quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Feijão conservado na argila na fazenda do Zé Mário

Nunca tinha ouvido falar. E olhe que meus avós conservavam feijão por longo tempo no paiol e meu pai plantava o grão e guardava em em garrafas PETs. Tudo para não carunchar. 


Mas Zé Mário me apresentou uma forma inteligente e encantadora de conservar feijão. Em argila!  Como eu já contei, aquela fazenda é um modelo exemplar de auto-suficiência. Tirando o sal e o açúcar, quase tudo vem daquelas terras ao pé da serra ou das barganhas com os vizinhos do tipo entregar o milho pra pegar fubá. 


Já no principiozinho da tarde, o campo ainda cheirava à chuva mas o tempo tinha estiado. Do teto da cozinha, a chaminé manchava o céu que agora era limpo e Dete fazia o jantar, disputando com o Zé Mário nossa companhia. Cada um queria nos mostrar seus feitos e as delícias que tiravam daquela terra. E nós, Mara Salles e eu,  ali divididas, não querendo perder nadinha do que estes intelectuais da terra tinham a nos ensinar. E quanta coisa se carece de saber! 


Então foi neste cenário, no ainda clareado do dia depois da chuvarada, que Zé Mário meteu a mão vazia num saco de ráfia para tirá-la cheia e provocativa no melhor estilo "o que é, o que é"? Franzi a testa, tentei adivinhar: Amêndoas confeitadas? Amendoins com sal? Nada disso. Zé Mário teve um princípio de desconfiança da nossa reação. "Vocês da cidade vão achar nojento proteger feijão na terra, mas não tem problema, não, é só argila limpa, você lava e a sujeira sai tudinho. É método antigo".  
De nossa parte, ficamos eufóricas, achando genial esta forma de conservar os feijões de uma safra para outra. Pena que não tivemos tempo de ir conhecer o depósito de argila da fazenda - fiquei sonhando em fazer panelas de cerâmica com técnicas primitivas de rolinho (uma fazenda onde até os utensílios vem da terra, já pensou?). Ele parece ter sentido certo alívio e orgulho ao ver nossa alegria.  E então contou direitinho como é feito:  É só pegar um pouco de argila, diluir em água até formar um mingau e banhar nesta mistura os grãos já bem secos. Escorre bem e espalha sobre uma lona sob sol forte em tempo seco. Secou, está pronto para ser guardado. Sem fungos, sem carunchos. Trouxe um pouco tanto para cozinhar e um tanto para plantar em Piracaia. Na hora do preparo, foi só lavar para tirar a terra e o feijão estava novo em folha para cozinhar com courinho de porco. Plantar, ainda não plantei, mas hei de. 


Fui procurar saber e achei um item no capítulo 15: Manejo de Pragas no Ecossistema de Grãos Armazenados, de Lêda Rita D`Antonino Faroni e Juarez de Sousa e Silva, no livro de SILVA, J. S. Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas. 2. ed. Viçosa-MG: Aprenda Fácil Editora, 2008. v. 1. 560 p. Reproduzo o trecho todo para saberem dos argumentos científicos para o sucesso da técnica. 

10.2.5. Pó inerte  - As argilas foram usadas como protetores de grãos pelos nativos da América do Norte e África há milhares de anos. A principal vantagem de um pó inerte é sua não toxicidade. Os tipos mais comuns de pó inerte são: terra, terras de diatomáceas e sílica. A terra de diatomácea, vendida comercialmente no Brasil, é um resíduo silicoso fossilizado de diatomas, que são plantas aquáticas unicelulares microscópicas, com uma fina concha formada de sílica opalina (SiO2 + nH2O).  A principal atuação dos pós inertes é que eles promovem uma dessecação dos insetos, os quais morrem quando perdem 60% de sua água ou cerca de 30% de seu peso corpóreo total. Além da perda de água, alguns pós absorvem as ceras cuticulares dos insetos. A terra de diatomácea, além de absorver a  cera cuticular, tem efeito abrasivo sobre a cutícula. Pelo fato de os insetos de grãos armazenados viverem em ambientes muito secos e com acesso limitado a água livre, a retenção de água é crucial para sua sobrevivência. Também, uma vez que os insetos são muito pequenos, eles têm grande área superficial em relação ao peso de seu corpo, apresentando, portanto, maior problema de retenção de água que os grandes animais. Os insetos protegem-se da dessecação de vários modos; no entanto, a graxa cuticular, que é destruída pelo pó, é um dos principais mecanismos para manter o equilíbrio hídrico. 


