segunda-feira, 26 de abril de 2010

Óleo de bati




Trouxe do Terra Madre um potinho de óleo de bati, do qual nunca tinha ouvido falar. Sandra Araújo, de Ceará Mirim - RN, no vídeo abaixo ensina como fazer. Ela estava em Brasília representando os produtores de mangaba e de pitu do Vale do Rio Maxaranguape (já falei do pitu deles aqui) e levou a preciosidade só para atiçar os desejos.
Demorei para achar alguma informação. Até que descobri que seu nome completo é batiputá e o oficial, em latim, Ourotea parviflora. É um arbusto da família das Ocnáceas, encontrado nos tabuleiros do nordeste brasileiro – Ceará, Minas, Rio de Janeiro, Santa Catarina, São Paulo, Minas, Rio Grande do Norte. É também conhecido com jabutapitá, do tupi ïbotï, que quer dizer flor, mais api´tá, feixe amarrado. A partir daí foi mais fácil saber mais.
Tem consistência de uma manteiga e derrete facilmente. O sabor é herbáceo, mas delicado - nada tão marcante como um azeite de dendê ou de pequi. E a cor esverdeada lembra a do azeite de frutos imaturos. O que se faz com ele é principalmente peixe frito e foi o que fiz primeiro. os filés ganharam um bonito dourado e aroma suave. É bom também para fazer farofas, mas ainda não fiz.

A extração do óleo de bati e a do látex da mangabeira já foram atividades corriqueiras no Sul do Rio Grande do Norte no passado, como se vê na dissertação de mestrado de Claudia Maria Moreira da Silva, em antropologia social pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, "Em busca da realidade: a experiência da etnicidade dos Eleotérios (Catu/RN)", de 2007. Fala de hábitos e costumes dos povos da região sul do estado, que abriga, às margens do Rio Catu, reconhecidos hoje como remanescentes indígenas. Abaixo, em itálico, trecho da dissertação, com depoimento de um morador:
Os moradores do Catu me relataram sobre as atividades produtivas praticadas na primeira metade do século XX. Nesse período, ainda produziam boa parte dos alimentos consumidos, tal com o caso do azeite de "bati", o qual passava por um processo intenso de tranformação antes de ser consumido.
"Nós íamos pro tabuleiro apanhar e os pés de bati; era arrudiado de cacho, aqueles cachos desse tamanho. Quando a gente não queria trazer no cacho, nós puxávamos assim e desmanchava os cachos, mas vinha o carocinho com uma cabecinha. Quando chegávamos em casa debulhava, tirava aquelas cabecinha dos carrocinho, quando terminava de debulhar (....), aí botava no fogo pra cozinhar. Quando cozinhava, aí ia pilar {para transformar} na farinha, botava no pilão até ficar aquela goma, uma massa quer dizer. Aí, botava num balaio, um cesto, né? Um balaio forrado com um pano qualquer. Levava para o rio e lavava pra tirar aquela nata. Quando chegava em casa botava no fogo pra derreter e ficar aquele caldo. Tirava aquela bucha no pano e espremia assim e limpava e botava no fogo pra apurar, pra tirar a água, (...) era cozinhado no fogo de lenha. Quando estava quase pronto, ele "chiava". Quando não chiava mais, esta pronto o azeite. Aí botava numas garrafas e botava no canto da parede assim. Às vezes, levava pra vender na cidade e às vezes vendia em casa mesmo. Usávamos também para comida, a gente comia com farofa de farinha. Nós trabalhamos muito aqui (...). De lá pra cá, acabou tudo. As canas acabaram com os matos, onde tinha o bati e as mangaba, não é? (Manoel Lourenço. Catu, 2006).
Ceará Mirim, de onde veio o meu óleo de bati, está ao norte de Natal, enquanto o Catu da dissertação, está ao Sul. Mas num canto ou noutro parece que hoje poucas pessoas mantém a tradição, já que o processo ainda é artesanal e muito trabalhoso.
As mulheres costumam colher os cachos e levar para casa para debulhar numa atividade coletiva. São necessários 15 litros de frutos para se extrair apenas 1 litro de óleo, num trabalho que envolve debulhar, socar no pilão, cozinhar, separar o óleo.
É tão trabalhoso, que a pouca produção serve apenas para abastecer a demanda local, especialmente no período da Semana Santa, já que a data coincide com a safra do bati. Por isto não há comércio para o item. Pelo menos por enquanto, já que minha amiga Adriana Lucena, lá de Natal, me contou que vai levar na próxima semana um litro dividido em porções pequenas para a feira orgânica de Natal. É que assim é mais fácil vender, já que um litro não sai por menos de 50 reais. Enquanto o trabalho for artesanal e não houver tecnologia para agilizar a produção, não dá mesmo para vender por menos. Quem quiser arriscar uma encomenda, aqui vai o email da Adriana Lucena, que pode intermediar o contato com as mulheres produtoras: aroeira.pimentas@yahoo.com.br.

17 comentários:

Claudia disse...

Neide,

Que incrível esse óleo e o fato dele ter sobrevivido apesar da destruição do estilo de vida nos tabuleiros. Mas é um óleo ou uma manteiga? Tem cara de manteiga, não? E o valor nutricional, você já investigou??

Bj,

C.

Neide Rigo disse...

