quinta-feira, 12 de abril de 2012

Bolinhos de abóbora com arroz e feijão no vapor. Ou quinta sem trigo 50

Os de abóbora

Ando fascinada com estes bolinhos de arroz com feijão, com massa fermentada naturalmente. Claro, ando fascinada também com as abóboras, que fique bem claro. 

Os idlis da Shakuntala, divinos!
Mas tudo começou quando fui à casa da vizinha Shakuntala, porque ela queria umas sugestões. Fui com o maior prazer e achei que ela serviria apenas um cafezinho, ou tchai, ou limonada com açúcar mascavo. Mas que nada. Tinha um banquete. E o que mais me chamou a atenção, porque não conhecia, foram os tais bolinhos de arroz, alvíssimos, que foram servidos com chutney, além de tchai, quiabo frito, bolinho de couve-flor e outras delícias. Ela é meio reservada e disse que vai ter a mistura pronta para vender. Só me adiantou que era de arroz e feito no vapor. 

Não aguentei a ansiedade de esperar sua mistura pronta e fui à luta. Tentei por palavras chaves em inglês, sem saber o nome indiano da iguaria, nem que outros ingredientes levava. Mas não foi difícil. Logo encontrei os tais Idlis (veja no google imagens), feitos com uma mistura de arroz branco demolhado e triturado, feijão urad (um feijão preto, da mesma espécie do fradinho e do feijão mungo)  sem pele, demolhado e triturado e tempero, feno grego, triturado junto. A massa é levedada naturalmente de um dia para outro e distribuída em forminhas próprias para irem ao vapor, várias ao mesmo tempo. 

Primeiro fui resolvendo as limitações: o feijão Urad, da espécie Vigna, sem pele, nunca vi por aqui. Mas há outro da mesma espécie, que também pode ser encontrado sem pele. É o feijão fradinho, vendido no Mercado da Lapa, próprio para acarajé. Há dele inteiro ou sem pele. E o arroz indiano pode ser substituído pelo nosso agulhinha. E as forminhas? Pensei, pensei, fucei a loja de utensílios do mercado da Lapa e encontrei no Box 11, as de quindim, com fundo arredondado. Uma grande panela de vapor eu tinha. E, pronto, estava resolvido. 

Arroz e feijão fradinho demolhados e moídos separadamente
Teste com outros aditivos - com camarão seco fica muito bom
Testei primeiro a receita tradicional, que encontrei em vários sites - 2 medidas de arroz para uma de feijão. Deixei de molho, escorri, triturei naquela minha máquina de moer cereais, misturei as duas coisas e juntei um pouco de água pra ficar com consistência de massa de bolo. Cobri com filme plástico e deixei mais umas 8 horas em repouso para fermentar. No outro dia, a massa estava toda esburacada. Quando coloquei os grãos de molho, fiquei pensando que poderia deixar os dois já misturados, mas depois descobri na prática que eles têm comportamento totalmente diferente na hora de triturar. Você tem que ajustar a máquina para cada grão. O feijão é muito mais macio e úmido. E o arroz é mais duro e sai quase como um fubá seco. 

Cozinhei os primeiros e fiquei bem feliz. Só achei que a massa estava mais grudenta que aqueles que experimentei na Shakuntala. Certamente é o arroz. Decidi mudar a proporção na próxima vez. Foi o que fiz e ficou muito melhor. Desta vez comi com camarão seco. 

A massa pode ficar na geladeira por até três dias e pode ser usada de outras formas, como por exemplo, misturada com vegetais e frita como uma fritada. Fica fabulosa, isto eu também testei.  Levei a massa para o sítio e tive que improvisar um cozimento de vapor sobre peneira. Deu certo também, todo mundo adorou para comer com cerveja.  Testei vários tipos de untagem - com manteiga de garrafa, com azeite de dendê, de oliva, manteiga comum. Todas dão certo.  Testei cozinhar só a massa para comer com algum molho e experimentei também colocar algum recheio, ou cobertura, no fundo da forminha, para cozinhar junto e gostei muito. Colocar só uma folhinha de coentro e um pedaço de pimenta é outra opção. 

Já estava dominando a técnica quando fui novamente ao Mercado da Lapa e tive a ideia de comprar a farinha de feijão fradinho e a farinha de arroz. Quem sabe não poderia abreviar o processo e facilitaria para o leitor que não tem moinho?  Pois fiz o teste e no outro dia, perfeito, massa aerada, com o mesmo sabor ligeiramente ácido. A proporção agora é um para um. E água até dar o ponto. 