Diversos fatores determinam a eficiência de pós inertes: maior capacidade dos insetos de obterem água do seu alimento, maior reabsorção de água durante a sua excreção, menor perda de água através da cutícula, tipo de graxa cuticular ou o quanto ele se movimenta através dos grãos. Nem toda a mortalidade observada em grãos tratados com pó inerte pode ser atribuída à dessecação.  
Os principais problemas com o uso de pós inertes decorrem do fato de eles diminuírem a densidade e o escoamento dos grãos. Por ser um pó, é difícil sua aplicação, e, além do mais, ele é ineficiente em alguns casos. Em razão de os pós inertes aderirem à superfície dos grãos, aumentando a fricção entre eles, o grão não flui tão facilmente. Há aumento do ângulo de repouso e da densidade total da massa. A terra de diatomácea, na proporção de dois quilos por tonelada, causou diminuição de 4,4 quilos por hectolitro na densidade da massa de milho e de  6,2 kg/hl em trigo. Por ser o dessecamento um modo de ação, a terra diatomácea não controla insetos em grãos úmidos tão bem como em grãos secos. Para minimizar  o problema de produção de poeira, aplicações aquosas para tratamento de superfície são usadas, embora isso diminua a eficiência dos pós inertes. As principais vantagens deste pó é que eles não são tóxicos para mamíferos e protegem continuamente os grãos dos insetos.





Lavou, tá limpo

8 comentários:

Dricka disse...

Nojento? Isso é genial!!! Nojentos são os fungos e carunchos. Tecnicas assim tão primitivas e eficazes tem mais é que serem difundidas, afinal tantas tecnologias e de vez em quando o feijão do supermercado ainda vem carunchado.
Bjs

Anônimo disse...

Neide, meus pais também usavam esse método. Apesar de não concordar que fundos e carunchos sejam nojentos, afinal fazem parte da natureza, mas é muito desanimador, depois de todo o trabalho de arar, semear, roçar, colher e na hora do melhor, que é comer, descobrir que outro espécime animal chegou antes e não teve trabalho algum! rsrsrs. Bj. Izabel

angela disse...

Aqui, quando planto, coloco em sacos plásticos na geladeira. Ficam perfeitos. Garrafas pet também servem, mas na geladeira. É errado?

Neide Rigo disse...

Drika, também acho!

Izabel, os carunchos até que não são nojentos, mas ninguém os quer em seu feijão. E fungos podem ser bem perigosos, como os que produzem aflatoxinas, por exemplo.

Angela, pode guardar na geladeira também. Mas quando se tem uma grande quantidade, não dá pra ser assim.

Um abraço, N

Anônimo disse...

O maior probelam dos carunchos, na minha opinião, é que são hospedeiros e transmissores de vermes aos humanos. Então já viu, né: comeu caruncho ou os feijões carunchados, ganhou de brinde parasitas...

Adorei as idéias da argila e da PET. Vou testar.

Bjs!
Kenia

Marisa Ono disse...

Puxa, dessa eu nunca ouvi falar. Lembro que uns colocavam feijão em uma lata (antigamente os biscoitos eram vendidos em latas quadradas) e colocava-se um copinho feito com papel alumínio e dentro dele um chumaço de algodão embebido em álcool. Ateava-se fogo no algodão, tampava-se a lata e o fogo consumiria todo o oxigênio dentro da lata. Depois veio o freezer e deixaram de fazer isso.
Essa da argila é bem interessante.

Patricia Lieko disse...

Boa idéia, essa é pra guardar!

Cristiano disse...

Olá Neide, na fazenda dos meus primos na Zona da Mata Mineira eles "curavam" o feijão com terra de formigueiro, eles pararam de usar a tecnica pois o mercado exigia um feijão limpinho, com aparência melhor, daí eles passaram a usar veneno. Uma pena... fico muito feliz pela sua valorização das coisas da "roça" Parabéns!!!