sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Livre-se dos picões do seu jardim. Coma-os. Ou sopa de inhame com picão


Muita gente só conhece o picão (Bidens pilosa) por causa do incômodo daquelas agulhinhas pretas dentadas, que grudam na nossa roupa quando andamos no mato,  pedindo pelamordedeus pra levarmos sua raça pra outro canto. Obedientes, nos sentamos numa cadeira, longe do ataque, e vamos tirando agulha por agulha e jogando-as no chão. Assim, ajudamos a perpetuar a espécie. Tão mal tratada, tão negligenciada, ela precisava de algum recurso para se multiplicar por aí afinal. E como aprendeu isto bem.  É uma das principais pragas no mundo tropical, só reproduzindo o que dizem dela por aí. Mas veja bem, sabendo que o picão é comestível e gostoso, assim como várias plantas do gênero Bidens
(Bidens bipinnata, Bidens frondosa, Bidens odorata, Bidens parvifolia, Bidens tripartita e Bidens laevis), se fosse vista com olhares complacentes e gulosos, poucas chegariam à fase adulta para dar  flores, essenciais para abelhas, diga-se,  e frutos (ou aquênios, as agulhas pretas), pois as folhas mais jovens são as melhores para se comer. E, claro, a população (de picões, gentes e borboletas) estaria salva e sob controle. 


A planta é nutritiva, tem boa quantidade de ferro, cálcio e pró-vitamina A, além de ser, como todas as verduras, rica em fibras, pobre em calorias e gorduras. Na medicina popular entre os índios da Amazônia é tida como remédio para angina, diabetes, disenteria, aftosa, hepatite, laringite etc.  E muitos estudos farmacológicos recentes feitos mundo afora já comprovaram algumas propriedades. É, por exemplo, hepato-protetora e seu extrato mostrou-se inibidor da síntese de prostaglandina, ligada a dores de cabeça e doenças inflamatórias e isto não é pouca coisa. Se além de tudo isto, ainda é gostosa, por que não comemos mais picões que crescem livremente em jardins, roças e pomares? Tão rústico, não precisa de adubos nem de defensivos. Tão diferente daquelas alfaces frágeis que passam o diabo pra chegarem íntegras à nossa mesa. 

Bem, acho que você não vai ter problemas para reconhecer um pé de picão no jardim. Mas se acontecer alguma confusão, certamente estará diante de uma outra espécie, Bidens alba, também comestível, ainda mais gostosa, dizem.  A planta é mais alta e as flores se parecem com mini-margaridinhas, com pequenas pétalas brancas e caules mais claros que os da B.pilosa que tem coloração ligeiramente arroxeada. Ainda não a descobri aqui no meu bairro.  De qualquer forma, o picão-preto, de flores amarelas fechadinhas e carrapicho,  é fácil de encontrar. Responde também pelos nomes de amor-seco, carrapicho-de-agulha, fura-capa, guambu, macela-do-campo, picão-das-horas entre outras. 

Só uma coisa, não é bom comer crua pois podem ter saponinas -  outras plantas comestíveis também tem. Em excesso, estas substâncias podem ser irritantes para a mucosa intestinal. Use a erva em cozidos ou afervente com água e sal antes, mesmo porque ela é um pouco firme e precisa de alguns minutos de cozimento para que fique macia. O sabor é algo como folhas de cenoura, jambu e espinafre. 

Então, fica aqui a dica. Depois de pular bastante e beber todas, enfie a cara numa tigela de sopa quente,  apimentada, revigorante e hepatoprotetora. Sopa, no calor? Bem, lembre-se que o prognóstico climático para os próximos dias não é muito animador (para mim, lá em Piracaia, vou adorar uma chuvinha) e uma sopa assim pode cair melhor que uma salada, sem, claro, querer aguar sua empolgação carnavalesca. Boa folia e até quinta! 

Sopa de inhame com picão 


Primeiro, saia à caça de picões. Vai encontrá-los numa calçada mais rústica ou num terreno abandonado. É época deles. Separe as folhas mais tenras, que rendam mais ou menos duas xícaras de chá. Lave bem, escorra e reserve. Faça um caldo de galinha com carcaça, dentes de alho, galhos de salsa, feno-grego, grãos de coentro, cúrcuma e pimenta (ou faça do seu jeito). Cozinhe um taro (inhame) e pique em cubos. Coe e desengordure o caldo. Coloque 1 colher (sopa) desta gordura numa panela com um dente de alho picado e deixe começar a dourar. Junte uma xícara do caldo e as ervas. Deixe cozinhar por 10 minutos. Acrescente o caldo restante - cerca de 3 xícaras,  o taro picado e uma pimenta ardida picada (a gosto). Prove o sal e corrija, se necessário. Se quiser, junte lascas de carne da carcaça do frango e deixe ferver. Se não quiser, vai ficar boa de todo jeito. Se preferir, use caldo de vegetais. E nhac!! Para duas pessoas. 

