segunda-feira, 30 de março de 2009

Gongo, tapuru, coró, morotó, fofó, boró, bicho-do-coco. Resposta à charada


Não imaginava que com a simples pergunta do post anterior pudesse agrupar tanto conhecimento nas respostas. Não sabem como fico agradecida por terem me ensinado mais do que já sabia dos livros sobre estes bichinhos comestíveis. Que são larvas do besouro Pachymerus nucleorum que crescem nos frutos de várias palmeiras, isto a gente encontra em qualquer enciclopédia. Mas descobrir outros nomes regionais como gongo, tapuru, coró, morotó, fofó, boró, além de formas de se comer, só assim mesmo, reunindo gente de lugares tão distantes. Veja comentários lá no
post.


A Hildeny Medeiros, de Teresina – PI, disse; “Não sei como vocês chamam aí no Sul, mas aqui no Nordeste (pelo menos no Piauí e no Maranhão) nós chamamos de gongos. Eles são gerados dentro dos bagos do coco babaçu, palmeira muito comum por aqui. No interior do Maranhão costuma-se fritar os bichinhos e fazer farrofas ou acrescentá-los depois de fritos ao arroz, fica muito gostoso. Algumas pessoas acham nojentos, mas na verdade essa larvas são limpinhas por que elas, como já disse, são geradas dentro do bagos do coco, portanto não tem nada de nojento. Delicias de meu Maranhão.”


Marcos acertou o bichinho e o coco: “Lá na Bahia chámavamos de morotó a esses bichinhos de coco licuri”. Já a Marcia, que hoje mora na Alemanha, mandou: morotó ou fofó, bichinho de licuri, bom isso, tem proteína - e como disseram acima: é limpinho”. Lá de Porto Alegre, o amigo Rui, se lembrou dos corós que, diferente do morotós, se alimentam da madeira: “Aqui no sul tem larvas de coleópteros que se alimentam de madeira em decomposição. São chamados de corós e tem o tamanho aproximado de 5 cm. Meus parentes diziam que os indios os comiam”. E a Ana Lúcia, de Curitiba, que já morou em várias partes do Brasil, completou: “Eu conheço por tapuru, como são chamados na Amazônia. Eles servem de alimento nos exercícios de sobrevivência na selva, pois dizem que são muito proteicos e embora com aparência meio repugnante e advindos de moscas, são comestíveis pois se alimentam principalmente das polpas dos cocos. O Problema é levar à boca uma coisa viva e que fica se mexendo.”


Embora soubesse a resposta, Claudia, de Porto Alegre, não acreditou na sua intuição: “Bem, não creio que se trata de "gongos", corós, morotós ou fofós, não parecem muito com corós, nossos sobrinhos já comeram lá no sitio e disseram que é bem doce ( coró de butiazeiro ) - me parece uma espécie de fruto ou até mesmo de amêndoa”. Mas a Clau, que mora na Itália e nunca comeu, pelo menos já viu de perto: “Mas isto me lembrou o tempo de faculdade quando, fazendo trabalho de campo lá no parque do Xingu, nos deparávamos com o cardápio dos índios: macaco assado, formigas tostadas, o cheiro azedo do biju, peixes inteiros (algumas vezes ainda vivos) jogados dentro de uma imensa caçarola cerâmica com água fervendo. Devia ser um manjar dos deuses, mas se diz que o que os olhos não veem o coração na sente - comigo é bem assim!"


Se é de comer, eu como. Mas o meu, cozido e com sal, por favor.


Ganhei um pacote de licuri do Alcino, de Lençóis – Chapada Diamantina - BA. Lindos, os coquinhos todos inteiros. Na sexta-feira a Eliana, a baiana que trabalha comigo, viu um bichinho saindo de um dos coquinhos dentro do pacote. Aí fizemos a festa. Despejamos tudo numa bacia e fomos escolhendo: este tem, este não tem. Eu não saberia diferenciar, mas ela faz isto de olhos fechados. Isto significa o seguinte: melhor comprar licuris quebrados que inteiros. Pois, apesar de muita gente apreciar, não é muito agradável meter na boca coquinhos crocantes para só descobrir o recheio úmido e macio depois, entre o dente e a goela. É bom sempre saber o que se está comendo.


