terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Mãos senegalesas

Torcendo a mandioca ralada para extrair a fécula - que não conheciam
Numa aldeia, tirando água do poço a seis mãos

Lavando milho para o nixtamal

Limpando peixe seco para os fatayas - bolinhos fritos
Mãos não são mero apêndices. Começam fofas e delicadas apoiadas às costas da mãe. Aos poucos roçam na areia, ganham textura, aspereza.  E contornos de conchas, de pinças, de garfos, de facas, colheres, martelos. Ganham ritmos, destreza, precisão. E direção. Direita para comer, cozinhar, coisas boas e limpas. Esquerda para limpar, tirar lixo, assoar nariz. Às vezes escapam as duas. Mãos que se cumprimentam. Mas mãos femininas podem induzir desejos. Homens, melhor evitá-las ou terão que se lavar antes da oração. Comida se come com a mão. Um naco de carne pode ser dividido com a mão direita e generosa de alguém que distribui porções menores aos que compartilham o mesmo prato. Na falta de uma mão esquerda para cozinhar, juntam-se várias mãos direitas que são mais que um par delas. Mãos se ajudam em alternância nas mãos de pilão para o feijão e cereais para cuscuz. E nas cordas do poço d´água. Em ritmo perfeito, no intervalo sincrônico do vai e vem, meninas moças fazem sobrar tempo para mãos que se estalam em palmas brincalhonas. Mãos adornadas. Esmaltes que tingem unhas, aneis de pedra, pulseiras de prata, contas coloridas dão a dimensão da importância. O que mais me chamou a atenção foram mãos que se ajudam. Vai uma mãozinha aí?  Veja outras fotos: 


9 comentários:

saboracasa disse...

obrigada pela curiosidade.

SallyBR disse...

Neide, nao comento muito no seu blog, mas devo dizer que ADORO suas reportagens...

essas fotos das maos sao incriveis, adorei tudo, as cores, a mensagem...

mil obrigadas por mais uma viagem virtual por esse mundo afora!

nana tucci disse...

linda!

Patricia disse...

Quanta poesia e beleza neste texto e nestas fotos...
Alias, seria uma ideia de projeto fotográfico: Maos mundo à fora...
Obr

marta.hoffmann disse...

Neide,
adorei tudo sobre sua viagem ao Senegal e este texto sobre as mãos, lindo! Acompanho outro blog,amiga que ficará Uganda 2 anos e amo ler as estorias das pessoas que trabalham com estas ONGs, comovente!

Fabiana disse...

"Parece ser próprio do animal simbólico valer-se de uma só parte do seu organismo para exercer funções diversíssimas. A mão sirva de exemplo.
A mão arranca da terra a raiz e a erva, colhe da árvore o fruto, descasca-o, leva-o à boca. A mão puxa e empurra, junta e espalha, arrocha e afrouxa, contrai e distende, enrola e desenrola; roça, toca, apalpa, acaricia, belisca, unha, aperta, esbofeteia, esmurra; depois, massageia o músculo dolorido.
A mão tateia com as pontas dos dedos, apalpa e calca com a polpa, raspa, arranha, escarva, escarifica e escarafuncha com as unhas. Com o nó dos dedos, bate.
A mão abre a ferida e a pensa. Eriça o pêlo e o alisa. Entrança e destrança o cabelo. Enruga e desenruga o papel e o pano. Unge e esconjura, asperge e exorcisa.
[...] Apanha com gestos o eu, o tu, o ele; o aqui, o aí; o hoje, o ontem, o amanhã; o pouco, o muito, o mais ou menos; o um, o dois, o três, os números até dez e os seus múltiplos e quebrados. O não, o nunca, o nada.
É voz do mudo, é voz do surdo, é leitura do cego.
Faz levantar a voz, amaina o vozerio, impõe silêncio. Saúda o amigo balançando leve ao lado da cabeça e, no mesmo acina, estira o braço e diz adeus, urge e manda parar. Traz ao mundo a criança, esgana o inimigo.
[...] A mão, portadora do sagrado. As mãos postas oram, palma contra palma ou entrançando os dedos. Com a mão o fiel se persigna. A mão, doadora do sagrado. A mão mistura o sal à agua do batismo e asperge o novo cristão; a mão unge de óleo no crisma enquanto com a destra o padrinho toca no ombro do afilhado; os noivos estendem as mãos para celebrar o sacramento do amor e dão-se mutuamente os anulares para receber o anel da aliança; a mão absolve do pecado o penitente; as mãos servem o pão da eucaristia ao comungante; as mãos consagram o novo sacerdote; as mãos levam à extrema-unção ao que vai morrer; e ao morto, a benção e o voto da paz. In manus tuas, Domine, commendo spiritum meum" (Alfredo Bosi, citado por Éclea Bosi. Memória e Sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p.468-9)".
Lindíssimos post, Neide. Me emocionou, assim como o das crianças. Um beijo, com muita saudade.

angela disse...

Sabe, a primeira coisa que publiquei na vida foi escrita aos 12 anos e se chamava: As mãos. Foi na revista Garotas!
Me emocionei. Aliás, sua experiência me impressionou tanto.. eu tinha lido a metade dolivro da ingrid Bittencourt, aí me lembrou. Resultado: sonhei que eu tinha ido pra lá também, e vc tava lá, claro. Sonho rico em detalhes.. mas eu não tinha levado toalha de banho, lata de leite, nada..

Neide Rigo disse...

Sabor, Sally e Nana, eu que agradeço por estarem aqui.

Patrícia, o cenário era sempre muito lindo, só faltou uma boa fotógrafa com bom equipamento por lá. Fica a dica para os profissionais.

Marta, qual é o blog da sua amiga?

Fabiana, obrigadíssima por este texto lindo, que não conhecia. Queria ter tido esta inspiração!

Ângela, no sonho estávamos na Colômbia com a Ingrid ou no Senegal. Um toalha de banho é sempre muito útil, não pode esquecer.

Um abraço, N

Pequi disse...

Lindas as fotos das mãos.Ainda bem que existe este espaço para compartilhar tantas coisas bonitas.