sexta-feira, 9 de abril de 2010

Flores do caminho ou bolinho com flores de pincel-de-estudante

Flores e botões de Talinum paniculatum ou lingua-de-vaca ou beldroega-grande ou maria-gorda ou etc. Comestíveis e decorativos
Todos os dias, por volta das sete da manhã, saio para passear com a Dendê. E todos os dias nesta mesma faixa de horário o vizinho do Gol vermelho tira o carro da frente para a filha sair. Ela sai com o kazinho prata, ele retorna o seu, fecha o portão e volta pra dentro ainda de roupão. Tem também o casalzinho novo da casa branca que ajeita no Palio branco a mochila da academia, o laptop e as tralhas da criança que entra no carro ainda sonolenta e reclamona. E, em algum lugar da minha trajetória, sempre cruzo com um homem meio arcado e cabisbaixo, com valise de trabalho, que vem da via de baixo e segue pela minha rua encompridando o caminho até o ponto de ônibus. É que talvez a soma das duas distâncias dê o tempo certo, antes de chegar ao seu destino, para acabar de fumar o baseado que invariavelmente vai deixando o rastro e faz a Dendê querer segui-lo. E que no começo me fazia pensar: mas a esta hora? Agora já me acostumei.
Fora estes três eventos recorrentes, minha trajetória a esta hora é vazia de acontecimentos. Em compensação, o mundo verde à minha volta está em constante mudança. Ainda mais agora no tempo molhado que o crescimento das plantas quase pode ser visto a olho nu. Um dia olho para a calçada e dentes-de-leão se abrem em rosetas; no outro, beldroeguinhas rasteiras já vão ocupando a terra com suas ramas; do nada surge uma horta de linguas-de-vaca que não demoram a lançar flores e brotos em bolinha furta-cor; do alto da terra amontoada pelo formigal surgem carurus que já chegam maduros. Quando as serralhas de flores amarelas amadurecem, bate um vento e a bola em pluma se dispersa voadora pra sempre. Num outro dia, num piscar de olhos se vê um jardim de
serralhinha florida em vermelhos pinceis. E aí que não resisto.
Peguei um tanto de flores que foram pra panela, em mais um daqueles dias em que se tem apenas um ovo na geladeira e nenhum tempo ou vontade de ir às compras (o meu bairro tem isto de ruim, não tem nada muito perto). Mas ficou bom, com sabor herbáceo e uma pitada de picância desejável.


Vendo agora a foto da massa, penso que um recheio de quiche com estas flores poderá ficar bom
Bolinhos com flores de pincel-de-estudante
Bati, até espumar, um ovo. Temperei com sal, pimenta-do-reino, um pouco de queijo ralado e salsinha. Juntei 1/4 de xícara de flores de serralhinha jogadas na água fervente e escorridas. Adicionei meia colher (sopa) de farinha de trigo e mexi delicadamente. Cozinhei naquela frigideira de ferro concavada de takoyaki com uma gota de azeite em cada cavidade. Virei com hashi para dourar do outro lado. Mas se não tivesse a frigideira, fritaria em pequenas porções numa frigideira antiaderente com um pouco de azeite, como qualquer fritada.
Rende 6 bolinhos

13 comentários:

clau disse...

Gostei, e achei muito meiguinha esta sua descriçao dos fatos cotidianos.
E, depois, o bucolismo da sua refeiçao sò poderia vir de vc mm, que come estas coisas sem o risco de se ver envenenada. rss rss
Bom fim de semana, Neide.
Bjs!

Marcia H disse...

Neide,
achei "Portulak" num supermercado. Oh felicidade.
Sabe, fiquei triste, comovida, ao ler seu texto sobre Fartura. Espero que quem compre, saiba apreciar, desfrutar e continuar construindo como vocês.

Dino disse...

Neide, belíssimo texto! Vou insistir: você tem que eternizar essas pérolas. Coloque em livro!

Gina disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gina disse...

Neide do céu! Me reconheci no seu texto. Tenho caminhado diariamente com nossos cachorros e saio com máquina fotográfica, porque a variedade de plantas e flores que encontro é incrível. Meu marido vai junto e às vezes não entende porque fotografo matinhos, que aparentemente não passam de matinhos...
Essas continhas coloridas são uma graça, assim como os pincéis-de-estudante. Quanto a comer, bom aí deixo com você!
Bom final de semana.

Dani disse...

Bolinho das florzinhas que eu usava de comidinha de mentirinha quando brincava de bonecas.
Ingrediente lúdico e texto poético que me emocionaram.
Realmente, em uma quiche ficaria incrível de linda!
Parabéns!

Dricka disse...

Neide viciei tambem no pincel de estudante, aqui rolou um risoto cremosissímo com linguiça e as maravilhosas florzinhas, além de lindo ficou muito saboroso.
Bjs

Leila disse...

Muito interessante esse post como todos que tu escreve. Fiquei algum tempinho aqui lendo e eh tao gostoso!!!
beijinhos

Mari Falcão disse...

Boa, Neide! Vou testar as quiches com as florzinhas de pincel e ver no que dá. E boa sorte com a venda da chácara, que os negócios sejam bons e que vcs consigam logo um novo cantinho pra continuar a constante integração harmônica com a natureza. É muito bonito o que vc faz!
Beijo,
Mari

Carmen disse...

Qué rico Neide, con estas entradas con flores que son para mí encantadoras. Yo también escribí sobre flores comestibles. En México tenemos muchas, igual que en tu lindo país.

Un abrazo fraterno

Pimpolho disse...

Seu blog é maravilhoso, parabéns!!!

lia disse...

sabe, tambem fiquei muito emocionada!Realmente vc devia escrever um livro!!
estou com muita vontade de experimentar essas plantinhas silvestres, so tenho medo de me equivocar e acabar me intoxicando! Como saber se não é toxica,apenas uma planta parecida?

Neide Rigo disse...

Lia,
para ter certeza sobre as espécies comestíveis é bom consultar livros e aprender ao vivo com quem conhece. E saber identificar as plantas venenosas também ajuda. Para isto também há vários livros sobre o tema. Mas neste caso não há nenhuma planta venenosa parecida com esta.

Um abraço, N