terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Calabura, continuação

Polpa macia e suculenta salpicada de sementes crocantes 
Continuando o post de ontem: http://come-se.blogspot.com.br/2014/02/calabura-e-o-que-e.html

Os frutos têm pouco mais de um centímetro 
Bem, como disse, fomos buscar as frutinhas na Alameda Lorena (antes de me perguntar a localização exata, veja o link acima). Pegamos as frutinhas do chão para semente e as do pé para comer. Devia também ter pegado alguns galhos, mas não sabia que a planta pode ser reproduzida também por estaquia.  Agora sei.

A planta Muntingia calabura é uma espécie exótica, originária do México, Bolívia, Caribe e sul do Peru. Foi introduzida no Brasil no começo da década de 1960 pelo Instituto Agronômico de Campinas e logo se tornou árvore de interesse para reflorestamento pois cresce rapidamente, produz flores que atraem abelhas e produz frutos que chamam muitos pássaros e morcegos frugívoros. E o bom é que é resiliente quanto aos tipos de solo. Solo ácido, alcalino, pobre, seco, degradado, não tem tempo ruim para o crescimento da calabura.

Os frutos ficam protegidos pelas folhas - aqui o fruto verde
Meu amigo Guilherme Ranieri me contou que as flores são viradas pra cima para atrair insetos e quando os frutos começam a se desenvolver os pedúnculos pendem para baixo, ficando sob as folhas. Segundo ele, bom para pessoas que os podem enxergar e alcançar. Mas devemos nos lembrar que os morcegos também podem chegar por baixo e se há alguma queixa sobre esta espécie nas cidades é a atração de morcegos.  Ela é boa para ser plantada ao redor de rios e lagos, pois os peixes adoram os frutos que caem na água.

Engraçado que lembrei de vários fatos que me fizeram ignorar até então a frutinha. Mesmo o leitor Stefano já havia me perguntado sobre ela no final do ano passado. Mandou foto e tudo. Respondi que não sabia, mas me lembrei do nome calabura, para esquecer novamente em seguida.  Agora, como disse ontem, desta frutinha não vou me esquecer nunca mais.

Ela é gostosa, tem casca fina e comestível e polpa na forma de uma massa cremosa salpicada de micro-sementes que conferem textura macia-crocante. É quase como comer gônadas de ouriço do mar, mas só na textura. O sabor doce é peculiar, mas na tentativa de associá-lo a algo que nos é familiar aparecem descrições estranhas. O leitor Stefano diz que tem gosto de doce de padaria antiga. Guilherme acha que tem gosto de pipoca doce, aquela do saquinho cor-de-rosa, de milho branco.  Há quem diga que tem gosto de algodão doce, de figo, de manga, de cacau. Pra mim, é um mini caqui macio salpicado de crocantes.

Na Alameda Lorena, em São Paulo 
Na Alameda Lorena a árvore é bem grande, deve ter uns 8 metros de altura, mas por sorte um galho cresceu debruçado sobre a calçada e as bolinhas vermelhas pendentes dão aspecto de árvore da natal.  Além de não ter roubado galho algum, também não dei atenção às folhas, que servem de chá aromático não só porque é gostoso mas também porque é medicinal. Da próxima vez elas não me escapam. Dizem que têm propriedades parecidas com as do chá verde. Experimente procurar no Pubmed pelo nome científico da planta e verá quantos estudos sérios há por aí tanto com os frutos quanto com as folhas.  Os frutos popularmente são considerados afrodisíacos. E tanto folhas, flores, cascas e raízes são usadas tradicionalmente como protetores gástricos e para curar úlceras. Pelo menos em ratos, com o estrato das folhas, o efeito gastroprotetor já foi comprovado.   As frutas apresentam muitos antioxidantes e vitaminas e parece que tem indicações para atletas porque combate inflamações dos músculos e previne lesões.

