quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Jeitos de adquirir comida. Ou orgânicos no Patronato de S. J. dos Pinhais


Horta orgânica no Patronato, em S.J. dos Pinhais
Muita gente reclama comigo,  que eu sou esquisita, que falo de ingredientes estranhos que ninguém acha pra comprar, que não pode ser encontrado nas feiras livres ou supermercados. Acontece que um mundo paralelo de trânsito de mercadorias flui por aí indiferente aos modos convencionais de aquisição. 

Quando me distancio um pouco dos meus pais e volto a revê-los, me descubro ali nos pormenores de um jeito de conseguir comida um pouco diferente do praticado pela maioria. Supermercado é só para uma coisa ou outra. O resto,  a gente vai compondo. 

Em Fartura meus pais plantavam, colhiam e processavam o próprio café, tinham pomar, horta, criavam galinha e tiravam quase tudo do sítio. O arroz, cateto, compravam em Carlópolis, no Paraná. Mas quando moravam aqui, na periferia de São Paulo, onde nasci, o mocotó tinha que vir do Mercado da Lapa; a galinha boa era da japonesa, que eu ia buscar e trazia pelos pés amarrados com tiras de pano que eu cortava e levava pra ter desconto; o  pão de todo dia quando não era caseiro era da venda do português Seu Salvador, mas a broa de milho bem quente com erva-doce era da padaria de baixo, pois saía do forno justo na hora do nosso chá da tarde. 

E agora, em São José dos Pinhais, onde estão morando, não é diferente. O leite cru vem de uma propriedade lá perto, de uns poloneses. Meu pai vai a cada dois dias buscar leite integral ainda morno. É com este leite que minha mãe continua fazendo seu queijo. Mas quando querem um queijo já maturado,  vão comprar no Patronato, que vende também hortaliças orgânicas.  O mel, compram da Vandite e Seu Zé.  A galinha continua vindo do quintal, assim como o chuchu, a taioba, etc.  Quando querem uma carne de fumeiro, instalam o acém de açougue salgado sobre a fumaça do fogão de lenha.  Cheguei lá com umas linguiças artesanais feitas em Piracaia e meu pai foi logo colocando num varal sobre o fogão. No terceiro dia estavam deliciosamente defumadas e boas. Não fiquei pra ver o preparo, mas já sei que minha mãe vai fazer com favas brancas ou talvez grão-de-bico. 


Soprando a lenha 

Outro dia,  foram viajar os dois e, no caminho, compraram um saco de café em grão, do Norte do Paraná, para torrar e moer em casa,  pois, dizem, por ali ainda não encontraram café bom, não conseguem tomar café comprado em supermercado, não encontram café com boa torração. Pelo menos não ao preço razoável que aceitariam pagar por um café decente - nada que tenha anexado a palavra gourmet, pois nem sabem o que isto quer dizer, mas que seja bom, só isso. Meu pai torra no ponto que considera o correto. Do jeito que eles gostam, um café bem caipira.  Trouxeram também na mesma viagem um saco de arroz cateto. E assim vão indo, assim vão comendo e bebendo com prazer.  


Desta vez eu estava muito desligada de fotografias ou experiências para o blog e deixei de registrar  muita coisa interessante, como o passeio que se segue e do qual só tenho estas duas fotos. Numa saída com meu pai para comprar leite nos poloneses, passamos também no Patronato Santo Antônio de S.J.dos Pinhais, uma instituição filantrópica que atende a crianças e jovens, tocada por freiras - para comprar, colaborar, visitar, veja o site:  http://www.patronatosantoantonio.org.br/. O lugar é lindo, todo florido e bem cuidado. Há ali não só uma horta com produtos orgânicos (a gente não pode nem entrar pra não contaminar), com preços muito baratos, mas também uma farta produção de queijo de leite cru. Parece redundância dizer isto, de leite cru,  para quem produz queijo artesanal por aí, mas o fato é que todo queijo de supermercado é feito com leite pasteurizado e quase todo queijo feito Brasil afora, nas casas e queijarias pequenas, e não é pouco, é feito com leite cru.  E vêm nos dizer que devemos evitar queijo de leite cru, que pode transmitir doenças... balela. Meus bisavós paranaenses já faziam queijos e deixavam maturar para prolongar a vida útil do leite que não davam conta de beber e não tinham pra quem vender. Os mineiros fazem isto melhor que ninguém. E por aí todo mundo sabe, queijo bom é feito de leite cru que tem imunidade para maturar sem estragar.  Mas é isto, no Patronato pode-se comprar queijos e verduras.  E o recado é que você também pode compor seu prato com alimentos do supermercado, da feira, do seu quintal e também com aqueles comprados direto dos produtores - eles estão por aí. É só ficar atento ao que quer comer.   

