terça-feira, 17 de julho de 2012

Canjiquinha branca ou amarela, solta pra sempre quirerinha

Outro dia ganhei da leitora Nilce uns mimos de sua terra, Espera Feliz, cidade do interior de Minas, próxima à Serra do Caparaó, já pertinho do Espírito Santo e Rio de Janeiro. Entre os presentes, uma canjiquinha branca, mais rara por aqui, para não dizer desconhecida. 


Antes que ela me dissesse qual é o jeito clássico de se preparar a iguaria em Espera Feliz, não quis esperar e preparei como costumo fazer com a amarela. 


Outros presentes que chegaram com a canjiquinha branca
Canjiquinha ou quirerinha é o milho branco ou amarelo, sem película, quebrado grosseiramente. Às vezes há muita disparidade entre o menor e o maior tamanho de grânulo e isto  pode dificultar o cozimento. Por isto é bom sempre passar por peneira antes de cozinhar.  Os grânulos mais finos podem ser usados como polenta. E os mais graúdos, como de costume. Costumo preparar canjiquinha mole, com frango, ensopada com carne de porco, ou em sopa com ovos ou legumes, mas gosto também de fazer como arroz, usando as mesmas medidas, uma parte de grãos  para duas de água, refogada antes com manteiga ou banha e alho amassado e temperada com sal e talvez um pouco de pimenta.  Fica gostosa e agradável de se comer quando recém tirada do fogo, ainda macia, cremosa, mas ao esfriar logo gelatiniza como um manjar, formando grandes grumos pouco convidativos para uma próxima refeição. 


Quando preciso reaquecer canjiquinha neste estado lastimável,  a peneira entra novamente em jogo. O que faço é passar a sobra ainda fria ou gelada pela peneira de malha grossa. E isto, além de necessário, às vezes é meu desejo e os grumos são premeditados. Assim, consigo grânulos macios e soltos que podem ser reaquecidos em panela de vapor e servidos sem urgência.  Eles continuarão soltinhos como cuscuz. 


Mas hoje não foi nada planejado. Eliana teve que ir embora, eu estava sem tempo preparando uma aula que vou dar amanhã e a sobrinha Flora estava estudando. Já que tinha que ir ao mercado, comprei uma lata de sardinha com molho de tomate (sim, depois de comer um peixe enlatado chinês, frito, seco-encharcado, que comprei na Liberdade com água na boca fisgada pelo rótulo, estou adorando nossas sardinhas enlatadas), aqueci e temperei com grãos de cominho moídos na hora e folhas de coentro,  peneirei e esquentei no vapor a canjiquinha branca e servi com abobrinha e abóbora madura que Eliana tinha deixado prontas - apenas refogadas em cebola e alho.  Com vidros embaçados, frio e chuva lá fora, um copo de Madiran que a Flora trouxe de Paris, molho Harissa que o amigo Pedro trouxe do Marrocos e muita fome de inverno, foram muitos nhacs ao redor do prato bem quente. 


Para a canjiquinha cozida ficar solta como sêmola no vapor: 


Cozida como arroz, quando quente ela estará assim, cremosa 
Depois de fria, é difícil desfazer os grumos

Então é só passar por peneira grossa,  forçando a passagem dos grumos
como uma espátula 

Restam grãos soltinhos que nunca mais se juntarão


E que podem ser reaquecidos no vapor. Se quiser, tempere com manteiga
E fica assim, a canjiquinha soltinha. Aqui, com folhas de brócolis -
coincidência com o prato lá em cima de alguns anos atrás

6 comentários:

Lourdes disse...

Olá Neide, entre os presentinhos que você ganhou de sua leitora de Espera Feliz está a Jatropha mulitifida que é uma planta venenosa segundo a pesquisa que fiz. Eu tenho um exemplar desta planta aqui em casa e eu ganhei de uma amiga como sendo uma planta com propriedade medicinal.
Você tem conhecimento para que serve?
Bjs

Anônimo disse...

Neide, amei o post, mas eu prefiro a canjiquinha ensopada. Pode me dizer que é aquele galho com umas pontas parecidas com uma espécie de pistilos, e a folha que parece de mandioca? Abç
Izabel

Neide Rigo disse...

Lourdes, a planta é esta jatrofa, sim, venenosa, mas também medicinal - dizem ser boa pra cicatrização. A Nilce disse que sua mãe ganhou. Também pode ser chamada de planta-coral ou bálsamo. Obrigada, Lourdes!

Izabel, a planta parece com a mandioca porque é parente - uma euforbiácea. O nome é este dito pela Lourdes, aí em cima - Jatropha multifida.

Um abraço, N

Anônimo disse...

Neide querida, você nem imagina a alegria que senti ao me deparar com os ”trenzim” que te levei com muito carinho e um tantinho envergonhada. Sua dedicação, agradecimento, competência e singeleza retrata o que necessitamos para viver bem: comprometimento.
Sua fonte é inesgotável, ainda bem que bebo dela. Sinto-me cada dia melhor, isto é um luxo só!
Beijos, nilce

Neide Rigo disse...

Nilce,
eu é que sou cheia de alegria por ter leitores como você. Presentes assim além de mimar me ensinam. Obrigada, N

Papilles Mentales by C@t disse...

Aquela quirerinha solta me fez pensar em uma adaptação para um couscous com uma tajine de frango e muita harissa.