quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Comidas de Piracaia. De onde vem, pra onde vão

Abobrinhas colhidas, doces, doces
O tempo é muito curto em Piracaia. Este é o defeito de lá. Geralmente chegamos no sábado já na hora do almoço e voltamos no domingo no final da tarde. Não vejo a hora de poder ficar mais, mas por enquanto ainda temos que passar a semana em São Paulo. 

E o trânsito, o asfalto hostil e a poluição me fazem apetecer ainda mais este hiato no campo. Então, quando estamos lá, não paramos um minuto, aproveitando cada detalhe. Na chegada já nos costumamos a passar no supermercado Goyo, no bairro Batatuba, onde encontramos ótima carne e um ótimo açougueiro  - Seu João faz uma linguiça de porco deliciosa, só com temperos que a gente conhece o nome. Às vezes chego e ela está enchendo as tripas. Do porco destrinchado por ele, tira os dois joelhos, embala e coloca na gôndola. Comprei os dois desta vez. Diz que não se pode desperdiçar nada. As pontas disso e daquilo,  moi e rotula "carne pra cachorro". 

No caminho, antes de chegar ao nosso sitio, dei sorte de encontrar um pé de framboesa da montanha crescendo despercebido, cheio de frutinhas verdes. Na próxima ida, já devo encontrá-las maduras.  Quando chego ao sítio, antes de entrar em casa corro pra ver as novidades, do que nasceu, do que cresceu, madurou. Dentro, novidades sobre a mesa, abacates, bananas,  amoras, ovos de galinha e de pata. No freezer, galinha caipira e litros de leite. Todos trazidos do sítio dos nossos caseiros Silvana e Carlos. 

Minha irmã e meu cunhado almoçaram com a gente no sábado e foram embora no fim da tarde. Antes disso, tivemos visita da leitora Júlia com o marido Marcos, filho deles, filho dele e neta da dona Maria que estava junto. A casa ficou cheia e alegre.  Passamos momentos gostosos de conversa na varanda, comendo bolo de fubá - não tinha erva-doce, coloquei folhas de funcho, que deu a ele um aspecto divertido. Suzana, minha irmã, apelidou-o de bolo peludo, para graça das crianças.  Dona Maria ensinou a usar folhas de mamão para tirar manchas de roupa - e no dia seguinte, lá estava eu fazendo sabão e testando folha de mamão na toalha suja. Funciona.  E inventei de testar contra pulgões. Funciona também . Depois falo disto.

No domingo acordei cedinho e vi pássaros novos que devem estar migrando pra lá nesta temporada. E descobri feliz que no laguinho já tem peixes grandes (talvez trazidos por pássaros?) que não se pareciam com tilápias, bons logo logo para serem comidos.  Um deles tem uma pinta redonda na lateral igual a um tucunaré. Que tipo será?  

Fernando, o vizinho, chega com o filho menino, cada um montado no seu cavalo, pelo lado oposto ao portão, saindo da floresta de eucaliptos em ligeiro estardalhaço para grande susto da cachorra, sendo que nós já nos acostumamos. Senta um pouco, proseia, ganha alface, toma água, fala dos escambos e dois partem, pocotó pocotó.  O dia se vai indo também.

Ainda colhi todas as ervilhas doces que já começavam a secar (aquelas que ganhei da Marisa Ono, que se plantam no outono), admirei a horta com os repolhos agora com cara repolhuda, verdinhos, apetitosos; as folhas de cebola, grossas e fartas; os tomateiros  saudáveis que perfumam quando esbarro sem querer - logo teremos tomates. Outros frutos se anunciam com vigor - pitanga, pêssego, manga, araçá vermelho, araçá branco, goiaba. As amoras e as cabeludinhas estão quase prontas pra comer.  E com tantas alfaces de toda cor colhi carurus/ bredos para fazer com polenta. Para compor o prato, ainda colhi abobrinhas com flores. E uma única berinjela que viajou pra São Paulo e já foi pra panela com o joelho de porco. 

Para os gatinhos, deixei comida pronta - desta vez, fígado com quirera, aveia e folhas de alface de todo tipo e de repolho super picadas. Como a nata se acumulava, fiz também manteiga. Fiz a feira de fim de tarde e voltamos pra casa desviando do gado na estrada de chão empoeirada, ladeada pelo por do sol vermelhando o céu, nos despedindo da corujinha que pousa no toco, ultrapassando charretes em Piracaia, carros na rodovia e pronto, cá estamos.

Claro, trouxe trabalho pra casa  - debulhar as ervilhas colhidas, fazer geleia com as amoras colhidas pelo Carlos e Silvana, achar usos para a cesta de verduras etc.

E, pra quem quiser conhecer Piracaia, nos dias 13 e 14 haverá a Feira da Lua. A associação Piracaia Orgânica estará lá vendendo produtos dos associados e também dando uma palestra no dia 14. Apareça. Veja o convite aqui.  

Ovos de galinha e de pata

A primeira berinjela 

Cebolas e alhos

Ervilhas doces

A primeira pitanga

Alfaces vermelhas - tenho dó de arrancar 

Ingredientes do molho para as fatias de polenta ao forno

Meio quilo de manteiga pronta, a partir do leite que compro dos caseiros


Tomateiros

Polenta com bredo


Buquês de repolho - estas folhas externas são deliciosas

Inveja da Maria

Testes de extermínio de pulgões a partir de folhas de mamão

Bolo de fubá peludo - com folhas de erva-doce

Biju de tudo quer saber. Hum... acho que vou gostar 
As últimas flores de ipê da temporada

17 comentários:

Anônimo disse...