Hoje esta fruta está espalhada por vários países de clima tropical. Conforme artigo publicado no site do Department of Horticulture and Landscape Architecture at Purdue University (veja o link do artigo completo), aqui estão os nomes da fruta mundo afora: "In Mexico, local names for the latter are capolin, palman, bersilana, jonote and puan; in Guatemala and Costa Rica, Muntingia calabura is called capulin blanco; in El Salvador, capulin de comer; in Panama, pasitoor majagüillo; in Colombia, chitató, majagüito, chirriador, acuruco, tapabotija and nigua; in Venezuela, majagua, majaguillo, mahaujo, guácimo hembra, cedrillo, niguo, niguito; in Ecuador, nigüito; in Peru,bolina, iumanasa, yumanaza, guinda yunanasa, or mullacahuayo; in Brazil, calabura or pau de seda; in Argentina, cedrillo majagua; in Cuba, capulina, chapuli; in Haiti, bois d' orme; bois de soie marron; in the Dominican Republic, memiso or memizo; in Guadeloupe, bois ramier or bois de soie; in the Philippines, datiles, ratiles, latires, cereza or seresa; in Thailand, takop farang or ta kob farang; in Cambodia, kakhop; in Vietnam, cay trung ca; in Malaya, buah cheri; kerukup siam or Japanese cherry; in India, Chinese cherry or Japanese cherry; in Ceylon, jam fruit". In Morton, J. 1987. Jamaica Cherry. p. 65–69. In: Fruits of warm climates. Julia F. Morton, Miami, FL - publicado aqui.

E o que estamos esperando para sair à caça desta frutinha tão bem adaptada ao nosso clima e solo? Na Usp há algumas árvores e espalhadas pelas ruas de São Paulo também. O leitor David Ramos diz que em Indaiatuba há vários pés na praça, mas ninguém dá muita bola. Por que será que a gente só quer o que está longe?  As cerejas do Chile, o figo de Israel, a romã da Califórnia? Vamos dar uma olhada no que já temos adaptado por aqui?  E fazer geleias, doces, compotas, sorvetes, molhos para carne etc. 

As sementes possuem uma mucilagem. Para lavar, basta
juntar bastante água num vidro, chacoalhar e coar em tecido
fino. Seque e guarde para plantar. Veja na última foto o
tamanho minúsculo das sementes em comparação com outras
minúsculas, amaranto branco e amaranto vermelho 
O que fiz com minhas poucas frutinhas colhidas foi separar as sementes das que pretendo plantar e congelar as outras, já que não tive tempo de lidar com elas no dia da colheita. E, como desconfiava diante da extrema doçura, as frutas congeladas não endurecem e ficam como sorvetes mastigáveis com micro-pérolas friáveis. Mas não comi todas assim, não. Pensando num foie gras com molho de framboesas, resolvi aproveitar o fígado do pato recém chegado de Piracaia e fazer um molho para ele. Achei que combinaria e não errei.
 


Fígado de pato com molho de cebola e calabura. Temperei o fígado com sal e pimenta-do-reino e fritei um minuto de cada lado em manteiga misturada com azeite. Embrulhei em papel alumínio e deixei assim por 15 minutos para terminar de cozinhar. Enquanto isso, fiz o molho. Coloquei numa pequena frigideira uma colher (chá) de manteiga e 1/4 de cebola roxa média. Juntei meia colher (chá) de açúcar e deixei dourar. Acrescentei as calaburas (um punhado), umas folhinhas de manjerona, 1 colher (sopa) de licor de laranja e 1 colher (chá) de vinagre de Jerez. Polvilhei sal e deixei ferver um minuto. Despejei sobre o fígado morno, juntei um pedaço de pão torrado e nhac! em duas ou três mordidas. 

Nhac!








13 comentários:

DERCILIA PINHEIRO disse...

Neide agora fiquei curiosa ,quero uma muda dessa pra plantar lá na roça.Nunca tinha ouvido falar nela,obrigada pelo post .

voutandoasermenina.blogsport.com.br

Alessandra disse...

Tudo lindo por aqui , bjs

Ana Carolina disse...

Na USP?! Onde? Fiquei curiosa! Como sempre, adoro os seus posts =)

Beth disse...

