quinta-feira, 8 de março de 2012

Uauá. Parte 2: O almoço do Ministro

Pirão de leite, bode com legumes, frango com molho de umbu 
Chegamos em Uauá à noite e no dia seguinte teríamos a abertura do IV Festival do Umbu, que visa a valorizar a sociobiodiversidade da caatinga e divulgar os produtos da agricultura familiar e seus produtores.  Tem um vídeo do Festival aqui (em algum momento eu apareço sentada, de verde) 


Além de representantes dos apoiadores do evento, Sebrae, Irpaa, Seagri, Sedes, Ebda etc, a presença mais esperada era, sem dúvida, a do ministro do MDA (ministério de desenvolvimento agrário), Afonso Florence. Ele chegaria para o almoço e faria a abertura do festival. 


Jussara, gerente comercial da Coopercuc e líder do convívio do Slow Food de Uauá,  me pediu para dar uma mão para a Sonia, que tem um restaurante de comida local, especialmente para fazer o frango com molho de umbu que eu tinha inventado e  que seria servido no almoço para o ministro, junto de outras delícias da cozinheira. Sorte que cheguei e parte da receita, o frango temperado e refogado, já estava pronto. Foi só fazer o molho com o que tinha e juntar na panela e, graças ao tempero prévio da Sonia e ao frescor do umbu usado, ficou muito bom, embora faltassem outros ingredientes como o quiabo e a pimenta. 

Carol fazendo a sobremesa do ministro: lampeão-e-maria bonita
Sonia, sua filha e a ajudante Andrea estavam todas preocupadas, afinal era o almoço do ministro - e para mais cinquenta convidados. Até a Carol Leone, que estava comigo, largou a câmera e ajudou a fazer uma das sobremesas - queijo de cabra com doce de umbu, que batizei de lampeão-e-maria bonita, como um romeu-e-julieta do sertão. 


Salada de umbu com cebola, tomate, pimentão e molho de umbu
Às duas horas tinha que estar tudo preparado, mas antes disso a comida estava pronta, sem atropelos, de modo a sobrar tempo para o nervosismo da espera.  Só faltava a carne de bode na brasa que Sonia decidiu assar minutos antes das duas, para que estivesse bem macia na hora do ministro. De resto, provei de tudo fresquinho, com tempero delicioso da Sonia. Feijão-de-corda, arroz, pirão de leite, bode com legumes, escondidinho de mandioca com carne de bode, panqueca com cúrcuma recheada com carne de bode, salada de legumes e salada com umbu verde, tomate e cebola que inventei de última hora, com molho agridoce de umbu. De sobremesa, além do doce com queijo,  musse de umbu com compota.

Para o escondidinho do ministro, Sonia tritura a mandioca cozida
com bastão feito com rolo de macarrão

Antes das duas fomos pra casa de Jussara trocar de roupa, tirar o avental e dar uma ajeitada no visual, afinal éramos também convidadas. Chegamos na hora exata ao restaurante e nada de ministro. A cozinha já arrumada, limpíssima, e nada de ministro. Lá perto das três, alguém liga dizendo que ele vem vindo. Todo mundo corre pra cozinha, liga os fogos pra esquentar o bode, o frango, o arroz, o feijão. Liga o forno para as panquecas, o escondidinho e o bode na brasa que já está ficando ressecado. Espera, espera e nada de ministro. Alguém liga dizendo que ele está um pouco atrasado mas que está vindo. Melhor esperar antes de esquentar tudo de novo. 



Limonada para o ministro. Uma limoneide comum com folhas de umbu
maceradas junto com rodelas de limão, açúcar e gelo 
Agora é sério, ele já está na cidade, ouvimos rojões, buzinas de carreata. Mas também, eram quase quatro horas. Vamos esquentar de novo. Espera, espera. Ligam de novo, melhor desligar os fogos. Ele chegou, mas resolveu fazer a abertura do evento antes do almoço. E abertura significa discursos de outros parceiros. Neste intervalo, tivemos tempo de rearrumar as mesas, que enfeitamos com galhos de umbu trazidos da casa de Sonia. E ainda aproveitei o ócio para criar um drinque sem álcool usando as folhas ácidas da fruta, para bebericar com as mãos nos queixo. 