Dona Aparecida, de Piracaia, vende cocada de fita na
porta de casa





11 comentários:

Anônimo disse...

Realmente algumas coisas que você fala são difíceis de encontram ou estranhas, pelo menos pra mim que moro no Nordeste, mas por outro lado é tão bom conhecer coisas novas. Você desperta a nossa curiosidade, tanto pra conhecer aquilo que nos é estranho como para conhecer aquilo que nunca vimos ou comemos. E é exatamente ai que está o que mais me atrai no Come-se. Obrigada por suas contribuições e quisera eu poder ter as mesmas opções que você tem na hora de comprar seus alimentos e ingredientes
Abraços!
Hildeny Medeiros-Teresina/PI

Marta disse...

Oi Neide,
não foram necessario as fotos que vc.não tirou (só as das linguiças defumando em cima do fogão a lenha e a horta organica do patronato, valeu). Pela maneira como vc. descreveu como plantar, usar, procurar e comer os produtos tive uma visão completa de como existem lugares e pessoas ai que ainda usam os mesmo metodos que fui acostumada. Por tuas viagens e relatos do que se passa no Brasil a respeito de alimentação, é uma das razão por que sigo teu blog.

Paulo disse...

Oi Neide,
Nao moro no Brasil e sigo seu blog ha tempos. Ele me deixa mais proximo de minhas raizes, dos produtos da terra, dos cozinheiros da roça... me lembro sempre de meu avô paterno que "produzia"em sua horta para que minha avo cozinhasse ... OBRIGADO
Paulo

Beth disse...

Puxa, onde fica a Dona Aparecida em Piracaia? Preciso ir lá.....

Cida Faria disse...

Que família linda você tem! E que trabalho importante esse de incentivar as pessoas a olhar, descobrir e experimentar algo novo. Parabéns!

Anônimo disse...

É a coisa mais linda que já li nos últimos tempos! Também vivo garimpando uma coisinha aqui, outra ali. Com isso, a alimentação da nossa casa mudou muito, nosso paladar mudou também. Outro dia temperei a comida só com aquelas bolinhas e florzinhas q brotam do cominho esquecido no jardim. Olha, dispensou todo e qualquer sal! Delícia! Obrigada pelo blog!!!! Gabriela

Anônimo disse...

Neide, vc pode fazer um post com o galineiro urbano dos seus pais? Gabriela.

Anônimo disse...

Neide, você pode fazer um POST com o galinheiro urbano dos seus pais? Gabriela.

Dricka disse...

Pois eu adoro suas esquisitices! Tá pipocando de bons blogs por ai que falam sobre os ingredientes comuns, passam receitas deliciosas, mas o seu blog não é sobre receitas, é sobre conhecimento e respeito com os alimentos, a natureza e nosso corpo. Não mude, amamos esse blog exatamente assim. Sempre digo que se seu blog fosse impresso, minha edição estaria toda esfolada de tanto manuseio.
bjs

Leticia Cinto disse...

Muito legal o post! E a gente sempre tem tb a colheita urbana para se abastecer (to de olho numa jaquinha para fazer desfiada). Adorei a maneira como seus pais vivem, muito mais legal do que fazer "compra do mês" num hipermercado. Bjs

Anônimo disse...

Neide, parabéns pelo post. Continue assim, não mude, desta forma estaremos sempre aprendendo..rs...
Sobre o queijo de leite cru, outro dia eu e meu marido compramos leite cru de um senhor de um assentamento; em casa, tentamos fazer uma pasteurização, aquecendo a uma determinada temperatura, conforme orientação de um professor de uma escola de alimentos, agora não me lembro o tempo, depois tentamos resfriá-lo rapidamente (esse é o problema....). O queijo ficou ótimoooo... muito melhor que os de mercado. A dúvida realmente era sobre a necessidade de pasteurizar e a dificuldade de fazer isso em casa.
Abraços, Raquel.

rwichguimaraes@ig.com.br