quarta-feira, 7 de março de 2012

Uauá. Parte 1

Uauá - BA


Repita bem rápido: Bendegó, Caititu, Cocorobó, Cocobocó, Caratacá, Creitu, Marruá, Macururê, Curundundum, Quinjingue e Quembrenguenhem.  Não, não é nenhum travalínguas. São nomes de cidades e lugarejos da região da caatinga para onde fui e que o povo de Uauá repete sem gaguejar.  Estar ali, a propósito do Festival do Umbu, para o qual fui convidada para falar a convite da organizadora do evento, a Coopercuc, quase me fez sentir os movimentos nas novas sinapses, tanto eram as coisas novas que aprendia, de nome de lugares ao léxico botânico, culinário e cotidiano. E aquele céu azul lapis de cor era por si só a poética da caatinga. 

Umbu à vontade no Festival 
Uauá fica lá em cima, no caminho pra Juazeiro e Petrolina, virando na esquina em Bendegó. Viajei  louca pra conhecer a caatinga, a importância do umbu e a terra de Antônio Conselheiro.  O festival agitou tanto a cidade (e também literalmente já que o forró em megassom ia até o sol raiar), que já dizem que está ficando melhor que o São João.  Para beber, muito suco gelado de umbu, batida e cerveja gelada e,  não sei se é pelo calor que não combina, mas em Uauá não se fuma.  A não ser no Senegal, nunca tinha visto isto. No chão, nenhuma bituca. 

Carol Leone, uma amiga que trabalha com cinema, foi junto. Ficamos na casa da Jussara, amiga do Slow Food e gerente comercial da Coopercuc.  Mesmo casadinha de novo com um bebê lindo de três meses de quem não se desgrudava,  mudou-se com o marido Marquinhos, a prole e as coisas do menino para outro cômodo para nos ceder o melhor quarto da casa. Não teve acordo que os fizessem mudar de ideia. E ali ficamos no quarto presidencial do casal com a foto da Dilma na porta. Por aí já tivemos a primeira mostra da hospitalidade que nos esperava.

Entrada do Parque de Canudos. Mudas protegidas do sol e das cabras
Depois do festival, Carol e eu seguimos para conhecer os povoados e seus moradores, homens e mulheres que trabalham com o umbu. Tivemos sempre bons acompanhantes. Ora Jussara, Marquinhos e o bebê, ora Dona Joana, mãe de Jussara, ora todo mundo, no Fiat possante do casal.  O mesmo possante nos levou para lugares áridos, de cor verde-limão de pau-de-rato com brotos novos,  de verde escuro das faveleiras espinhentas ou amarelos de galhos secos. Até para o Parque Estadual de Canudos, onde ocorreu a guerra nós fomos.  Carol filmou muitas coisas e gentes relacionadas ao umbu e à caatinga,  que talvez vire um documentário.

Queria ter tido mais tempo para reter um pouco da sabedoria da Dona Joana, que faz manuês de verdade para vender na feira. É a Joana dos manuês, afinal tem também Zeca de Julinha, Júlio de Custódia e outras indicações de origem como Rio de Zefona (mãe da Joana).  Joana faz poesia, canta, agrega mulheres em luta por causas justas e trabalha de sol a sol.  Ia passando pelas paisagens que mudavam a cada vinte quilômetros e dizendo o nome das plantas e as doenças que elas curam, além de outras utilidades.  Eu corria para anotar, fotografar, arrancar folhinhas para o caderno.  Mas falo desta paisagem num outro post.  E de outros assuntos em vários outros posts, com fotos, prometo. 

Comemos muito bode com carne boa por ter se alimentado de umbu. O umbuzeiro é a majestosa oliveira da caatinga a quem todos sertanejos se curvam em reverência. Dele comem o fruto verde ou maduro e o fruto de suas folhas que alimentam os bodes que vão pra panela.  E as panelas locais são lindas quando feitas de barro pintadas por fora com tauá. As que cozinham bodes fazem  também feijão de caldo ou de corda para comer com farinha.  E a farinha me serviu num dos dias de almoço com fiapos de carne de bode seca e melancia, que misturei por minha conta num só prato. E isto era só um lanche na casa do Seu Isaias e Judite, que não sabiam que não tínhamos almoçado ainda àquela hora da tarde.  Aquela refeição foi, como se diz, a refrigela dos bichos na seca.  Assim como refrigelo da minha ignorância foi também esta viagem.

De longe, o destaque para o umbuzeiro de copa arredondada


9 comentários:

vpaulics disse...

no zoo de barcelona tem um pé de umbu. (pelo menos é o que está escrito ao pé da árvore.)
venha ver de perto... bj.

Anônimo disse...

Uau, uau! é como se eu tivesse participado da viagem! É viciante o seu blog! bjs. Izabel

Ninha disse...

Aqui na minha terra esse umbú da foto agente chama de umbú verdadeiro,ele tem a casca rajada e não fica amarelo. Tenha um ótimo fim de semana.

Neide Rigo disse...

Poxa, Veronika, umbu em Barcelona, umbarcelona! Incrível. O nome científico confere?

Bom saber, obrigada, Izabel!

Ninha, e onde é a sua terra?

Um abraço,
N

Rose disse...

Nunca vi ninguém escrever täo bem sobre a fruta maravilhosa do sertao...parabéns pelas receitas e pelos textos sobre umbu.Adorei:-))

Neide Rigo disse...

Obrigada, Rose!
Uauá e umbu são inspiradores. Um abraço, N

Erika Ribeiro disse...

Que olhar mais puro, Neide!! É essa a nossa Uauá, nossa caatinga!! É tão bom ver o retrato da nossa terra e gente tal qual ela é, sem maquiagens!
Parabéns!!

Rose disse...

Parabéns, NEIDE, muito legal seu trabalho. Mesmo morando em Uauá e conhecendo essa realidade foi muito bonito 'perseguir' suas observações.
att Rosemaria

Anônimo disse...

Neide gostei muito dos comentarios sobre as frutas e das outras coisas desta região ainda vou arranjar um tempo para visitar o sertão e desfrutar as delicias dela, Neide faço parte de grupo que coleciona fruteiras silvestre e hotaliças não convencionais sera que voce teria contatos para eu adquiri mudas ou sementes destas joias do sertão.
RUI PESQUEIRA/rui@lanport.com.br