Veja sobre a erva também aqui, com valor nutricional e tudo o mais: 
http://www.eattheweeds.com/spanish-needles-pitchfork-weed/
Agradecimentos ao Guilherme Ranieri que me lembrou que era tempo de picões! 

11 comentários:

Guilherme Ranieri disse...

Neide, quando você contou que achou alguns picões, eu não tinha imaginado que você encontrou uma floresta deles! Que lindos!

João Inácio disse...

O picão de flores maiores (bidens alba) é, na minha opinião, uma planta muito bonita e já encontrei jardins em que ele estava plantado (ou havia nascido, vá lá) entre pedras e à beira de lagos. Bastante comum aqui no Sul.

Aliás, vários "matos comestíveis" ou medicinais são bonitos no jardim e os britânicos são especialista no uso deles na jardinagem, como os dentes-de-leão, os solidagos (estamos na época deles) e as trapoerabas, ainda mais quando estão no auge da floração. Sobre as trapoerabas, aliás, existem vários sites e blogs dedicados exclusivamente a estas plantas.

Tenho alguns vasos com tradescantia fluminensis e quando elas ficam cheias de flores brancas na primavera não tem quem não ache espetacular. É tudo uma questão de modificar o olhar que temos da natureza.

Exemplificando o que digo, aqui vão alguns links:

http://ivynettle.wordpress.com/2010/06/26/a-tangle-of-tradescantias/

http://www.cactus-art.biz/schede/TRADESCANTIA/Tradescantia%20navicularis/Tradescantia_navicularis/tradescantia_navicularis.htm

http://gemsandstems.ecrater.com/p/10934521/rainbow-wandering-jew-tradescantia-fluminensis-1

http://majikphil.blogspot.com.br/2012/09/wandering-jew.html

Grande abraço!

Nadia Marrach disse...

Neide, que ótima informação. O (agora) bendito picão é uma praga aqui em casa, pois nós mesmos cuidamos do quintal e às vezes não damos conta. O mato vem que vem todo animado. É claro que serralha, serralhinha, beldroega, trapoeraba são bem vindas mas o picão eu abominava....até agora!. Vou experimentar o refogadinho. Beijos e bom descanso lá no seu paraíso.

Anônimo disse...

Neide, que interessante, eu não sabia que o picão era comestível. Só me lembrava do banho de chá de picão que eu dei no meu filho, bem novinho, ele teve icterícia e disseram que era bom, nem sei se era, mas dei o banho assim mesmo. Hoje, comentando com a minha mãe sobre suas receitas (levei para ela o pão doce de abóbora com passas), falamos sobre o picão e ela disse que quando criança comeu muito, que naquela época não havia tantos legumes e nem dinheiro para comprar, assim comiam picão, serralha, caruru, orelha-de-padre, etc, etc. O interessante é que ela te conheceu primeiro, pois é assinante do jornal e não perde a coluna Paladar. Mas não se anima a aprender a usar computador rsrsrs ... Liliana

Marcelo dos Santos disse...

Pra mim o melhor blog que já conheci em todos os tempos.
Parabéns

Anônimo disse...

Não sabia que o picão é comestível. Vou baixar nos meus, só que vou experimentar ensopado engrossado com farinha de milho. Acho que vai ficar bom! Obrigada por compartilhar mais esse conhecimento. Abç

by tina fusco disse...

Neide, desde que descobri o Come-se me apaixonei e adoro receber seus e-mail. Graças a eles eu descobri os poderes do picão, que na minha infância era visto por toda parte. Eu voltava das aventuras pela vizinhança cheia das agulhinhas pretas que davam um trabalho imenso pra tirar.
Ontem, passando numa praça na V. Mariana, em São Paulo, ví um pezinho pequenino de picão. Roubei pra mim. Sim, roubei. No meu trabalho eu o plantei num copinho e o trouxe pra casa como quem traz um tesouro.Ele está lindinho. E não vejo a hora de comer umas folhas numa sopa bem gostosa!
Obrigada, viu? Quero ler vc muito, muito! Abraços

Neide Rigo disse...

Poxa, Tina! Picão no vaso? Nunca pensei. Obrigada pelos elogios ao Come-se. Um abraço, n

Anônimo disse...

Que bom que podemos comer também. Já faço chá para proteção do fígado.
Vou experimentar com caldo de fubá ralinho, com calabresa e bacon. Com caruru também é ótimo! Especial para dias frios.
Édna.

Anônimo disse...

Que bom que podemos comer também. Já faço chá para proteção do fígado.
Vou experimentar com caldo de fubá ralinho, com calabresa e bacon. Com caruru também é ótimo! Especial para dias frios.
Édna.

Anônimo disse...

Oi Neide, me chamo Cibele,e não sabia que outras pessoas também comiam picão! Só que eu como ele cru mesmo, parece rúcula. Eu já tive hepatite e meu fígado é preguiçoso pra caramba, aí eu pego as folhinhas do picão e como mesmo! Até mais, um abraço! ;)