Engraçado que há mais de um mês meu primo me mostrou umas árvores dessas numa área verde da zona leste (Av. Gov Carvalho Pinto ou Tiquatira para os íntimos) com várias frutinhas no pé. Comi meio com medo mas achei super doce e fiquei curiosa. Tirei umas fotos pensando em enviar para você, porque ninguém, nem mesmo quem cuida da área soube nos informar o nome...Mas bateu a preguiça e acabei não enviando...Ainda bem que alguém menos preguiçoso fez isso e matou nossa curiosidade....

Marcos disse...

Neide, adoro seu blog! Quando morava em SP, até 2002, achei varias dessas arvores, ainda arbustos, no parque Vila Lobos. Devem estar bem grandes agora. Na época também experimentei uma. Como não morri, rsrs, no outro dia comi duas. Não demorou para meus destinos finais nos passeios de bicicleta serem todos no parque atrás das frutinhas. Atualmente moro em Atibaia e encontrei duas arvores no lago do Jardim do Lago. Mas aqui não sei o que acontece, apesar de carregada, poucas amadurecem. E para entrar na polêmica do sabor, para mim parecem recheadas com doce de leite ou leite condensado com sementinhas crocante.

Neide Rigo disse...

Você deve encontrar mudas em viveiros como o Ciprest.

Obrigada, Alessandra!

Ana Carolina, tem perto da biologia.

Beth, agora já sabe que pode se esbaldar.

Marcos, vou procurar no parque Vila Lobos. Obrigada pela dica. Acho que não é porque poucas amadurecem mas sim porque os bichos chegam antes de você.

Um abraço,n

Joelita disse...

Bom dia, Dona Neide,

A calabura é mesmo um show para atrair passarinhos de todos os tipos. De minha experiência com ela, o que percebi foi que, talvez por crescer muito rápido, ela também meio que "morre" rápido, isto é, galhos grandes vão secando e tal. O que não chega a ser um problema, porque muitos filhos vão nascendo por perto. Não é mágico que de uma semente tão minúscula cresça uma árvore tão grande e fértil?

David Ramos disse...

Ola Mestra!

Aqui é muito fácil conseguir uma muda.
A Secretaria de Meio Ambiente e Urbanização disponibiliza para plantio público. (na porta da sua casa)

Hoje estive reparando, as árvores estão forradas das frutas... creio que seja o pico da produção, já que ela frutifica o ano todo, pelo menos por aqui.

Beijos Mestra!!

Crist Silva disse...

Olá Neide já faz uns dias que não passo por aqui,essa frutinha já conhecia,aqui perto de casa tem varias arvores,Sempre comemos,minha filha ama,mas o problema é que a arvore é muito alta,tinha uma que era baixa tinha vários galhos ao alcance,mas a prefeitura fez favor de cortar,mas vamos comer em outro lugar quando não alcançamos pegamos um galho e puxamos sem quebrar até vir o outro.mas esse dias aconteceu algo ruim ,tem uma arvore parecida com essa ,eu vi que tinha muitas frutas estava lindo ,desconfiei minha amiga já tinha me falado que tinha confundido,mas sou curiosa mordi só a pontinha,dai o gosto horrível ,elas se parecem muito,mas o gosto não tem nada a ver.Mas agora vou pegar as folhas pro chá ,beijos continue a nós surpreender.

Anônimo disse...

Gostaria de saber se a calabura é planta invasora, acho que é.

WOODROW WILSON disse...

Estou tentando fazer mudas de sementes, mas elas não nascem. Tentei achar um meio de reproduzi-las no google e anda.
Alguém save o tipo de substrato,iluminação, umidade,etc?
Agradeço a ajuda pessoal.
A planta é show!!!

Anônimo disse...

estou me deliciando com essas frutinhas,aqui em Ouro Preto D'Oeste só as crianças sabem o verdadeiro gosto,isso quando seus pais não falam que é veneno rsrsrsr. aqui mudas de sobra espalhadas em baixo do pé.

Centopeia disse...

São deliciosas e acabei de colher uma cesta delas aqui em Pinheirs - São Paulo. coloquei as sementes na horta urbana que mantenho, mas vou coletar algumas estacas também. Incrivelmente doces....