementes.

Bem, está aí, você já sabe a resposta: Calabura ou Muntingia calabura. Com o nome você pode procurar informações, mas se quiser esperar até amanhã, eu te conto tudo e mostro o que fiz com ela.  Este post está ficando grande demais.  Valeu, Luciano. Esta, fico lhe devendo. Continuo amanhã. 

6 comentários:

Juliana Valentini disse...

E eu falei isso da calabura, é? Nem me lembrava! Lembro mesmo é que Muntingia calabura talvez tenha sido o primeiro nome científico de planta que aprendi na vida. Foi ainda na infância, quando comia quilos da frutinha em frente à casa do meu pai, agrônomo. Não é árvore de grande importância ornamental, como dizem os do ramo, mas sem dúvida é amada por pássaros, peixes e crianças de outros tempos, quando ainda existia comer fruta direto do pé.
Um beijo!

bicho disse...

que bom passear por aqui ... sempre como essa frutinha e nunca soube seu nome :)

David Ramos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
David Ramos disse...

Minha mestra!
quanto tempo não te visito!

Sempre as frutas, algo que me chama atenção de monte.

Aqui nesta boa cidade, Indaiatuba, houve no processo paisagístico a escolha da calabura para ser plantada nos parques.
Sendo uma árvore exótica, não pertencente a nossa região, ela se deu absurdamente bem.
Mas por ser algo relativamente novo, pouquíssimas pessoas a conhecem, e ninguém prova da frutinha.
Claro, eu doido por bolinhas coloridas que dão em árvore, como o ano inteiro. Gosto muito, e realmente lembra suco de cacau e algo com marzipan tambem.
Só no parque do lado de casa existe umas 30 árvores e um monte de pequenas mudas esperando um lugar ao sol.

Neide Saudades daqui e de suas fantásticas sapiências e invenções culinárias.

Abraços
David Ramos

Guilherme Ranieri disse...

Onde ha 3 pes sempre carregados e na Usp Butanta, em frente ao bloco didadico da Biologia, na esquina esquerda , tendo como referencia a fachada do predio. Como sou alto, sempre me diverti com elas, onde as gentes nao alcancam e os passaros ignoram.

Guilherme Ranieri disse...

Uma curiosidade. A flor abre mais voltada pra cima, pra ser vista pelos insetos. Depois de fecundado, o pedunculo desce e a fruta se forma escondida entre as folhas. Por isso que sempre tem fruta no pe, mesmo vermelhinha: vista de cima, ela parece sem frutos. Vista de baixo, os frutos sao visiveis. Ou srja, parece feita pras gentes, que olham as ramas por baixo. Eu nao reclamo. haha.

Mas discordo do gosto de figo, sinto gosto de pipoca doce, aquela do saquinho cor-de-rosa, de milho branco.