E os bichinhos assim, retirados vivos, gordos e branquinhos de dentro dos coquinhos, não são exatamente o tipo de alimento com appetite-appeal, pelo menos para quem não os tem como parte da cultura alimentar. Mas como ninguém sabe o dia de amanhã e, em se tratando de proteína comestível, saudável e gostosa, não custa experimentar. Eliana disse que na região dela o bicinho é comido vivo. Assim é demais para mim, mas, para isto temos o fogo. Foi só aquecer na frigideira com um pouquinho de azeite (isto mesmo, ainda vivos, como fazemos com ostras) e eles se aquietaram rapidinho. Ficaram crocantes e soltaram gordura – de modo que não precisaria de azeite no preparo. Para comer, polvilhei com flor de sal e nhac. Aliás, quando escrevi aqui sobre a oficina de culinária dos Guarani,mostrei o xipá, tipo de pão chato hoje feito com trigo mas que antes era feito com milho e frito em gordura de Ixo, como são chamadas estas larvas ricas em gorduras e com propriedades medicinais.
Minha decepção foi em relação á Eliana que não queria comer de jeito nenhum. Bobagem, menina, é uma delícia, tem gosto de torresmo de porco dourado em gordura de coco. Acho que a convenci, ela comeu e gostou. Pensei numa farofinha ou sobre arroz molinho recém feito. Pena que tinha pouco. Não deu pra inventar muito nem sobrou para o Marcos. Mas os coquinhos estão lá, quem sabe um outro tanto não engorda pra semana?

21 comentários:

Bianca Elisa disse...

Nossa... quanta novidade, quanta riqueza cultural. Parabéns.
Eu nunca tinha visto, ou ouvido falar, mas não teria problema em experimentar não, já comi coisas bem estranhas mundo afora. rsss
Um beijo e uma ótima semana a todos.

Afrika disse...

Estou abismada! Digamos que nem conhecia nem sabia que se podia comer. O que não quer dizer que nao fosse capaz de o fazer, eu sinto me um pouco como os chineses "como tudo o que voa menos avião, come tudo que esta no mar menos barcos, come tudo o que caminha menos o homem" :D

Anônimo disse...

Oi Neide
estou impressionada com a riquesa do seu blog, parabéns, vou add no meu ok?!, o coitadinho ainda é meio capenguinha mas é feito com bastante carinho, dá uma olhadinha vou me sentir lisonjeada !!!
bjinho

georgia bastos disse...

ixxi com vc vai olhar sem saber qual é né? eita!!!!rsrsrsrs

A DONA DO MUNDO disse...

TAÍ, FIQUEI CURIOSA
SE TANTA GENTE COME? DEVE TER LÁ SEU VALOR, E MORTINHOS DA SILVA ACHO QUE DÁ PRA ENCARAR KKKKKK
BJ

Cherry Blossom disse...

Riquezas desse nosso mundão com certeza.
Mas eu não sei se teria coragem de comê-los!..a menos... que a necessidade... Ai é outro assunto....
beijo!

Mariângela disse...

Neide,eu adoraria provar,que a vida é curta demais para deixar passar tantas possibilidades novas que aparecem,se tem gostinho de côco então,tá prá mim o verminho,beijo!!

Paula Chin Chan Pacheco disse...

Olá Neide,coloquei-a no meu blog...da uma olhada...e parabens por cada reportagem diferente e criativa...mas não sei se teria coragem de comer "os bichinhos"...abraços!!

Raul e Joel Carvalho disse...

