sexta-feira, 16 de março de 2012

Uauá. Parte 5: as panelas de barro

Coisa difícil é eu ir para lugar que tenha boa argila e tradição em panelas de barro e não voltar com a mala pesada. Além de frutas, grãos, artesanatos, doces e invariavelmente alguma muda de planta engarrafada, sempre há espaço para umas panelas ou vasinhos esculpidos cuidadosamente. 

Conforme a região, as peças ganham desenhos muito típicos, com grafismos particulares do lugar e isto me tira um pouco do prumo do juízo, por não ter mais onde guardar estas peças.  Mas, na medida do possível, vou usando no dia-a-dia. 
E também porque os preços são sempre tão convidativos. Em Uauá, comprei algumas peças de dois produtores diferentes. O caldeirãozinho da foto, por exemplo, paguei só R$ 4,00! Sem torno, erguidas do barro bruto ou construídas em rolinhos, brunidas com seixos ou outros improvisos, avermelhadas com tauá ou decoradas com caulim, são sempre únicas - e por isto, irresistíveis. 


Da mesma terra sai o barro para a panela e o alimento cultivado que vai dentro dela, com união batizada pelo fogo.   Saber lidar com estas coisas, plantar,  fazer panelas e cozinhar, é a verdadeira síntese da auto-suficiência. Eu já aprendi um pouco das três coisas, só falta praticar. 


Não é incomum você andar pelos povoados de Uauá e ver panelas de barro descansando ao sol depois de ter dado duro sobre as chamas de lenha de algaroba para a feitura do feijão macio do almoço, do feijão de corda, da carne de bode.  


Nas várias conversas sobre o umbu, ouvimos sempre a referência ao aribé, um tacho grande de barro, com cerca de 70 centímetros de diâmetro. Segundo Joana, era utensílio indispensável no enxoval da moça que ia se casar. Nele era feito, entre outras coisas, farinha de milho torrado. Seu Waldemar conta que ia catar umbu no mato pra chupar, mas também trazia um tanto pra casa porque a mãe enchia um aribé com a fruta para comer no almoço com feijão.  E o feijão é sempre cozido em caldeirões de barro, que panela de pressão é perigosa, pode estourar, sem falar que o feijão cozido assim, lentamente, fica muito melhor, pega o gostinho do barro e da fumaça. Hum..., com umbu, laranja, melancia ou farinha, Nhac!  (ainda vou falar do umbu e da Coopercuc, mas só na semana que vem).

Na casa da Jussara

Feijão na casa da Joana

Secando na casa do Isaias e da Edite

Arroz integral, na casa da Joana

Feijão de caldo na casa da Terezinha

Arroz vermelho com abóbora na panela de Uauá, na casa da Neide (eu)

6 comentários:

Anônimo disse...

O mais legal é que o saber não precisa de mala, senão, seria preciso alugar um avião particular, um na ida e dois na volta só para você. A propósito, não tinha o aribé ou você achou demais trazer duas malas? rsrsrs Abç. Izabel

nana tucci disse...

que lindo esse arroz vermelho na panela de Uauá

Marcia H disse...

Fruta pão, morri de saudade agora.

Neide, minha mala vem assim para cá rsrs

Paula disse...

Que lindas panelas, Neide! Eu também não resistiria... Tenho uma de barro preto de Molelos (Portugal). Beijos

AUDENI OU Dona Mocinha disse...

Oi Neide, tudo bom?

Acompanho teu blog desde meados do ano passado.

Como boa nordestina que sou, AMO BARRO e tudo que vem da terra.
Estas comidas devem ser deliciosas, estou aqui quase devorando a tela do note e pensando "preciso ir a este lugar buscar artesanato".
É um pouco longe né?, já vou até entrar no Google p/ ver distância e quem sabe na próxima visita a Alagoas desvie da rota e chegue até Uauá!

Adoro tuas postagens, parabéns!


Beijos e ótimo final de semana


Audeni

Maria das Graças disse...

Essas panelas de barro com desenhos são lindas e já fizeram parte da minha vida lá no nordeste. E a mamãe fazia assim mesmo: espetava-as na cerca para secar. Quem nunca comeu arroz vemelho tem que experimentar. É muito mais gostoso que o integral, fica soltinho e quando cozinha ele perde o formato, se abre e, com olhos poéticos, vemos nele uma flor desabrocando. No nordeste é tão comum e aqui no Rio pago uma fortuna por ele.