Bem, já bastante feliz com os tais bolinhos, já dominando  um pouco a técnica,  tive outra lembrança. No Vale do Paraíba, fazem um bolinho de abóbora (claro, agora a abóbora!) com arroz, e a massa é também fermentada de um dia para outro. O bolinho é doce, leva banha, ovos e açúcar e nada de feijão. Mas poderia adaptar. Fiz então com uma xícara de farinha de arroz, uma xícara de farinha de feijão fradinho e 1 xícara de abóbora madura ralada bem fininho (120 g). Misturei tudo, juntei água aos poucos e deixei fermentar de um dia para outro.  Na hora de preparar os bolinhos, juntei um pouco de sal e tempero que julguei mas adaptado ao nosso paladar: cominho e grãos de coentros triturados na hora - uma pitada apenas. A consistência da massa é a de um bolo firme - você coloca a massa até a metade de uma forminha bem untada e a massa se assenta devagar. Se for preciso, basta dar uma batida na forminha.  Dez minutos de vapor e está pronto. 


Comi o meu com o frango caipira da janta de ontem, com quiabo e mais sementes de quiabo (separei os quiabos duros que não usei ontem e hoje cozinhei até que ficassem molinhos, esperei esfriar e tirei as sementes, que juntei ao frango desfiado). Um pedaço de bolinho, uma porção de frango por cima e Nhac!  Mas você pode comer com vatapá, molho de pimenta, de camarão seco, com chutney ou manteiga simplesmente. 

Bem, os bolinhos feitos assim deram super certo e lembram um acarajé mais leve. A massa ficou aerada, são saudáveis, não levam gordura, são fáceis de fazer quando se usam as farinhas,  e fazem aquela combinação proteica boa de arroz com feijão, que os indianos vegetarianos sabem tão bem aproveitar.  E agora ainda tem a porção legume para ficar ainda mais completo. Que tal experimentar sua própria versão?  Versátil a massa já provou que é e eu não paro por aqui. 

Nhac! 


20 comentários:

Fábio Metello disse...

Neide!!!!!!
Que dinâmica impressionante a sua!!!
KBÇ pensante!! heheheh

vou fazer,,,,,

agradecido
Fábio

Gilda disse...

É incrível como você não deixa escapar nenhuma possibilidade. Estes vou ter que fazer sem falta. Obrigada por mais uma receita vegetariana perfeita.

Flávia Amaro disse...

Como sempre atiçando nossa curiosidade e paladar. abraços.

André Coelho disse...

Já na lista para ser testada! Quando eu sei que é receita original de um povo, eu fico morrendo de vontade de provar.

Dricka disse...

Eita delicia. Fiquei salivando, eu amo comida indiana, fiquei imaginando esses bolinhos com um curry bemmm ardido. Farei!!!
Bjs

vpaulics disse...

neide, será que dá certo colocar no vapor na folha da bananeira? não sei se fica muito mole. ou na palha do milho, como se faz com a pamonha... fiquei aqui, imaginando coisas. estou um pouco longe do mercado da lapa, mas quando ficar pertinho outra vez, experimento esses bolinhos. beijo. v.

ah, e da lobeira, será que o segredo não é comer tudo, incluindo semente e casca? talvez por isso o lobo-guará prefira a fruta crua e não a cozinhe separando partes... ;)

Neide Rigo disse...

Fábio, se não usa, atrofia, né?

Gilda, estou pensando em trocar o arroz por mandioca.

Flávia, a minha também.

André, também sou assim.

Drika, com curry deve ficar fantástico.

Veronika, também pensei nisto, mas não testei. Certamente dá certo. Pode ser tipo uma cestinha ou embalado e aí fica com cara de abará. Quanto à lobeira, o lobo come como alimento funcional - para evitar um verme nos rins, a que é sensível. Mas claro que deve gostar. A casca, mesmo depois de cozida, é dura. Já testei. E as sementes são duras também, maiores e mais firmes que as de tomate. De qualquer forma, vou cozinhar inteira e depois te falo. Quem sabe?...

Um abraço, N

Neide Rigo disse...

Veronika, acabei de testar: cozinhei uma lobeira inteira até ficar macia. A água ficou super perfumada. Dá vontade de beber como infusão. Parti ao meio, tirei as sementes que continuam duras. Experimentei a polpa, que estava super macia e doce. Fiquei animada. Aì tirei a polpa da casca, que saiu inteira. Coloque a polpa num refratário, meio espalhada e polvilhei açúcar mascavo e gotas de limão. Levei ao forno. Experimentei e continuava docinha. Pensei: não é que a Veronika tem razão? Vim trabalhar e o retrogosto na garganta chegou junto. Uma sensação horrível lá embaixo na garganta. Outra sugestão?

Um beijo, N

marta.hoffmann disse...