Visualizei o seu blog e achei muito interessante... Parabens

Gostaria de lhe pedir se poderia colocar o link do meu blog no seu site: http://do-nariz-a-boca.blogspot.com/

Pode ser??

Quando colocar envie um mail para aqui: pirusas.carvalho@hotmail.com

Abraços

Eduardo Luz disse...

Seja qual for o nome, eu comia! O problema é onde achar ?
Abs.

Anônimo disse...

Que interessante essa história.Eu vim parar aqui, porque comi os tais bichinhos provenientes do babaçu na Transamazônica com os índios Tenharin. Eu adorei! fizeram assado e com farinha. Eu que sou Amazonense da gema, no meio da floresta não iria recusar jamais e ainda mais com meus amigos do coração, os Tenharin. Bem, mas a história é que eu vim confirmar o nome, pois acabei aprendendo como Gomo, na realidade é Gongo, e acabei nomeando meu poodle micro-toy pois é pequenino e branquinho. Estou morando em Floripa e gostaria de dar um nome original. Aí me deparei com essa diferença de nomes, e agora tenho que pensar se mudo ou não, pois já acostumamos com o primeiro. Ainda bem que os nomes são parecisos, rsrs. Foi um prazer, beijos a todos.
Katarina de Paula, kdepaula@yahoo.com.br

Carmen disse...

Es un placer comer insectos Neide, definitivamente, en cualquier lugar del mundo:
http://saboreartentusiasma.blogspot.com/2008/04/ra-ngo-ga-huni-ma-hai.html

http://saboreartentusiasma.blogspot.com/2006/04/festival-de-santiago-de-anaya_02.html

saludos

Anônimo disse...

Então..., no Estado do Maranhão e Piauí, por exemplo, esse bichinho, já salvou muita gente. Todos os interioranos os comem, minha irmã os come crús, eu, somente fritinhos. Que delícia! E quem não admite que já os comeu, é porquê tem vergonha. Que bobagem! Proteina pura!

Erika Maranhão

Diego Borges disse...

Olá Neide ! Sou um estudante de Biologia e to fazendo uma pequisa sobre esse bichinho ai , aqui na minha região ele é bem comum, o povo come tanto cru como frito sem nada pois ele se alimenta da castanha do Babaçu e ela é muito oliosa sendo assim ele lambem é rico em óleo.To postando minha pesquisa no meu blog e vou citar o seu ta bom. Um abraço e parabéns pelo blog :)

Kika disse...

Moro no Piauí e gostaria de acrescentar que a questão do nome varia não só de acordo com a região, mas também em decorrência da fruta ou palmeira em que se desenvolve a larva. No caso, o gongo é especificamente do coco babaçu, mas tem as larvas de buriti, por exemplo, que deve ter um outro nome.
Agora tapuru não é larva comestível não. Pelo menos, na minha região, tapuru é uma larva que vive no esgoto.

Leonardo disse...

muito interessante...eu como uma vez ou outra quando vou para a chakra do meu amigo, comemos ele cru. ele tem uma testura meio borrachenta mas tem sabor de coco! delicioso e fonte de proteínas de guerreiro! brother
só uma observação: boró e tapuru são larvas de mosca, essas pessoas se confundiram.

Anônimo disse...

nada disso!!! não entendo sobre, mas aqui na bahia, morotó he coisa mui podre, esses bichos crescem em coisas em decomposiçao, totalment diferente do bicho de coco, goiaba e etc, he mui nojentoooooooo

railana disse...

eu e minha prima virmos todos os comentararios e um anonimo tem razao e muito nojento e nos n sabiamos q podia comelos ass.railana swan e luiza swan kiss

Rosangela disse...

Aqui no Tocantins nós chamamos de gogolô, bigolô ou gigolô. Uma delícia!

Unknown disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Unknown disse...

por favor me explica o que acontece com os bichinhos, que nascem no coco, quando eles não são retirados da fruta? obrigada.