quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Quem está por trás das espuminhas

Espuminhas de manjericão, de alecrim, erva-doce, tomilho, tudo isto eu sei fazer. Aliás, toda minha família, a dos cercopídeos, já nasce sabendo e muito bem. Não sei se o senhor ou a senhora tem ciência do meu nome. Não? Philaenus spumarius ao seu dispor.

Crescemos e viramos cigarras, mas enquanto somos ninfas produzimos espumas na mais alta perfeição. Duvido que este tal de Adriá tenha aprendido a fazer. Ele vivia aprisionando ninfas primas, tentando descobrir o segredo. Usou emulsificantes, estabilizantes, sifões e o escambau, foi copiado a rodo, mas se o grande mestre não descobriu nosso segredo de uma espuma resistente a intempéries, o que dirá dos maria-vai-com-as-outras. Se eu fosse mais generoso, até teria contado, mas não deu tempo. Ele desistiu antes. Agora, que ninguém mais liga pra espuminhas mesmo, posso contar. Nos encolhemos geralmente numa forquilha que nos seja aconchegante e ficamos ali sozinhos ou em duplas. Para ninguém nos ver e para nos proteger do sol, da chuva e do vento (mas não de cozinheiros abelhudos), secretamos uma espuma viscosa formada da seguinte maneira: primeiro eliminamos um líquido pelo ..., bem, não me sinto confortável em dizer..., mas os senhores sabem, pelo fiofó, falei. E também excretamos uma substância mucilaginosa formada pelas glândulas epidérmicas que ficam num dos seguimentos abdominais que os senhores vêem aí na foto. Aí, para fazer a espuma alvinha como nuvens, injetamos bolhas de ar que produzimos nos apêndices que temos na cauda. A ideia do sifão até que é inteligente, mas aqueles líquidos que já vêm temperados com o mais puro nectar do manjericão ou outras ervas aromáticas que chupamos, ah, isto é difícil reproduzir, seu moço. Mas o impossível mesmo são os tais emulsificantes biológicos à base de proteínas específicas. Não há lecitina que faça este papel. A gente fica de cabeça pra baixo e a espuma vai caindo suave sobre nossos corpinhos de ninfa e duram um tempão sem se desmanchar. Pode chover canivete  que não nos atinge.  Ah, depois fica chato, que a gente para de brincar de espuminha e vira cigarra, aí tem que trabalhar e a vida endurece. Assinado, P. spumarius








10 comentários:

Priya disse...

Adorei o texto! Biomimética é uma ciência que muitas vezes para no quase...

Dricka disse...

Neide que delicia de texto!
Eu não fazia idéia que as tais espuminhas eram projetos de cigarras.
Acho que estou com um plantação de cigarras em meu pé de manjericão.
Bjs

Anônimo disse...

Ameiiiii pura ciencia ,misturada com biologia e claro poesia Neide Rigo e pura sabedoria e cultura beijos Denise

Gilda disse...

É! So você mesmo para ensinar uma coisa linda destas, da maneira deliciosa que você fez!

Mariangela disse...

Neide, o Adrian fechou as portas e estes dias assisti um documentário sobre ele e confesso que fiquei admirada, ele é alguém totalmente curioso e inquieto,assim feito tu.Neste documentário pude ver muito do que é hoje a cozinha na Catalunya e vários começaram impulsionados por ele.Isto,sem dúvida,tem o seu valor,não só para Espanha.

angela disse...

Se for transformar esse texto em livro infantil, conte comigo!!

Anônimo disse...

So você mesma para transformar uma "praguinha" em um bicho simpático! rsrs
Izabel

Graciana e Daniel disse...

Tivemos isso aqui!!
...e (que ignorância!) pensava que tinham cuspido na nossa erva.
Pobres cigarras!
Agora cuidamos muito bem delas.
Obrigada pelo esclarecimento, vc é muito bem-vinda em nossa vida!!
Graciana e Daniel

Fernanda Scagliusi disse...

Neide, este texto e outros recentes têm um estilo de prosa tão gostoso! Adoro quando vc solta sua veia Guimarães Rosa!

Anônimo disse...

sempre é tempo de aprender com cigarras.


Neide, já gostava de cigarras desde pequena, o canto ou melhor a sinfonia ao entardecer.
Agora vou sempre lembrar das espumosas cigarras da Neide.
Amei, essa ficou com gosto de infância.
bjo ana