quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Caruru-do-reino, bertalha, caruru-de-seda, cipó-manteiga


Poucos leitores acertaram a charada, mas a quem errou agradeço a participação do mesmo jeito e reconheço que esta não foi fácil. Uma espécie pouco vista por aí. 

Eu a tenho desde que ganhei  da mãe de uma amiga da Ananda, uma chinesa, que me disse não saber o nome, mas que era uma planta comestível da terra dela.  Isto deve ter quase 15 anos e eu vivia a perguntar pra um e pra outro a ver se descobria o nome da planta que proliferava no meu quintal.  Até que a descobri num livrinho de ervas comestíveis. Embora o nome apresentado, Boussingaultia baselloides não seja o correto,  assim como também não é Anredera baselloides como aparece em outros artigos,  foi sem dúvida uma boa pista.  

Os botânicos a chamam de Anredera cordifolia - parece ser o nome mais aceito.  De chinesa, a planta não tem nada já que é originária da América do Sul, endêmica em vários países e encontrada em estado silvestre em todo o Brasil. E se não é cultivada por razões desconhecidas, é tida como planta daninha por seu próprio pecado - é prolífera, está sempre verde e fornece muito alimento através das folhas, ricas como as do espinafre e dos bulbos e rizomas, fontes de carboidratos e nutrientes como as batatas ou inhames. Como se não bastasse, é bastante ornamental e melífera.  Embora possua flores, raramente frutifica, mas a reprodução vegetativa é bastante eficiente, pois cada bulbilho destes brota muito facilmente com ou sem terra boa como suporte, bastando um tutor, dando origem a nova planta.  




Muitas flores e bulbos ao mesmo tempo. E muita abelha!


































No meu quintal, elas vão brotando, florindo,  atraindo abelhas, tomando conta, dando o que comer.  Os galhos são delicados, fáceis de controlar, caso queira diminuir a massa verde.  E o melhor, a planta é rústica, resistente ao ataque de pragas, requer poucos cuidados e vai bem até em terra argilosa. Uma cerca com orelha-de-padre, cará-moela,  caruru-do-reino e ora-pro-nobis e pronto, ninguém passa fome.

Os nomes populares são diversos em todos os lugares onde está presente. No Brasil é caruru-de-seda, cipó-manteiga, caruru-do-reino, ora-pró-nobis sem espinho e bertalha.  É só não confundir com aquele caruru ou bredo, com a bertalha mais comum,  nem com o verdadeiro ora-pro-nobisCom o ora-pro-nobis tem em comum o sabor e a textura das folhas suculentas. Com a bertalha (Basella alba), pertence à mesma família Baselácea, que também abriga aquelas batatas peruanas – Ullucus tuberosus.  Agora, por que se chama caruru-do-reino, nem imagino. Se quiser pesquisar mais a respeito, use os nomes em inglês: madeira vine, mignonette vine, uala hupe (no Havaí).  
O sabor dos bulbos é parecido com o do cará-moela, lembrando também pela mucilagem que os torna um pouco escorregadios, mas nada que os façam se aproximar de um quiabo, por exemplo. Umas gotinhas de limão ou vinagre na água de cozimento resolvem.   Do tamanho de  umas nozes, sendo mais estreitos, cozinham em cerca de 15 minutos, sem precisar descascar, e podem ser usados como as batatas, com a vantagem do design incomum.

Não vou dar receitas, mas saiba que você pode incluir em cozidos, sopas, no arroz, no omelete, nas saladas, etc. Hoje não tenho tempo porque viajo amanhã pra Uauá, mas depois tento desenvolver outros pratos e dou receita. Por enquanto, só as ideias pra quem tiver em casa ou no quintal abandonado mais próximo – aqui na Lapa já vi pelo menos uma planta em terreno a venda. Pra vender, nunca vi, não. Fica a dica pra quem quiser introduzir um novo e intrigante ingrediente no mundo gastronômico. Acho que vai fazer sucesso. 



Antes de passar em azeite com temperos, cozinhei por 15 minutos em água salgada.  Não acidifiquei a água, porque a pouca baba não incomoda, mas se você abomina baba, adicione umas gotas de limão.  Depois, basta temperar a gosto. Eu refoguei em azeite onde fritei um pouco de alho com cebola, pimenta, cebolinha e cominho. 

Os bulbilhos cozidos podem entrar na omelete junto com cebola à moda das tortillas espanholas.  



Bulbos e folhas podem ser cozidos com arroz 


As folhas podem ser preparadas como as de espinafre ou bertalha

5 comentários:

Doce Final Feliz disse...

e eu sempre a aprender.. não conhecia de todo esta plantinha..
bjus
Cila

angela disse...

Ué... uauá? A! é aí a oea, é?
Vicê inventou, Uauá não existe. E o carnaval acabou, o grito de guerra baiano é Auê!
:-)

weirdcombinations disse...

Neide,
Que barato vc falando sobre betalha. Inda essa semana mesmo enqto fazendo compras no Sunset um bairro daqui de San Francisco de comidas asiáticas me deparei com a treliça do jardim de uma casa completamente tomada por bertalhas, com os nozinhos e tudo! Me transportei diretamente pras Minas Gerais, pois ess trepadeira mais o chuchuzeiro disputavam a cerca ao redor de minha casa, quanta abundância! Senti vontade de colher um pouco como faço com as serralhas ao redor do meu bairro, depois de uma chuva boa, mas não deu para encarar pois estavam muito empoeiradas rs.
Que bom que vc esta publicando sobre essa verdura, isto ajuda a remover o estigma da planta. Como se diz em Inglês: Vairiety’s the spice of life. Traduzindo fica algo como: Variedade é o tempero da vida
Essa coisa monónotona de comer os mesmos vegetais o tempo todo é muito chato não é?
Boa viagem à Bahia. Come uns mamões por lá em minha homenagem. É lá que se produz o mais saboroso, dulcíssimo.
Abração
weirdcombinations

Paulo disse...

Gostaria de saber onde posso conseguir umas mudas do caruru-do-reino.

Paulo

paulo.komatsu.79@gmail.com

Islâine Castro disse...

Amei o texto... Não deixe de compartilhar sua sabedoria!!