Que delícia o teu texto.
Dá uma vontade louca de voltar ao campo, de ser feliz!!!
Beijo,
Júlia

Leticia Cinto disse...

Que lindo, Neide! Tem coisa melhor que ver o sítio se desenvolver, as plantas crescerem, as frutas madurarem? Com certeza é o melhor fim de semana do mundo :) bjs!

alexandre e alana disse...

Qual a distância do sítio até são paulo?
O nosso é distante 90 km da nossa casa. O incoveniente é ter que atravessar toda a porto alegre, pois moramos na região sul da cidade e o sítio é no lado norte.

Eliane disse...

Sabe do que lembrei com teu post?
Lembrei dos primeiros que escrevesse contando de Piracaia, da terra seca, do capim que tomava conta de tudo, das sementes que jogavas ao leu pra ver o que dava, de como foste dando vida pra esse teu canto. Fiquei feliz de poder acompanhar teu progresso e ver que ja esta ficando do jeito que gostas. Felicidades pra ti em Piracaia.Um beijo grande da Eliane.

Anônimo disse...

E relação ao peixe, parecido com tucunaré, são Caras...http://zip.net/bxkRqd

Ana Affonso disse...

Outro dia comentei sobre a história de dar comida de gente para cachorros. Temos opiniões diferentes. Super normal. Achei melhor comentar de novo para dizer o quanto o seu blog me inspira. A forma como você encara a comida, os ingredientes,o seu conhecimento sobre plantas e gente e isso tudo deve ter contribuído uns 10% na escolha do meu curso de gestão ambiental. 10% não uns 26%. Leio sempre, leio há muito tempo e os textos são sempre ótimos. Sinto falta do blog no facebook e de vídeos, imagino um canal seu no youtube. Seria divertido. Temos mesmo opiniões diferentes mas isso só mostra como aprecio o seu trabalho na internet. Sabe o livro sobre agroecologia que apareceu em um post, então qual é o título? Beijos , Ana



Neide Rigo disse...

É sempre bom este contato, Júlia. Pra quem gosta, claro.

Letícia, sonho com um fim de semana mais largo..

Alexandre e Alana, o sítio fica a cerca de 100 km. Pois é, seria rápido não fosse o trânsito.

Eliane, você viu? daqui a pouco vou ter que cercar um pedacinho para preservar a braquiária.

Anônimo, será cará? Se for, ficarei feliz - peixe tipicamente brasileiro.

Ana, que bom saber que o Come-se te inspira. Quanto às diferenças de opinião, esta é a graça de viver, né? Cruz credo encontrar um monte de neides por aí. Seria muita chatice junta. Só não faço mais vídeos por incapacidade técnica (com a outra câmera, eu conseguia passar par o computador e editar - agora não consigo mais - preciso me empenhar pra resolver isto). Quanto ao facebook, estou fora, mas talvez o Come-se devesse entrar, né? vou pensar. E sobre o livro, onde ele apareceu? Não me lembro.

Um abraço,n

Ana Affonso disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ana Affonso disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ana Affonso disse...

Neide, concordamos em relação a opiniões diferentes mas mudo sempre de opinião. Quanto ao facebook (do come-se, é claro), acho interessante porque é mais fácil comentar, encontrar gente que se preocupa e se interessa pelas mesmas coisas. o livro: http://2.bp.blogspot.com/-oXCc5WShKmU/UgVa6sIE97I/AAAAAAABB_A/wOGjp65QWiQ/s1600/curso+de+horta+cec%25C3%25ADlia+meireles.jpg o deitadinho

Anônimo disse...

Dura, mas deliciosa a vida no campo.

E por falar nas folhas "de fora" do repolho, são realmente deliciosas, assim como da beterraba, couve flor e outras, mas nos mercados e mesmo nas feiras!! não as encontramos.... uma pena!

Beijos, Raquel.

Neide Rigo disse...

Ana, é o livro Agroecologia: processos ecológicos em agricultura sustentável
(Stephen Richard Gliessman). Pode ser comprado aqui: http://www.ufrgs.br/pgdr/livros/serie_estudos_rurais/livro_09.php?menu=4&codMenu=69

Raquel, sim, a gente só pode consumir se planta. Uma pena, né?

fernando allgayer disse...

Neide: eu faço igualzinho uando chego ao sítio,a última coisa é entrar em casa, tenho que olhar tudo, cada plantinha, uma a uma. Às, vezes chego a noite e só entro primeiro em casa para pegar a lanterna, sim, não me aguento vou pelo menos olhar a horta de lanterna. è quase um vício. Um abraço e parabéns pelo sítio.
Fernando - Porto Alegre

Neide Rigo disse...

Fernando, eu nunca chego à noite no sítio, mas se chegar vai ser assim também.

Um abraço,n

Robinson disse...

Que delícia, Neide,

Minha família é toda lá de Batatuba; sempre que paro ler sua alegria com Piracaia eu me pego andando por lá, mesmo estando nessa cimenteira de SP.

julia spelta disse...

Foi mesmo uma tarde gostosa. Ate mesmo dona Maria, que não desliga minuto de voltar, pra nosso espanto relaxou com o bom papo. E sao muitos os causos que ela conta do sertão donde ela veio, e o pe de manga que da frutos há duzentos anos!? Entra ano e alguém traz pra ela fazer doce, o doce azedinho mais incrível e uma textura de doce de batatas doces. E a vida segue, entre o caos da babylon e os ranchos que visitamos, ora, ate construir o nosso. Beijos em todxs, um carinho especial na Dendê e nas gatas.

Silvia disse...

Neide,
E sobre o uso da folha de mamão para tirar manchas?