Claudia,
é um óleo porque é vegetal - pela característica sólida em temperatura ambiente, pode ser chamado também de gordura de bati. Manteiga de bati é justamente pela cremosidade. Não encontrei nenhuma análise da composição de ácidos graxos, mas, a julgar pela consistência, deve ter ácidos graxos saturados em quantidades apreciáveis. E, pela cor, bastante clorofila. Continuo na procura de mais trabalhos a respeito.
Um abraço, N

Margot disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Margot disse...

Oi Neide, gostei da cara desse oleo. Quando vc descobrir alguma info sobre a analise dos acidos graxos e outros valores nutricionais, to ficando aqui na escuta, . Bjs

Veronica disse...

Neide, descobri você pelo site do Carlos Alberto Doria - o qual tinha virado minha leitura prioritária diariamente... como disse, tinha... você "roubou" o espaço dele (e isso não é coisa pouca, né? amoooo as coisas ue ele escreve. ele ficou para 2º lugar, mas continua no topo da listinha...rss). Trabalho no Ministério do Meio Ambiente e desde outubro passado sugeri que as receitas postadas no Jornal Mural (interno) fossem com ingredientes da biodiversidade brasileira (antes não vinha sendo). Daí, dessa sugestão, virou uma obsessão a minha pesquisa sobre gastronomia e biodiversidade brasileira até chegar em você e descobrir que era tudo que eu queria ser (rss)... Esse ano assumi a coluna (que está com atraso na publicação por vários motivos) em decorrência do Ano da Biodiversidade. Não preciso dizer que o seu site daqui para a frente é uma das minhas fontes de inspiração, aprendizado e conhecimento. Estou encantada e cada dia você me surpreende mais. Parabéns! Continue com seu trabalho e peço licença para te "imitar"... inevitavelmente executarei e publicarei alguma receita sua, mas pode estar certa que lhe darei os devidos créditos e postarei aqui ou te enviarei um email com o conteúdo. Obrigada por me enriquecer de conhecimento sobre "biodiversidade para comer" e pela gentileza que lhe é característica (já que deu - e nuito - para perceber!!), Veronica (veronicamtavares@yahoo.com.br - este email é o que mais uso)

Neide Rigo disse...

Margot, pode deixar!

Veronica, estar junto com o Dória nos seus favoritos é uma honra para mim. E fico muito feliz de saber que o que faço está sendo útil de alguma forma. Obrigada!!

Um abraço,
N

Equipe Gastromotiva disse...

Sensacional o blog!!

Temas, textos e fotos incríveis, que cativam e deixam com "gostinho de quero mais"!

Sucesso para você e para o blog! =)

abraços

carlinhos de lima disse...

Sempre aprendizados!
A cada passada aqui mais coisas a aprender contigo, Neide: obrigado por me ensinar!

clau disse...

Nossa...que trabalheira danada para se conseguir um tantinho deste oleo...
O danado deve ser bom mm!
Bjs!

Anônimo disse...

Olá, só uma pequena contribuição para enriquecer mais ainda suas colocações. Sou Bióloga e trabalho em especifico com plantas, e caso interesse para alguém pesquisar mais sobre o bati, a escrita do nome da familía é Ochnaceae. Espero ter ajudado. Bjs

Neide Rigo disse...

Oi, Bióloga (qual é o seu nome?), coloquei o nome aportuguesado da família, mas agradeço muito a contribuição. Um abraço, N

Anônimo disse...

Maravilhosas essas informações sobre essa planta superinteressante e versátil. Já estive a turismo na reserva indígena da Baía da Traíção, na Paraíba, e eles usavam essa planta e fiquei curiosíssima (vi muitas delas na floresta ao redor, pela região). Adorei ler tudo isso aqui, obrigada por postar tanta coisa interessante sobre essa planta, pois há tempos que vinha procurando. Vou tentar mais à frente ver se consigo fazer alguma receita (um peixe também, pois esse aí ficou maaara) quando eu for de novo ao Nordeste. Abraços e parabéns pelo belo blog!! Celene - Porto Alegre

Neide Rigo disse...

Celene, obrigada!
Um abraço, N

Juliana Gondim disse...

Oi Neide! sou antropóloga e pesquiso os índios Tremembé, no Ceará. eles tb fazem o óleo de batiputá, masusam uma técnica um pco diferente da q vc descreveu. estou mto curiosa sobre a composição desse óleo, eles usam não só pra comer, mas como cicatrizante, no q ele é mto eficaz. há uma pesquisa aqui da universidade estadual do ceará q analisa os efeitos do óleo sobre a pele, mas de fato ainda não encontrei nada sobre o valor nutricional, por favor, se vc encontrar, entre em contato. caso se interesse pela pesquisa da uece, posso mandar pra vc, mas é fácil encontrar aqui na internet. abraços!

Neide Rigo disse...

Oi, Juliana!
Infelizmente também não tenho informação nutricional do óleo de bati.
Vou procurar o trabalho.
Um abraço,n

Unknown disse...

Olá, Neide. Moro numa região de São Paulo que tem muito dessa planta. Tive indicações sobre ela e estou em busca de mais informações terapêuticas. Gostaria de manter contato. Grata, Antonieta.

Anônimo disse...

Oi, descobri o Bati nessa semana santa (2016) lá na região de Pititinga, uma praia que fica no município de Rio do Fogo/RN, e fiquei encantado com o sabor, bem suave e diferenciado. Há uma senhora que faz em Lagoa Grande, próximo a Pititinga, adquiri um porte de meio litro por R$ 20,00 e preparei um camarão que ficou maravilhoso. Depois de descobrir o Bati também descobri seu blog. Duas boas descobertas!!! Um Abraço. Adalberto Dal