segunda-feira, 15 de março de 2010

Alcaçuz ou regaliz de Barcelona


Toquinhos em goma e de verdade: ganhei os dois!
Além do meu pimentón de La Vera, os amigos Rui e Mariângela me trouxeram de Barcelona toquinhos de regaliz (ou orozuz, palo dulce, paloduz), conhecidos por aqui como alcaçuz. Gosto do nome em italiano - liquirizia. Por lá, são vendidos na rua, nas feiras, junto com balinhas de goma do mesmo sabor e as pessoas saem mascando como fazemos com pedaços de cana. Nunca fui fã de caramelos ou gomas de alcaçuz (Marcos adora e por isto vieram também as gominhas), mas tinha curiosidade para provar a planta.
Também nunca havia parado para pensar que o formato das balas em cobrinhas pretas, com um miolo mais claro fosse uma alusão aos próprios galhos marrons por fora e amarelados no interior. Depois de alguns dias de viagem, os meus chegaram com um mofinho verde no corte, mas descartei as pontas e provei a porção do meio. Docinho, amargo, anizoide, enjoativo, difícil de gostar à primeira mascada. Ontem, dei às visitas que almoçaram aqui para provar. Ninguém aprovou e as crianças, filhos da Veronika, fizeram cara de entojo, assim como os seis adultos, me incluindo aí. De qualquer forma, bom ter amigos assim - não fossem Mari e Rui, jamais saberia disso.

Nem todo toco doce pode ser mascado
Se por aqui adultos e crianças rejeitaram, não é o que acontece por lá, já que as lojas de bala parecem vender o toquinho mais que os doces. As crianças aprendem a mascar desde pequenas e carregam pedaços na mochila da escola para ir chupando aos poucos. Os amigos me contaram a história engraçada de uma catalã que conhecem lá. Ela disse que quando tinha uns nove anos, achou uma planta que julgou ser alcaçuz. Chupou e teve a quase certeza. Então, decidiu sem ajuda de adultos a cortar em pedaços e oferecer aos amiguinhos da escola. Vendeu por miseras pesetas todo o carregamento, de tanto que as crianças gostam da guloseimas. Quando chegou em casa, começou a passar mal e foi ficando pior a ponto de ser internada e perder aula no dia seguinte. Quando, recuperada, voltou à escola, encontrou sua sala de aula esvaziada - todas as crianças haviam sido intoxicadas e estavam doentes em casa.
A planta
Da família das Papilonáceas, o alcaçuz (Glycyrrhiza glabra) é originário do sudeste e sudoeste europeu, centro da Ásia e também países mediterrâneos do Norte da África. Gosta de solos arenosos e úmidos, perto de rios. Calcula-se que seja usado como medicamento há mais de 3 mil anos, sendo mencionado em papiros egipcios, herbários chineses e documentos assírios. O nome científico do gênero, Glycyrrhiza, parece vir de Glukos Riza ou raiz doce, derivando daí vários dos nomes populares. Além de saponinas, flavonoides, cumarinas, triterpenoides e óleo essencial, os talos e raízes da planta podem conter de 3 a 14% de carboidratos na forma de glicose, sacarose e amido, e outras substâncias como gomas, resinas, proteínas etc.
Hoje é muito usado e referendado na farmacologia, com propriedades expectorantes, imunoestimulantes, gastroprotetoras e anti-inflamatórias. Estudos mostram ainda importante atividade anti-ulcerogênica. Mas também há efeitos colaterais - o consumo excessivo, especialmente se for de extrato puro de glicirricina (o que não acontece só de mascar), pode gerar um quadro de pseudo-hiperaldosteronismo por ação de mineralocordicoide e isto levar a retenção de sódio, cloro e água, edema, hipertensão. O uso contínuo também pode reduzir os níveis séricos de testosterona. Por isto, quem tem insuficiência renal, hipertensão, neoplasias hormono-dependentes, hiper-estrogenismos, esteja grávida ou precise tomar corticoides, deveria evitar o consumo excessivo de balas de alcaçuz ou tomar medicamentos à base do seu extrato sem orientação especializada. Para mais informações sobre isto, veja o livro "Tratado de Fitofármacos y nutracéuticos", de Jorge Alonso, em que vários trabalhos são citados.

Em Barcelona, os toquinhos vendem mais que as gomas. Foto: Rui Gassen

13 comentários:

Marcos disse...

Eu gostei do toquinho!

Mariângela disse...

hahahahaha Neide,eu também achei esta madeirinha nojentinha,pode me incluir aí na lista!! o post ficou ótimo,beijo!

Bombom disse...

Gostei muito de aprender mais sobre o alcaçuz. Aqui em Portugal é quase desconhecido, mas eu sabia que ele tinha efeitos medicinais e por isso costumo usar no Inverno uns rebuçados para a garganta e vias respiratórias, que compro na Farmácia. Não são uma gulodice, mas tomam-se bem.
Obrigada, Neide, Contigo sempre a aprender!Bjs. Bombom

clau disse...

Hum...
Eu nao gosto nadinha de liquirizia.
O maximo que aguento é uma bolinha prateada, e minuscula, daquelas de Gintan, ou Jintan (pq nao me recordo mais como se escreve): e olha la!
Mas o meu avo Luis, que era calabres, adorava!! Rss rss
Boa semana, Neide.
Bjs!

Fernando disse...

Apesar de já ter ouvido falar do alcaçuz, nunca imaginei que ele fosse assim... aliás, nunca consegui imaginar um alcaçuz! Obrigado!

Chopp disse...

ótimo post

Neide Rigo disse...

Mariângela, incluo você, excluo o Marcos que me corrigiu, e continuamos maioria.

Obrigada, Bombom!

Clau, também gostava de Gintan, nunca mais vi. Existe ainda?

Pois é, Fernando, nem eu.

Obrigada, Chopp.

Um abraço, N

Sônia disse...

Muito bom...

Daniel Florence disse...

Soube que o alcaçuz é ótimo para "acalmar" o estômago. Estou procurando as tais balas para experimentar. Por enquanto encontrei o pó para chá.
Vamos ver no que dá.
Obrigado pelas informações.
Abraços

codorna disse...

Olha, eu amava as balas de alcaçus que vendia na Kopenhnagen. Desde criancinha que minha avó comprava. Agora, não sei porque, não vendem mais...E onde achar?

PS Vc colocou o alcaçus bem em cima da capa do disco da Clara Crocodilo ????rsrsrsrsrs

Neide Rigo disse...

Codorna, que legal que você reconheceu o Clara Crocodilo! Um beijo, N

Chaouki Haddad disse...

Apenas como um adendo às suas informações, lembro-me dos meus 6 anos de vida, hoje estou com 69 (faz teeeeempo..rsrs) quando eu ia para a escola, pertinho de casa, lá no Líbano, eu passava por um terreno baldio onde havia algumas plantas (alcaçuz, embora não soubesse disso) das quais eu arrancava um pedaço e ia mastigando... Delícia... Bons tempos que sua postagem me fez rememorar. Um abraço.

Julyannah Santhos disse...

Adorei o post... sou viciada nessas balinhas, mas nunca tive a curiosidade de saber do que elas derivam. Hoje procurando na net um lugar pra comprá-las aqui no Brasil, achei o seu blog, gostei muito! Um abraço... Julyannah