Oi Neide,
adoro seu blog e volta e meia faço algumas receitas com sucesso outros não.(rsrsrs).Bom,como adoro comida indiana,tb.sigo blog: http://www.manjulaskitchen.com/2011/01/05/rava-idli/
e procurei os Idlis.Neste video ela,Manjula,faz com semolina,e tb.parecem mto.bons.Tenho sorte,pq.aqui perto,tenho mercados indianos otimos e fico horas lá dentro explorando tudo!!!bom,qdo.quizer,terei prazer em mandar alguma coisa para vc. :)

Neide Rigo disse...

Marta,
sinto pelos insucessos.. Obrigadíssima pelo vídeo. Só não entendi se a semolina é de trigo, porque minha ideia é justamente usar menos trigo e por isto adorei a ideia de usar arroz e feijão. Mas adorei a ideia e o blog e o site. Obrigada pela oferta, um abraço, N

Neide Rigo disse...

Marta,
agora eu nos comentários que uma leitora teve a mesma dúvida e ela respondeu. A semolina é de trigo.
Um abraço, N

angela disse...

Congelou um pouco? quando eu for aí me dá pra provar? Uma vez comi em N.Y. uma coisa oriental branca no vapor.. eca!!!!!!!! Mas o seus, principalmente a primeira foto, uau, lindíssimos e apetitosos.

Neide Rigo disse...

Congelei, não, Angela! Faço fresquinhos quando vier! bjs,n

Jussara disse...

É a primeira vez que visito seu Blog e estou encantada!!! Parabéns.
E amei ter visto esta sua experiência tão detalhada e didática, de um prato que AMO de paixão e sempre quis repetir e não conseguia. Morei na Índia e comia quase todos os dias o Idli (lá eles vendem uma forma especial com furinhos, onde vc coloca vários Idlis e cozinha no vapor). Sensacional.

Para quem mora na Índia é bem simples fazer Idli, pois poderá encontrar a mistura pronta em qualquer mercado. Basta adicionar água. Eu trouxe umas caixas quando voltei ao Brasil, mas não dá para abastecer por tanto tempo. (e nada substitui fazer em casa, com tudo natural)

Então, quero deixar uma dica "complemento". Sabe uma forma deliciosa também de comer Idli? Para o café da manhã ou um lanche, eles têm o Dahi Idli. Dahi é iogurte.
Basta fazer o Idli básico, sem sal, servir quentinhoi e cobrir com iogurte natural frio adoçado com mel e algumas especiarias, como Cardamomo e até algumas sementes de romã. É DIVINO!!!
Muito obrigada por sua incrível receita e generosidade em partilhar.
Vou explorar seu blog e acompanhar sempre suas "mágicas" descobertas.
Namasté

Margarida disse...

Neide: tenho feito estes bolinhos (idli) no vapor com arroz e feijão mung em lugar de usar o feijão fradinho. No preparo prévio deste feijão aproveitei a sua ideia de colocar as lentilhas no processador para tirar a película externa.Faço o mesmo com o feijão mung que compro no bairro da Liberdade. O modo de preparo da receita é similar. Uso 2 partes de arroz para uma de feijão mung. A massa do bolinho depois de cozida no vapor fica muito leve! Tenho a panela especial indiana que comprei em USA para cozinha-los. O interessante é que as depressões nas estantes onde se coloca a massa são furadinhas como as da cuscuzeira. Desta forma o vapor entra em contato diretamente com a massa por baixo. Abraços!

Neide Rigo disse...

Margarida,
vou tentar com feijão mung - mais próximo do original. Mas com o fradinho fica também muito bom. Só a proporção, achei que fica melhor 1 para 1. Quanto à forminha, os furinhos certamente fazem diferença. Mas quem não tem cão.. beijo, n

raquel disse...

tentei ontem mas não fermentou, e deixei mais de 12h :( aí, tentei fazer assim mesmo mas ficou muito ruim, compacto e com um gosto verde. vou tentar de novo. estou usando uma farinha de arroz e a farinha de feijão fradinho, que vendem como sendo para acarajé. fiz sem a abóbora. será que não fermentou pq coloquei muita água?
ah! acabei de baixar a nova saveur e tô lendo a sua matéria. muito legal!

Neide Rigo disse...

Raquel, deveria ter fermentado. Mas quando isto não acontece, você pode colocar uma pitada de fermento em pó (pó royal). Se você fizer moendo o arroz e moendo o feijão é mais fácil de fermentar. De qualquer forma, o sabor lembra bastante feijão, a massa de acarajé, de abará. Um abraço, N

Renata disse...

Eu comi IDLI na India e esqueci de comprar a panela, comi de semola, e achei a sua adaptação maravilhosa. Parece que ficaram bem cozidos. Comi na casa de um Bramane e ela tinha apanela de varios andares. Vou tentar fazer como vc fez.

Cynthia Cunha disse...

Mulher maravilhosa!!!!