Alguém liga. O ministro terminou de falar, agora é sério. Esquenta o almoço. O antes cremoso escondidinho já parecia mais firme e precisou ser cortado em quadradinhos. O bode assado, bem passado, até que ficou bem bom. O frango, já desmanchando, pegou bem o gosto do umbu e também não foi tão prejudicado. No mais, estava tudo quentinho e cheiroso ainda, embora um tanto ressequido ou cozido demais. Todo mundo sabe, tempero melhor que a fome não há, mas a alegria de quem cozinha é sempre servir sua comida em seu melhor tempo e ponto, que não foi o caso 


Mais uma meia hora para começarem a chegar e isto já eram quase seis. Antes disso, o derradeiro telefonema. O ministro foi embora.  Sonia, que esperou pacientemente, não disfarçou a tristeza junto ao cansaço.  Rapidamente o burburinho tomou conta do salão, todo mundo elogiou a comida farta e quem quis comeu sua parte e a do ministro. O fato logo virou piada quase como o banheiro do papa, mas quem perdeu foi ele. Coisa feia, Seu Ministro!


O que o senhor perdeu:










9 comentários:

Anônimo disse...

Feia, mesmo. Para não dizer desrespeitosa pelo esforço de todos! Mas tenho certeza que os que ficaram se sentiram até mais relaxados para se deliciar e sem qualquer cerimônia que a presença de gente "importante" poderia causar. Bjs. Izabel

Ozorio Gonçalves Jr. disse...

Saudades de Uauá,terra farta,terra do bode.E que inveja boa ao ver as imagens e ler o texto!Qualquer dia tomo coragem, e a estrada como havia prometido ao sair de-lá!

carla disse...

movfikei com água na boca.. principalmente a salada! um...
o Ministro perdeu.

Dricka disse...

Só mais uma decepção entre tantas outras que nossos politicos nos dão, tiramos de letra. Quisera nós que todas essas decepções fossem como essa, pior pra eles.Pena eu não estar lá para comer fresquinho, que eu não ia ser boba de esperar o ministro
Bjs

Neide Rigo disse...

Sim, Izabel. O almoço ficou bem mais descontraído.

Ozório, também já sinto saudade.

Dricka, vai ver ela não gosta de comer bode.

Um abraço, N

angela disse...

Caramba.. isso precisa ser divulgado!! É um Dias Gomes!! Já vejo o teatro disso!!! Um filme até! Um curta metragem!!

Anônimo disse...

O santo dela é tão forte que o ministro rodou.
O próximo já sabe. Não deixe de comer o Umbú.

Marisa Ono disse...

Curioso, Neide. No Emiliano Market Place conversei sobre cabrito com o pessoal da Apris. E o fato é que muita gente nem sabe o gosto que tem. Não sei se sou muito distraída, mas não vejo ninguém cozinhando bode e cabrito em São Paulo. No Paraná só vi uma vez. Bode ainda não comi, cabrito sim, já comi uns muito bons, suculentos é uma carne magra. Bode ainda soa para mim como carne muito forte, o bicho não cheira lá muito bem quando é vivo...

Cláudio Gonzalez disse...

Está explicado o motivo da demissão do ministro. Dilma deve ter lido seu texto e decidiu que a indelicadeza de Florence foi imperdoável. rsrsrs

Eu dei mais sorte com os ministros de Dilma. Fui entrevistar o ministro Aldo Rebelo e ele me convidou para almoçar na casa dele. Comemos um bacalhau da amazônia fantástico. A história tá lá no meu blog.